O Historiador David Carneiro
- Arthur Virmond de Lacerda Neto

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O Historiador David Carneiro
Por Arthur Virmond de Lacerda Neto
Origens e Juventude em Curitiba
David Antônio da Silva Carneiro (de pai, avô e bisavô homônimos) nasceu em Curitiba, em 29 de março de 1904, na rua Mateus Leme, na vivenda em que então habitavam seus genitores (contígua, à direita, ao atual Museu Alfredo Andersen). Não era parente próximo do general Antônio Ernesto Gomes Carneiro, nem se conhecia origem comum entre ambos.
Criança, viveu na Vila Tranquila, mansão de seus pais (já demolida). Jovem, morou em um apartamento nos fundos dela, onde acomodou as primeiras peças de seu museu. Adulto, erigiu um sobrado na rua Desembargador Mota (número 1635) e, em 1949, seu solar cor-de-rosa, no número 1828 da rua Brigadeiro Franco, cuja fachada inspirou-se na descrição da casa nomeada Ramalhete, do romance Os Maias (de Eça de Queirós).
Tal frontaria remanesce, embora com a ausência de alguns de seus ornamentos. Parte do que lhe corresponde na antiga vivenda contém hoje o Espaço Cultural David Carneiro, onde se expõem alguns de seus livros, uma fotografia sua em tamanho grande e comercializam-se lembranças de Curitiba.

Formação e a Influência Positivista
De 1918 a 1922, David estudou no Colégio Militar de Barbacena e, seguidamente, no Colégio Militar do Rio de Janeiro. Lá, graças a professores como Alfredo Severo dos Santos Pereira e Heitor Cajati, adeptos do Positivismo de Augusto Comte, conheceu a doutrina e aderiu a ela, em convicções que lhe foram vitalícias.
De volta ao torrão natal e ainda moço, de 1930 a 1932 (contava de 26 a 28 anos), presidiu o Banco do Estado do Paraná. Formou-se em engenharia civil pela Universidade do Paraná, em 1927, porém mal atuou como engenheiro. Dada a morte prematura de seu pai no ano subsequente (o coronel da Guarda Nacional David Antônio da Silva Carneiro), assumiu a administração da Ervateira Americana. O engenho de erva-mate de vultosa dimensão ocupava toda a largura da rua Brigadeiro Franco, entre as ruas Emiliano Perneta e Comendador Araújo, e acabou destruído por um incêndio em 1944.
O Historiador Douto e sua Biblioteca Dispersa
Não se graduou em história (sequer havia tal curso na época), porém foi historiador de avultada produção. Já octogenário, foi admitido na Academia Brasileira de História. Não era mestre nem doutor — era douto. Repugnavam-lhe a mediocridade como padrão pessoal e a incultura como traço dos povos. Sua vida foi de aprendizado constante, por leituras de que era ávido: aspirava a saber sempre mais, e sabia muito.
Sua biblioteca de cerca de sete mil volumes encadernados foi vendida, em porção menor, em um alfarrabista de Curitiba logo após seu decesso, dispersando-se. A porção paranista foi vendida para a Universidade de Perth, na Austrália. Ele possuía também a Biblioteca Positivista (acervo de livros recomendados por Augusto Comte), na qual havia raridades.

