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Odisséia, Odisseus

há 11 minutos
5 min de leitura
Matt Damon caracterizado como Odisseu, com túnica rústica e barba grisalha, ao lado de Zendaya vestida com trajes de linho claro em um cenário árido litorâneo do filme A Odisseia, de Christopher Nolan.

Odisséia, Odisseus

Christopher Nolan, o choque acadêmico de Emily Wilson e o herói que nosso tempo exige.


Por Hatsuo Fukuda


Odisséia, o filme de Christopher Nolan, continua em cartaz nos cinemas, quase um mês após o lançamento. Vejo que a versão em Imax, no Shopping Paladium, em Curitiba, continua lotada, mostrando que o público comprou a idéia de Nolan, que filmou inteiramente em câmeras Imax, projetadas especialmente para o filme. A Odisséia de Nolan, uma versão blockbuster para um clássico – também um blockbuster para literatos – além de atrair multidões aos cinemas, em uma época em que os espectadores tendem a assistir os filmes no conforto de suas casas, provocou também uma enxurrada de polêmicas.


A principal delas foi com Emily Wilson, autora da mais badalada das versões homéricas – vendeu mais de um milhão de exemplares – que, segundo Nolan, inspirou seu filme. Wilson atraiu a atenção dos especialistas em literatura grega ao traduzir desta forma o primeiro verso da epopéia homérica:


Tell me about a complicated man.


A palavra grega polytropos, que Wilson verteu para complicated, recebeu dezenas de versões diferentes (trinta e quatro, das sessenta em língua inglesa). No Brasil, Donaldo Schuler a traduziu como multifacetado. Na versão italiana de Paolo Maspero, ele diz vario engegno. Wilson está bem ciente da complexidade da tarefa de reescrever a Odisséia (este é um tema recorrente em suas entrevistas à imprensa). Entretanto, depois de assistir a versão nolanesca da Odisséia, Wilson publicou um artigo na revista London Review of Books criticando duramente o filme.


Como se costuma dizer nas cerimônias de premiação, fiquei honrado ao saber que Nolan leu pelo menos o primeiro verso da minha tradução da Odisseia para o pentâmetro iâmbico. Em pelo menos uma entrevista, ele citou minha versão do primeiro verso do poema: "Fale-me sobre um homem complicado". Mas eu teria vergonha de ter escrito qualquer parte deste roteiro. Infelizmente, o Odisseu de Damon não é complicado, nem astuto, nem engenhoso.

Durma-se com um barulho destes.


Wilson reconhece a importância do filme para a divulgação do texto homérico – e se diz grata por isso – e reconhece seu papel de trazer as multidões de volta aos cinemas. E no entanto, ela não economiza sarcasmo em seu comentário:


É um espetáculo audiovisual para toda a família, como uma elaborada queima de fogos de artifício do Dia da Independência – e com praticamente o mesmo nível de profundidade narrativa e emocional.

Os comentários de Wilson me fizeram lembrar a historinha (não sei se é verdadeira, mas orna com Hollywood) de Wiliam Faulkner quando foi lá trabalhar. Faulkner, como muitos escritores americanos, foi atraído pelos salários mirabolantes que os estúdios pagavam aos escritores. Chegando lá, levaram-no para assistir um filme. Na saída, comentou, entre o espanto e o terror: “Isto é cinema?”. Mas o dinheiro fala mais alto e ele persistiu. Alguns anos depois ele ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Deve tê-lo consolado pelas humilhações que sofreu nas mãos dos tubarões dos estúdios.


Wilson, naturalmente, não vive em uma bolha como Faulkner. O artigo mostra ser ela uma frequentadora habitual das salas de exibição e conhecedora dos trabalhos de Nolan. Mas ela o escreveu para uma revista literária de prestígio – ou seja, escreveu para seus pares – e com os cacoetes típicos de uma acadêmica do mundo anglófono que vive imersa no mundo grego do século X ac. Queriam o quê? Que fosse condescendente com as necessidades midiáticas de propulsionar um filme destinado a multidão? Neris neris de catibiriba.


