65 anos da Legalidade: no menino estava o homem
- Hatsuo Fukuda

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Leonel chega a Porto Alegre
Por Hatsuo Fukuda
Hoje, dia 25 de agosto de 2026, comemoram-se os 65 anos da Campanha da Legalidade, desencadeada pela renúncia do Presidente Jânio Quadros e o golpe militar contra o Vice-Presidente João Goulart. Foi um momento em que a sociedade gaúcha, em sua maioria esmagadora, autoridades civis, militares e eclesiásticas, se alinharam à liderança do Governador Leonel Brizola em defesa da Legalidade. Hoje, os ventos golpistas tentam novamente rasgar a Constituição e o Estado de Direito. O dialeticos.com traz uma memória da formação do homem que liderou a campanha. No menino estava o homem.
Karla conta a história:
Ele desembarcou na Estação Central de Porto Alegre, na Avenida Voluntários da Pátria, às margens do Guaíba. Carregava uma malinha com roupas humildes, duas calças e uma camisa de gola. O menino de Carazinho, com catorze anos, nunca tinha visto uma cidade tão grande. Nunca tinha visto nada igual, aquela algaravia, aquela confusão, aquele mundaréu de água do Rio Guaíba. Porto Alegre tinha 250 mil habitantes, e na porta da estação, enfileiravam-se as carroças puxadas a burro. E uma multidão desconhecida nas ruas. Ele estava por conta dele mesmo, e de Deus, como sua mãe Oniva lhe dizia sempre. Mas Deus e sua mãe não o tinham abandonado.
Oniva estava determinada a fazer com que seu filho estudasse. Não havendo escolas, ela o mandava onde houvesse. Nessa peregrinação, ele fora morar em Passo Fundo, aos dez anos, com a irmã mais velha e madrinha, Quita, casada com Alcebíades, dono de um açougue. Ele estudaria no Grupo Escolar Boqueirão (hoje Colégio Estadual Joaquim Fagundes dos Reis). Ele acordava antes das seis, acendia o fogo e esquentava a água do chimarrão. Corria até o açougue e passaria a manhã nas ruas entregando carne aos fregueses. Após o trabalho, ele correria até a casa, vestiria o uniforme e seguiria para a escola, com o par de sapatos na mão, para não gastar a sola. Uniforme e sapatos conseguidos pela irmã.
Nesta época ele teve contato com a Igreja Metodista, onde frequentaria a Escola Dominical. Ele se afeiçou à disciplina metodista, que contrastava com o trabalho pesado e as humilhações da semana. Seu cunhado era um homem rude e severo, que fazia dele um burro de carga. Mas não seria ali que ele concluiria os estudos. Voltou a São Bento para a companhia da mãe.
Em São Bento, o dono da venda, Darci Timm, o chamou para trabalhar no balcão. Ele se sentiu o tal. Da gurizada toda, ele fora escolhido, por saber a tabuada de cor. Mas a mãe insistia: “Meu filho, tem que estudar, tem que se formar”. Ele foi para Carazinho, estudar no Grupo Escolar Princesa Isabel, morando de favor na casa das irmãs Botolli, a pedido da mãe. O dinheiro para o sustento ele tirava engraxando sapatos e carregando malas da estação para o Hotel Liberal ou vendendo o Jornal da Serra, de Asterio Canuto de Souza.
A família Muchinski tinha um hotelzinho e ofereceu o sótão para morar. Além disso, ele faria as refeições de graça na cozinha. Por serem alemães, ele foi estudar a língua na Escola Luterana. “Tudo ali era alemão, cumprimentava em alemão, rezava em alemão”. Ele não seria fluente, mas se defenderia bem na língua. Não esqueceria suas lições. Mas também não seria ali que a mãe veria seu sonho realizado. Voltou a São Bento, onde ficou trabalhando na serraria, aplainando tábuas.