Difundiu seu conhecimento por livros, ensaios e artigos que publicou em revistas várias. Ministrou cursos na Escola de Belas Artes do Paraná (Arquitetura Analítica), no departamento de Economia da UFPR (Evolução da Conjuntura Econômica), no de história da Universidade de Brasília (História do Brasil) e na Escola Superior de Guerra (em 1957). Também lecionou no Chile e, várias vezes, nos Estados Unidos da América: em Nebraska (1961), na Universidade da Califórnia em Los Angeles (1966), na Universidade Harvard e, já septuagenário, em Ohio (1975), experiência que rendeu a obra My sojourn in Ohio, acessível por via eletrônica paga.
Como estudante, recebeu medalha de ouro no Colégio Militar do Rio de Janeiro pelo primeiro lugar no curso. Ao longo da vida, foi agraciado com oito condecorações nacionais e estrangeiras, sendo três no grau de comendador.
O Combate à Lusofobia e a Defesa da História Nacional
No ambiente brasileiro, a lusofobia ou antiportuguesismo era, e ainda é, inculcada nas escolas por livros e docentes, sendo cultivada nos meios universitários e intelectuais. Culpa-se a formação portuguesa do Brasil pelos males deste, presentes e pretéritos, embora da independência em diante os brasileiros tenham se tornado os únicos responsáveis pelos destinos de seu país. Como bode expiatório, acusa-se a “herança colonial”, com o que se dissimula a incapacidade dos próprios brasileiros de corrigirem o que julgam estar mal. A “herança colonial” permanece apenas naquilo que eles não desejaram retificar.
Autores como Sérgio Buarque de Holanda, José Honório Rodrigues, Salgado Freire, Valfrido Piloto, Renato Janine Ribeiro, Júlio José Chiavenato e Laurentino Gomes encarnam os depreciadores do passado brasileiro. Por outro lado, vultos respeitáveis da historiografia nacional atuaram sem o vezo lusófobo e até em defesa da formação portuguesa do Brasil, como David Antônio da Silva Carneiro, Gilberto Freyre, Manuel Bonfim, Tito Lívio Ferreira, Eduardo Metzer Leone, Rocha Pombo e, hodiernamente, João Paulo Garrido Pimenta.
Porque esquadrinhou, no Brasil e em Portugal, a figura de Afonso Botelho de Sampaio e Sousa — importantíssimo para o Paraná no século XVIII —, David foi agraciado com a comenda portuguesa do Infante Dom Henrique, em 1963, when publicara a biografia daquele na revista Investigações e em fascículos, republicada em livro em 1986.
Crônicas, Diários e o Legado Escrito
Foi articulista da Gazeta do Povo em diversas épocas. Nos anos 1960, manteve a coluna “Outrora... e agora...”. Ao longo de 16 anos (nos anos 1980 e 1990), publicou diariamente a coluna Veterana Verba: crônica de atualidades, temas de história, assuntos vários e também poesia, onde periodicamente publicava trios de sonetos. A totalidade da Veterana Verba é testemunho de época e fonte riquíssima de sabedoria e cultura, merecendo publicação integral. Oxalá algum particular, amigo da cultura paranaense, ou os órgãos oficiais tomem tal iniciativa para compor uma coletânea de seus artigos e ensaios, dos quais deixou também dezenas dispersos em revistas (como a do Rotary Clube, nos anos 1940 e 1950, e a Revista Interamericana de Bibliografia, nos anos 1970 e 1980, de circulação internacional).
Ele recortava os textos publicados de sua coluna e colava os retalhos em cadernos que mandava encadernar. Essa coleção de dezenas de volumes é conservada por seus descendentes e merece doação para o Museu Paranaense. A exploração do material pletórico dos artigos de David Carneiro ensejará novos estudos relativos ao homem, ao historiador e ao seu tempo, revelando um sem-número de pontos da história local e nacional. Sua publicação integral será um serviço em prol da alta cultura paranaense e uma dívida que o Paraná tem para com uma de suas mais indiscutíveis superioridades.
Há também contos de sua autoria merecedores de publicação: de fundo verdadeiro e interessantes, com personagens reais de Curitiba e da Lapa, todos já falecidos há décadas e dissimulados sob nomes fictícios; o caderno de manuscritos encontra-se no Museu Paranaense. Deixou, ainda, várias dezenas de cadernos manuscritos de diários, verdadeiro manancial para estudiosos, pesquisadores e historiadores. Produziu cerca de 60 livros, incluindo inéditos, dentre eles Novos ensaios de interpretações morais e Sucinta história dos Estados Unidos da América. Não datilografava: manuscreveu todos os originais do quanto produziu.
O Museu e a Obra Máxima
Manteve aberta ao público, por décadas, sua copiosa coleção de objetos da história do Paraná e do Brasil, o Museu David Carneiro, adquirido postumamente pelo Museu Paranaense. O acervo continha cerca de quatro miríades (quarenta mil) de peças entre armaria, mobiliário, pinacoteca, vestuário, veneras, pianos, cristais, porcelanas e muito mais.

