CRÔNICAS DE MANAUS III: ENTRE POETAS, MANGUEIRAS E CAMÕES
- JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE

- há 1 dia
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O Prêmio Camões e a Literatura Lusófona
Por José Ribamar Bessa Freire
O Belo Adormecido
Terminamos o curso convencidos de que Camões, que atravessara cinco séculos, era eterno. Ele continua presente no cenário da literatura em língua portuguesa com a criação do Prêmio Camões, em 1988, pelo Ministério da Cultura de Portugal em parceria com a Fundação Biblioteca Nacional do Brasil. Seu valor é de 100.000 euros, o equivalente a mais de R$ 585.000,00, custeado pelos governos do Brasil e de Portugal. Anualmente, um escritor é escolhido por um jurado composto por 6 especialistas – dois de Portugal, dois do Brasil e dois da África de língua portuguesa.
Desde sua criação há mais de três décadas, a concessão do Prêmio Camões reflete o peso demográfico e editorial das duas nações lusófonas de forte tradição escrita, com aberturas crescentes para a África. As laureadas foram em 2025 a poeta angolana Ana Paula Tavares e em 2024 a brasileira Adélia Prado. Agora, em 2026, o júri, do qual tive a honra de fazer parte, seguiu o equilíbrio habitual do rodízio e, por unanimidade, escolheu a escritora portuguesa Lídia Jorge, autora de 13 romances, 7 contos, 3 livros de literatura infantil, 2 de teatro, 1 de poesia e outro de crônicas. A pajé do Marajó, Zeneida Lima, autora de O Mundo Místico dos Caruanas. foi uma das indicadas.
O romance de Lídia Jorge que mais me impactou foi Misericórdia, pela forma de abordar a velhice, a urgência da vida e a resistência até o último suspiro. É um apelo que pede “misericórdia” e compaixão com os mais velhos e trata a velhice não como uma doença, mas como o apogeu da experiência humana. Sua escrita, marcada por uma prosa poética densa, aborda a condição feminina, o impacto das transformações históricas na vida cotidiana com críticas ao passado colonial de Portugal,
No conto O Belo Adormecido, Lídia Jorge subverte os contos de fadas tradicionais com um enredo focado no desejo, na identidade e em encontros inesperados. No outro livro Marido, publicado com outros contos, a protagonista é uma mulher mais católica que o papa, que trabalha como porteira de um prédio e é oprimida pela violência doméstica do marido alcoólatra.
De longe, acompanhei pela mídia sua trajetória política em defesa dos Direitos Humanos, contra o racismo, no discurso feito em junho de 2025 como presidente da Comissão Organizadora do Dia de Portugal. É cada dia mais atual seus alertas contra o risco de loucos atingirem o poder e sobre a cultura da mediocridades nas redes sociais com as ondas de fake news. Que o digam Trump, Milei e Bolsonaro.
— Se eu não fosse escritora, possivelmente seria uma agitadora ou sindicalista – ela declarou, ressaltando, contudo, que prefere atuar na sociedade através da literatura, em vez do ativismo direto.
— Lídia Jorge é uma das maiores glórias da nossa língua, sua escrita opera com uma “consciência vigilante” que habita o coração do presente – declarou ao O Globo o presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Marco Lucchesi, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras.
Prêmio polêmico

O Prêmio Camões gerou alguma polêmica em versões anteriores. Três delas merecem registro. O escritor angolano José Luandino Vieira, um dos maiores renovadores da prosa em língua portuguesa, foi laureado em 2006, mas recusou a honraria e não embolsou o valor de 100 mil euros, justificando que aceitar a premiação contrariava toda a sua conduta ética e sua trajetória de vida. Ele permaneceu preso por mais de uma década pelo regime colonial português, que reprimiu sua militância na luta pela independência de Angola. Sua decisão pode ser controversa, mas é digna de respeito e admiração.
O segundo bafafá ocorreu dez anos depois, em 2016, na cerimônia de entrega do Prêmio ao escritor paulista Raduan Nassar, filho de imigrantes libaneses. Em seu discurso, ele chutou o pau da barraca, classificando o governo do então presidente Michel Temer como “um governo ilegítimo nascido de um golpe de Estado”. O ministro da Cultura ali presente, Roberto Freire, coveiro do PCB, bateu boca publicamente com o autor premiado, gerando mal-estar na comitiva portuguesa que assistia à cena.
O terceiro babado – todo mundo recorda - ocorreu com o prêmio concedido a Chico Buarque, em 2019, que gerou um escândalo. Quem assina o diploma, independentemente da nacionalidade do vencedor, é o presidente do Brasil e o ministro da Cultura de Portugal, mas Bolsonaro se recusou a colocar sua assinatura, por considerar Chico um “esquerdista”. A entrega oficial do troféu só ocorreu em 2023, em uma cerimônia solene em Sintra, já no mandato de Lula. Chico agradeceu ao Coiso:
— Valeu a pena esperar. O ex-presidente teve a rara delicadeza de não sujar o meu diploma.
Lídia Jorge não precisa esperar. E certamente vai ficar feliz por ser Lula quem colocará seu jamegão no documento para que ele tenha validade oficial: um diploma limpíssimo.
Referências
I. Geraldo Sá Peixoto Pinheiro. "Imprensa, Política e Etnicidade: portugueses letrados na Amazônia (1885-1936)". Tese defendida na Universidade do Porto. 2011.
II, José R. Bessa Freire, Taquiprati:
O quinto mosqueteiro da Amazônia sai do baú. Manaus. Diário do Amazonas. 03/01/2016
Maravalhas: o fado no Amazonas: Manaus, Diário do Amazonas. 21/02/2016
Portugal, meu avozinho? Manaus. A Crítica. 16/02/1993.
O Armando da Bica. Manaus. Diário do Amazonas. 14/04/2012

José Ribamar Bessa Freire é jornalista, Doutor em Letras e professor da Pós-Graduação em Memória Social da UNI-Rio e da UERJ, onde coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas. Com vasta obra publicada sobre a Amazônia e a história social da linguagem, escreve semanalmente para jornais amazonenses desde 1984 e é o criador e editor do site Taquiprati, onde a crônica foi originalmente publicada. Fez parte dos jurados do Prêmio Camões em 2026, que escolheu a escritora Lídia Jorge.










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