Sua mãe soube de um casal da Igreja Metodista, o reverendo Isidoro e Elvira Pereira. Eles pretendiam fundar uma escola em Carazinho, e aceitaram receber o menino. Eles moravam numa casa modesta, entre a Igreja Metodista e o armazém do Juquinha Noronha. Elvira era um anjo. Ali ele não seria um burro de carga. Ela dividiria com ele as tarefas. Se ele fosse limpar o chão, ela carregaria a água. Se ele lavasse a louça, ela enxugaria. Foi um período áureo na vida. Pela primeira vez ele se sentiria respeitado.
Ele nunca tinha escovado os dentes. O reverendo o ensinou. “Sabe o que é isso?” Era um tubo de Kolynos. O guri selvagem foi se civilizando. O pastor era paciente e não desistia. No culto, ele pediu: “Irmão, agradece a Deus por todos nós.” Ele se levantou, e toda a igreja ouviu a oração improvisada do piazito.
Mas não seria ali que ele terminaria os estudos. O pastor foi transferido para Uruguaiana. Ele teve que voltar para junto da mãe.
Uma dupla de mascates judeus, amigos de Oniva, apareceu na porta. Ela os convidou para a galinhada, e se lamentou que o filho não estava estudando. Eles disseram que a solução seria o Ginásio Agrícola Senador Pinheiro Machado. Era gratuito, e havia um curso de operário rural para crianças órfãs e desamparadas. Era o caso dele: ninguém mais órfão e desamparado. Havia duas vagas para cada cidade, desde que fossem indicados pelo Prefeito ou pelo Juiz. Oniva e o guri foram falar com o prefeito Albino Hillebrand, de Carazinho. Foram numa aranha. Ele os recebeu na prefeitura.
“Acho que dá para tu ires, guri. Tu te animas? Eu me animo”.
Era um homem rústico, mas generoso, disse o guri muitos anos depois.
Em 20 de fevereiro de 1936, o guri recebeu uma passagem de segunda classe de trem para Porto Alegre, e Leonel de Moura Brizola partiu para a grande aventura de sua vida.

NOTA DO EDITOR: Leonel de Moura Brizola nunca mais esqueceria a odisseia que foi cumprir o destino que queria sua mãe Oniva. Ele concluiria seus estudos no Ginásio Agrícola Senador Pinheiro Machado, passaria no exame de admissão ao Colégio Estadual Júlio de Castilhos (onde faria o curso noturno), e a seguir o curso de Engenharia.
Eleito prefeito de Porto Alegre, faria das tripas coração para construir escolas, num programa que chamou “Nenhuma criança sem escola”. Foram 135 até o final do mandato. Eram escolinhas pequenas, funcionais, com cinco ou seis salas, que o povo chamou de “brizoletas”. Governador, ele construiria 5.535 escolas por todo o Rio Grande do Sul, zerando o déficit escolar de 273.095 vagas na faixa etária de sete a catorze anos.
A massificação do ensino primário, vinte anos depois, possibilitou que o Rio Grande do Sul desenvolvesse em ritmo acelerado a mecanização agrícola e as cooperativas agrícolas, a indústria calçadista (o pólo no Vale dos Sinos), a indústria de máquinas agrícolas e metalmecânica (na Serra Gaúcha). Nada disso ocorreria se não existisse a mão de obra que começou a ser educada nas brizoletas, vinte anos antes.

KARLA MONTEIRO
Fonte: Texto extraído e adaptado da biografia Brizola – Volume 1: Lobisomem contra o império (Companhia das Letras).
Karla Monteiro é jornalista e escritora mineira, com destacada trajetória nas principais redações do país. Especialista em biografias históricas de rigor documental e fôlego narrativo, é autora de Samuel Wainer: O homem que estava lá (finalista do Prêmio Jabuti) e da biografia de Leonel Brizola em dois volumes pela Companhia das Letras.

Hatsuo Fukuda é advogado e estudou no Grupo Escolar Prieto Martinez, em Curitiba. Se fosse gaúcho, teria estudado numa brizoleta.









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