Construiu a Capela da Humanidade, pertencente ao Centro Positivista do Paraná, como positivista e humanista que era, adepto de Augusto Comte e entusiasta das virtudes da Humanidade, da cultura pessoal, do pacifismo e do valor da educação. Em sua condição de positivista, produziu a História geral da Humanidade através dos seus maiores tipos, em sete volumes (publicados de 1939 por diante), em que expôs a biografia de vultos selecionados do calendário histórico de Augusto Comte, com o respectivo contexto. É uma bela exposição de história e da participação de agentes decisivos do desenvolvimento humano, que bem merece nova edição.
A Epopeia da Lapa e a Produção Historiográfica
Ainda moço e recém-casado, nos anos 1920, dedicou-se a registrar o episódio da epopeia da Lapa em sua célebre resistência de 1894. Sobre o tema, publicou O cerco da Lapa e seus heróis (1934; republicado pela Biblioteca do Exército em 1991), Os fuzilamentos de 1894 no Paraná (1937), A revolução federalista no Paraná (1944, 1982), Rastros de sangue (romance lançado nos anos 1970) e Gomes Carneiro e a consolidação da república (1976).
Reputava A marcha do ateísmo (1936) como sua obra-prima. Nela expôs os princípios do Positivismo, bem como nos Ensaios de interpretações morais. Traduziu o Testamento político de Richelieu, integrante da biblioteca positivista e acervo de leitura recomendada por Augusto Comte (Editora Atena, 1955; reedição da Edipro, 1995).
Teve também papel cívico destacado: tomou a iniciativa da construção do monumento a Benjamin Constant, inaugurado em 1940 na praça Tiradentes, em Curitiba, após o malogro de uma junta oficial destinada a erigi-lo. David promoveu a execução com fundos próprios. Quatro anos depois, por sua idealização e iniciativa, inaugurou-se (no cinquentenário do cerco da Lapa) o Panteon dos Heroes, monumento cívico com o busto do general Carneiro e no qual jazem Joaquim Lacerda, Dulcídio Pereira e Amintas de Barros (também homenageados com bustos). Bastaria essa realização para assinalar o seu valor patriótico.
Sua produção seguiu vasta: publicou, em 1934, História psicológica do Paraná. A Escola Superior de Guerra (que cursou em 1956, no Rio de Janeiro) publicou a súmula dos cursos que lá ministrou (1957). A editora Civilização Brasileira deu à luz seu A vida gloriosa de José Bonifácio de Andrada e Silva (1977). A Universidade de Brasília publicou sua História da guerra cisplatina (1983) e a coleção Farol do Saber (da Prefeitura de Curitiba) republicou O Paraná na guerra do Paraguai (1995). O Museu Paranaense dispõe hoje, em formato digital, o texto de O drama da fazenda Fortaleza.
Graças a pesquisas pioneiras em arquivos ingleses, David revelou o incidente da belonave britânica Cormorant, que em 1850 trocou tiros com a fortaleza de Paranaguá, fato que precipitou a Lei Eusébio de Queirós, proibidora do comércio negreiro no Brasil. Sobre este capítulo, publicou História do incidente Cormorant (1950).
"A História da História do Paraná"
Em comemoração ao centenário do Paraná, em 1954, publicou A História da História do Paraná, obra especialmente importante por duas razões básicas:
Teoria da História: Em sua primeira parte, constituiu uma teoria da história como saber, seus fins, métodos, fontes e critérios, domínio em que se serviu notadamente das doutrinas de Ortega y Gasset e de J. Shotwell. É uma teorética de valor universal, dotada parcialmente de inspiração positivista, que merece reedição e consideração em cursos de história, ciências sociais e sociologia.
Avaliação Historiográfica: Na segunda parte, avaliou o papel dos historiadores paranaenses e suas respectivas contribuições. Julgou o valor da obra de Afonso Botelho de Sampaio e Sousa, Antônio Vieira dos Santos, Ermelino Agostinho de Leão, Francisco de Paula Sousa Dias Negrão, Alfredo Romário Martins, entre outros. Avaliou também o papel histórico do general Gomes Carneiro na resistência da Lapa.
Fortunas e Reconhecimento Acadêmico
O impacto de sua figura gerou diversas homenagens. Berenice Mendes, em 1988, produziu o documentário de curta-metragem intitulado Memória de David, no qual gravou a voz e as imagens do historiador em sua própria residência.
Wilson da Silva Bóia escreveu o ensaio biográfico David, o Gigante, premiado em primeiro lugar no concurso Gralha Azul da Secretaria da Cultura do Estado do Paraná (1990). No mesmo ano, Arthur Virmond de Lacerda Neto exarou página evocadora de David como antelóquio de A Centenária República e o Coronel Joaquim Monteiro, de Maria de Lurdes Marques Chaves (Joaquim Monteiro era o progenitor materno de David).
Em 2012, Daiane Vaz Machado graduou-se mestre em História pela Universidade Federal do Paraná com dissertação focada na ação e vida do biografado. Mais recentemente, em 2016, Maria Julieta Weber Córdova publicou Bento, Brasil e David, estudando a contribuição dele (ao lado de Bento Munhoz da Rocha Netto e de Brasil Pinheiro Machado) na elaboração da identidade paranaense.
No campo empresarial, David fundou a Empresa Cinematográfica David Carneiro, responsável por construir as primeiras salas de exibição de películas de Curitiba: os cinematógrafos Ópera (na alameda Luís Xavier), Arlequim (no largo Frederico Faria de Oliveira), Marajó e Guarani.
O Fim e o Inestimável Legado
David Carneiro faleceu em Curitiba, em 4 de agosto de 1990, empobrecido (em razão de uma dívida contraída por um de seus filhos junto ao Banco do Brasil), após haver sido riquíssimo ao longo de sua existência. Jaz no Cemitério Municipal de Curitiba, em tumba que abriga sua mulher e filhos, encimada pelo célebre aforismo de Augusto Comte: “Os vivos são governados pelos mortos” — uma síntese de como as gerações influenciam umas às outras, sendo o presente o produto indissociável do passado.
Gigantesco em sua cultura e imenso em seu legado cultural, David é uma figura egrégia do Paraná. Levou uma vida de rara intensidade no sentido de aprender continuamente e produzir intelectualmente. São notáveis a constância de sua produção, a precocidade com que passou a escrever, o volume de sua obra e, sobremaneira, a sua alta qualidade.
Que os paranaenses lembrem-se dele como um de seus mais ilustres coestaduanos; os brasileiros, como um de seus mais egrégios valores; e os homens, como um de seus mais conspícuos exemplos.
Tarefas dos paranaenses por cumprir: Publicar a totalidade dos artigos de David Carneiro, seus contos e inéditos. Que se mobilizem particulares, órgãos oficiais, Imprensa Oficial, mecenas, família, leitores, o Instituto Histórico, o Centro de Letras e a Universidade Federal do Paraná!