Em verdade, Wilson não foi dura com o filme. A mídia contemporânea destacou a parte ácida de seus comentários (“eu teria vergonha de ter escrito este roteiro” ), mas se você ler sua versão da Odisséia, entenderá seu ponto de vista. Ela é uma escritora de verdade, e escreve para leitores letrados, não para consumidores de textos digeríveis em celulares, que é a multidão que consome cinema hoje em dia. E naturalmente a imprensa possui o cacoete natural da imprensa: notícia não é o fato do cachorro morder o dono; notícia é o dono morder o cachorro. O inusitado atrairá os cliques da patuléia. Assim, a imprensa destacará os comentários mordazes de Wilson, ignorando suas elaboradas descrições das diferenças entre o mundo micênico e o mundo criado por Christopher Nolan.


O cinema de multidões é destinado a um público majoritariamente de crianças e adolescentes, ou adultos com mentalidade infantil. O cinema reflexivo é um cinema de nicho (“cult movies”) e estes serão consumidos preferencialmente nos streamings ou em vídeos curtos adaptados para o Youtube ou TikTok. Nolan sabe disso, e Wilson também, a julgar pelo comentário que seus filhos adolescentes gostaram do filme. (Isto foi um elogio, não uma crítica. Provou o ponto de vista de Nolan.) Com isso em mente, uma versão da Odisséia para o cinema não poderia jamais mostrar um herói homérico, com todas as suas idiossincrasias e ideias de um mundo desaparecido. A platéia irá ao cinema para ver as aventuras de um herói contemporâneo (“um Jason Bourne”, como ela mesma disse), com as preocupações de hoje.


Aliás, um herói do século X antes de Cristo seria indigerível para as platéias atuais. Afinal, estamos acostumados a pensar que destruir cidades, saqueá-las, estuprar suas mulheres, enriquecer com o butim dos vencidos e escravizar civis são uma coisa ruim e mais apropriado para os malvados do que para os bonzinhos. Um herói que Nolan não poderia mostrar às platéias contemporâneas. Estas querem ver nas telas um espelho das ilusões em que vivem. A solução nolanesca foi mostrar um herói atormentado pelos inúmeros pecados que cometeu, buscando a redenção no retorno a um lar onde uma esposa fiel e um filho aflito o espera.


Neste tema, quem tem razão é Jorge Luiz Borges, que escreveu um ensaio, em 1932, denominado Las Versiones Homericas (publicado no livro Discusiones):


Cual de essas muchas traducciones es fiel?, querrá saber talvez mi lector. Repito que ninguna o que todas. Si la fidelidade tiene que ser a las imaginaciones de Homero, a los irrecuperables hombres e dias que él se represento, ninguna puede serlo para nosotros; todas, para um griego del siglo diez. Si, a los propósitos que tuvo, cualquiera de las muitas que transcribi, salvo las literales, que sacan toda su virtude del contraste com hábitos presentes.

O filme é bom. Agradará à platéia de Vingadores (objetivo de Nolan). Agradará também aos cinéfilos, com quem Nolan se identifica; agradará a minoria de leitores de Homero, e a seus editores. Agradou a mim, que vou ao cinema para me distrair das chatices da vida. E se você estiver procurando uma experiencia instagramável – que é o que as platéias buscam hoje - é um prato cheio.



SERVIÇO AO LEITOR

  • Ensaio de Emily Wilson: Crítica completa na London Review of Books.

  • Repercussão na imprensa: Artigo sobre a controvérsia no The New York Times (para assinantes).

  • O debate sobre polytropos: Entrevista e perfil de Emily Wilson no The New York Times Magazine.

  • Vendas da tradução: Reportagem do The Guardian sobre a subida do livro ao 3.º lugar dos mais vendidos da Amazon.

  • Leitura indispensável: BORGES, Jorge Luis. Las versiones homéricas. In: Discusión (1932).

  • Leitura indispensável: as versões da Odisséia de Emily Wilson e Donaldo Schuler, disponíveis na Amazon Books.


Caricatura em traço de humor assinada por Paixão, retratando Hatsuo Fukuda com boné branco, óculos escuros e blazer, lendo um livro em uma poltrona diante de estantes de biblioteca.

Legenda / Bio:

Hatsuo Fukuda, cinéfilo de arrabalde, gosta de ver o barraco pegando fogo.

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