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A chuva, o clarinete e o acordeom

há 11 horas
4 min de leitura
Fotografia em preto e branco de época retratando um carroção colonial com toldo arqueado atolado em uma estrada de terra lamacenta nos Campos Gerais do Paraná. Três homens auxiliam com alavanca de madeira e condução dos animais sob tempo nublado, com araucárias compondo a paisagem ao fundo.


Nota do Editor: O texto a seguir reproduz integralmente o capítulo “A chuva, o clarinete e o acordeom”, extraído do livro Carroções, do historiador e escritor palmeirense Arnoldo Monteiro Bach — cuja obra memorialística já abordamos em artigos anteriores aqui no Dialéticos. Preservamos a dicção original do autor, um registro vívido e despojado da epopeia dos condutores de carroções pelos Campos Gerais e Centro-Sul do Paraná no início do século XX.


A chuva, o clarinete e o acordeom


Arnoldo Monteiro Bach


Num outono de muita chuva, os carroceiros Jacob Auer, Guilherme Schmidt, Antonio Hass, João Bach, Henrique Cunha, Nicolau Kuhn e João Kuhn Primo (Rufero) levavam erva-mate, açúcar e outras mercadorias até Prudentópolis. O comboio seguia tranquilamente. Era um dia particularmente especial. O ar fresco e agradável deixava todos de bem com a vida. Sob os toldos dos carroções se deleitavam com a beleza do dia e a leveza daquele ar reconfortante. Em cada passagem observavam o leito precário da estrada, cheio de poças d'água formadas pelos buracos. Vez ou outra os animais cansados tomavam aquela água barrenta, e as poças maiores exigiam um esforço a mais. Era preciso calma e paciência para vencer aqueles lamaçais. Os carroceiros mais afoitos sempre acabavam se arrependendo.


Por volta das nove horas, quando passavam por Tocas, em Palmeira, começou uma chuva fina, fria e persistente. Isso incomodou muitos carroceiros, pois logo logo a lama tomaria conta de todos os pontos da estrada. Na hora do almoço, a chuva acabou e, timidamente, o Sol começou a aparecer. Pouco depois, o calor já era insuportável, sinal de mais chuva. Enquanto o tempo ainda estava bom, os carroceiros aproveitaram para almoçar e descansar um pouco. Duas horas depois, o céu escureceu e a chuva veio violenta. Já na estrada, os carroceiros foram obrigados a parar e, debaixo do toldo, conferiam tudo para garantir que a carga estivesse bem protegida. As lonas dos carroções eram impermeabilizadas com parafina e alcatrão para evitar infiltrações, mas mesmo assim o vento forte insistia em abrir caminho, forçando os carroceiros a redobrar a atenção para impedir que a carga fosse danificada.


Imagem em preto e branco de um carroção colonial paranaense parado em estrada rural. Um carroceiro e um menino estão sentados na boleia, enquanto outras crianças observam à beira do caminho.

Quando o tempo dava uma trégua iam em frente, mas já estavam acostumados com as intempéries da natureza. Para chegar ao destino restavam ainda muitos quilômetros; o comboio ia deixando para trás as marcas das rodas dos carroções e das patas dos animais. Na passagem por um vilarejo, algumas crianças se aproximaram ofegantes. Pareciam querer dizer alguma coisa. Encabuladas e meio receosas, se aproximaram dos carroceiros e conversaram com Guilherme Schmidt, que estava mais à frente. Perguntavam sobre as mercadorias, os animais, de onde vinham, para onde iam. A princípio, a curiosidade das crianças irritou Guilherme, que tinha mais o que fazer, e os meninos, percebendo a sua frieza, foram se afastando lentamente.


Mas em seguida, o Guilherme, que não gostava de ver uma criança triste, abriu um sorriso e perguntou de onde vinham. Ainda meio amedrontadas, as crianças não ousaram falar, apenas apontaram para umas casas na curva da estrada. No local havia várias roças, que indicavam que a colheita seria farta. De longe dava para ver que as casas eram simples, porém aconchegantes. As cores fortes contrastavam entre si, produzindo imagens que pareciam familiares. Guilherme recordou-se das casas da Colônia Lago, que eram exatamente como aquelas: transbordavam de amor, paz, trabalho e felicidade. Lembrou-se de uma ocasião em que, quando criança, tinha se aproximado do pai para fazer um pedido e foi rispidamente repelido. Fora educado num lar comandado por um pai rígido, que achava que adultos e crianças não tinham nada para conversar. Existia um enorme abismo entre pais e filhos.