Nota do Editor do Dialéticos: Como se observa no registro fotográfico do jazigo da família no Cemitério Municipal São Francisco de Paula (imagem acima), a lápide preserva gravada a data oficial de falecimento de David Carneiro em 4 de junho de 1990, além da divisa positivista de Augusto Comte — "O Amor por princípio e a Ordem por base; O Progresso por fim" — que coroa as placas memoriais do historiador. Numa primeira versão do artigo, constou, por erro de digitação, a data de morte de David Carneiro como sendo 3 de agosto de 1990. O erro foi corrigido.

Arthur Virmond de Lacerda Neto é historiador, jurista, professor universitário e um dos principais colaboradores do sítio eletrônico Dialéticos. Possui mestrado em Ciências Histórico-Jurídicas pela prestigiada Universidade de Lisboa e atuou academicamente na UFPR e no Centro Universitário Uninter, em Curitiba. Sua produção intelectual é voltada ao resgate da memória e da identidade cultural do Paraná, à defesa da pureza da língua portuguesa contra estrangeirismos, além de estudos aprofundados sobre a laicidade e a evolução das estruturas do Direito Romano.
É autor de vasta obra historiográfica e biográfica, destacando-se títulos recentes de grande relevância documental e regional: Josefina Biscaia, guia de turismo. 2026. Revelações do cerco da Lapa. A Revolução Federalista em Joinville. 2025. Educação lingüística ,2022; Retificação de vícios de linguagem em circulação no Brasil. Herança do Direito Romano, 2020. Juvenília de Antonio Chalbaud Biscaia. 2014 (1º vol.), 2016 (2º vol.). Estudos de Direito Romano, 2012, Novos Estudos de Direito Romano, 2012. Direito Penal Romano, 2013.
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Arthur Lacerda lança novo livro sobre o Cerco da Lapa – Um aprofundamento perfeito para este post, já que o Cerco da Lapa foi objeto de estudos minuciosos do próprio David Carneiro e tema do livro mais recente do autor. [1]
Margarida Langer e o Lar Lapeano de Saúde – Outro resgate histórico e biográfico regional de autoria de Arthur Virmond, focado na memória cultural e na história do Paraná. [1]
Purismo em idioma! – Um ensaio do autor que espelha o mesmo rigor, erudição e combate à mediocridade cultural defendidos por David Carneiro ao longo de sua vida douta. [1, 2]










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