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HENRY FAZ CEM ANOS

Republicando



Com o falecimento de Henry Kissinger, ocorrido em 29/11, parece oportuno republicar o artigo de Hatsuo Fukuda, publicado em 31 de maio deste ano aqui no blog.



Imagem de The Times

Henry Kissinger faz cem anos. Espero que tenha direito a um bolo, velinhas e o conforto dos que o amam, como merece qualquer mortal. Os mais amados não estarão presentes para dar um beijo e um abraço: ele sobreviveu a todos. Lembro-me do meu avô – ainda muito longe dos cem anos, que não atingiu – vivendo solitário e sem a mulher e os amigos e companheiros de jantares, bebedeiras e aventuras. Ele passava horas em silêncio, provavelmente lembrando de seus anos de juventude no distante Japão, que havia abandonado pelas aventuras tropicais. Henry não: ele está debruçado nos efeitos da inteligência artificial no mundo. Um novo livro sobre o tema está para sair. Ele é, aos cem anos, o que sempre foi: um fenômeno intelectual.


Seu intelecto brilhante, educado no pragmatismo anglo-saxão – os nazistas não permitiram que ele fizesse o Gymnasium (ensino médio) e ele completou sua educação nos USA -, deixou marcas profundas no mundo contemporâneo. Ele estudou à noite na High School. Durante o dia, trabalhava em uma fábrica de pincel de barba. Após o ensino médio, Kissinger começou a estudar Contabilidade no City College de New York, ainda labutando na fábrica. Os estudos foram interrompidos pela guerra e só retomaram após, em Harvard, onde se graduou summa cum laude e depois fez o MA e PhD.


Por quê conto isto? Para mostrar que ele é um autêntico self made man americano. Um judeuzinho alemão refugiado (até hoje fala com sotaque), sem eira nem beira, que se tornou uma das personalidades mais influentes da política americana e mundial. Impossível pensar no mundo atual sem lembrar do papel decisivo que exerceu em sua construção. Sem ele, os últimos cinquenta anos teriam sido muito, muito diferentes. Para pior, com certeza.


O Brasil é tributário de seu gênio e de suas ações. Basta lembrar que um quarto das exportações brasileiras têm como destino a China; um terço do agronegócio brasileiro é exportado para lá. Sem a China, o Brasil seria um país muito mais pobre do que é hoje. Todo a região desbravada pelos agricultores brasileiros – e isso inclui parte do Sul, todo o Oeste, Centro-Oeste e parte do Nordeste brasileiro (Matopiba) – não existiria, ou seria bem menor, sem a China.


Outros exemplos: Shein, Ali Express. Eles destroçaram o varejo brasileiro. Depois da invasão chinesa, Magalu, Lojas Americanas, Casas Bahia e outros menos votados nunca mais foram os mesmos. Nem vamos falar da indústria brasileira. Ela sempre foi irrelevante. Impossível competir com a China.


E a inserção internacional e a revolução capitalista chinesa a partir dos anos 70 aconteceu em grande parte devido ao gênio estratégico de Henry.


E tudo começou com um aperto de mão entre Nixon e Mao Zedong, em 1972, encontro arquitetado por Kissinger, que o mundo conheceu como a Diplomacia do Pingue-pongue. O mais radical dos comunistas apertou a mão do maior representante da direita americana. Essa reunião produziu a pacificação da Ásia, na época engolfada por conflitos que ameaçavam se espraiar pelo mundo. Teve como produto a destruição final da União Soviética, alguns anos depois, e abriu caminho para a ascensão ao poder de Deng Hsiao-ping, que promoveu o reerguimento econômico da China, e sua inserção ao mundo. A China readquiriu o status de grande potência econômica e militar. (Kissinger registrou, em um de seus livros, que durante vinte séculos a China foi o maior PIB do mundo durante dezoito.) A União Soviética não existe mais; a União Européia tornou-se irrelevante, e a Pax Americana reinou, durante cinquenta anos.


Agora recomeça o jogo. A hegemonia do Império Americano está sob ameaça pela China emergente. Novas cartas estão à mesa. Os antigos contendores trocaram os papéis.


No Bananal, como sempre, discutimos o preço das bananas, perdidos entre o atraso e a abominação. Este bonde também perderemos.


Feliz aniversário, Henry.



Ele era um autor prolífico. Vários de seus livros foram traduzidos para o português. Diplomacia (Editora Saraiva), Sobre a China (Objetiva), Ordem Mundial (Objetiva), traçam um roteiro para entender as complexidades do mundo. A revista The Economist teve uma longa conversa com ele, publicada no Estadão. Recomendo. Boa leitura.

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