De volta de seus pensamentos e visivelmente emocionado, Guilherme Schmidt convidou as crianças para subirem, pois percebeu que queriam mesmo era ter o prazer de dar uma volta no carroção. Um garoto de 8 anos sentou-se ao lado de Guilherme. Ele tinha os cabelos escuros e um ar de esperteza, sem ser atrevido. Limitava-se a responder às perguntas do carroceiro. Ia feliz e estava mais interessado em sentir o prazer de ver tudo do alto daquele banco do carroção. Quando Guilherme lhe perguntou se gostaria de ser carroceiro, ele respondeu imediatamente que sim, que queria ter um carroção igualzinho ao seu e ser valente como ele. Guilherme então ofereceu as rédeas para o menino conduzir o carroção.


Quando chegaram à frente de suas casas, as crianças desceram barulhentas e felizes. De longe acenavam para os carroceiros que se afastavam do local.


Imagem em preto e branco do interior de um salão comunitário de madeira em Prudentópolis, decorado com ícones e toalhas bordadas. No centro, músicos tocam acordeom e clarinete enquanto pessoas em trajes típicos ucranianos dançam em roda durante uma festa de casamento.

Depois de algum tempo finalmente chegaram a Prudentópolis. Descarregaram a erva-mate e, como já estava anoitecendo, resolveram pernoitar na cidade. A chuva, que tinha parado havia algum tempo, voltou a cair forte. Na manhã do sábado, quando se preparavam para deixar a cidade, souberam de um casamento que estava sendo celebrado. E o melhor de tudo era que os convidados seriam recepcionados numa festa com baile e tudo. Era uma comunidade de ucranianos. A princípio os carroceiros não deram muita bola, mas depois resolveram ir à festa mesmo sem terem sido convidados.


O pretexto dos carroceiros foi o de levar um pouco mais de música à festa, e assim, com a cara e a coragem seguiram para o local dos festejos. Quando lá chegaram, perceberam que o conjunto da comunidade tocava “Dupa, Dupa, Dupa”, e então, exibindo o clarinete e o acordeom, os carroceiros pediram permissão para tocar. O pedido foi aceito de imediato. Eles tiraram o máximo de seus instrumentos e arrastaram os convidados num ritmo contagiante. A euforia tomou conta do salão, o pessoal dançava e pedia “mais uma, mais uma”. Não demorou e alguém no centro do salão gritou: “Viva os carroceiros músicos!” A cada aplauso e manifestação de carinho, os músicos tocavam com mais vontade. O baile estendeu-se noite adentro e prosseguiu por mais dois dias. De penetras da festa, os carroceiros acabaram aclamados como os animadores oficiais do casamento.




Capa do livro Carroções, de autoria do historiador e pesquisador paranaense Arnoldo Monteiro Bach.

Arnoldo Monteiro Bach é pesquisador, historiador e escritor paranaense, natural de Palmeira, nos Campos Gerais. Dedicou décadas ao resgate e à preservação da memória oral, dos costumes e dos ciclos econômicos do Paraná tradicional. É autor de obras de referência sobre o transporte e a vida cotidiana colonial, com destaque para a série histórica Carroções, Tropeiros, Porcadeiros, Trens, Vapores e Diligências. Sua obra retrata com crueza documental e sensibilidade humana a saga de imigrantes e tropeiros que abriram caminhos no Sul do Brasil. Carroções foi relançado em edição bilingue, português-alemão. Ambos os formatos (e os demais livros do autor) estão disponíveis no site: arnoldomonteirobach.

1 comentário


Carlos
há 7 horas

A pesquisa e o registro que Arnoldo faz dessa importante página da história do Paraná é essencial para preservar nossa identidade e permitir que gerações futuras conheçam nossa riqueza cultural.👏👏👏👏👏

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