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LUZIAS E SAQUAREMAS


Nada mais parecido com um liberal do que um esquerdista no poder.


Imagem de Poder 360.


No imenso matagal que era o Brasil no século XIX, com uma pequena população, predominantemente rural, espalhada por fazendas e vilarejos mal servidos por estradas (Curitiba tinha cinco mil habitantes em 1850, e a comunicação com o litoral era através da Estrada de Itupava, uma picada para burros), a elite política se dividia entre dois partidos, pitorescamente chamados de luzias e saquaremas. Vamos dar um desconto, e chamá-los, como querem os sábios, de liberais e conservadores. A maldita retórica bacharelesca, que estes políticos aprenderam em Coimbra, motivava debates – alguns bem interessantes na verdade – havia entre eles pensadores sofisticados - acirrados. Tudo besteirol bacharelesco que não tocava a raiz dos problemas brasileiros. A prova: o país vivia no atraso (deitado em berço esplêndido, como eles orgulhosamente inscreveram no Hino Nacional), quando eles começaram suas disputas, e chafurdava no mesmo atraso, ao final do Império.


Como se tratava de disputa retórica, entre dois ramos da oligarquia nativa, dizia-se que nada mais saquarema (conservador) do que um luzia (liberal) no poder. Os papéis eram trocados pelos partidos, periodicamente, em razão das conjunturas e interesses abraçados pelos seus líderes. Após a cavalgada de Deodoro, que pôs fim a cinquenta anos de paz política imperial, e instituiu, numa tosca cópia de instituições americanas, o reinado das oligarquias provinciais, o país viveu a mesma disputa, com outros nomes, desta vez sob a égide de uma suposta república.


Como não há nada de novo sob o céu, e o que foi voltará a ser (nunca deixou de ser), estamos, como numa maldição bíblica, às voltas com as mesmas disputas que existiram ao tempo da independência, luzias e saquaremas desta vez denominados petistas e bolsonaristas. Já foram getulistas e lacerdistas, já foram comunistas e liberais, já foram desenvolvimentistas e monetaristas, e, conforme a conjuntura política, seus líderes trocam os papéis. Getúlio Vargas foi luzia, virou saquarema, voltou a ser luzia. Idem Lula, um político hábil que intuitivamente atua dentro das regras do jogo delineadas duzentos anos atrás. O poder é como um violão: pega-se com a esquerda, e toca-se com a direita, como se diz no mundo real, que fica muito, muito distante do País da Cocanha em que vivem os “realistas liberais” (saquaremas) e os “idealistas socializantes” (luzias). Deixemos entre aspas. Não são nada disso.


Ao tempo do Império, um grande político, Nabuco de Araújo, formulou um pensamento que se tornou famoso na historiografia nativa: o sorites de Nabuco. Sorites é uma espécie de silogismo. Que gente letrada e culta, aqueles estadistas do Império! Dizia ele, em um discurso que, viu-se vinte anos depois, marcou o começo do fim do Império: “O Poder Moderador pode chamar quem quiser para organizar ministérios; esta pessoa faz a eleição, porque há de fazê-la; esta eleição faz a maioria. Eis aí o sistema representativo do país.” A maioria, constata Nabuco, se organiza de cima para baixo, e as eleições apenas legitimam o domínio do poder pelo grupo escolhido previamente (no caso, pelo poder moderador). Hoje o poder moderador, que era encarnado pelo monarca, que encarnava a continuidade do Estado brasileiro, supostamente além das contingências políticas e partidárias, está diluído nas instituições do Estado. A presidência imperial unificou o Governo e o Estado; quem velará pela permanência intergeneracional será o Presidente da República. Com isso, surge o paradoxo brasileiro: eleito por um programa político, o Presidente, para governar, terá de recorrer aos adversários da véspera, cujos interesses não necessariamente serão os de seu partido. Normalmente não serão.


Em curso agora, em Brasília, as negociações onde luzias e saquaremas ajustarão as medidas possíveis do convívio. Ministérios, estatais, orçamentos, programas econômicos e sociais. Tudo está à mesa, e o resto é jogo para a plateia. Está claro que a oligarquia parlamentar que apoiou Bolsonaro apoiará também Lula; mas está claro também que este apoio não será irrestrito, como não foi irrestrito ao presidente anterior, cujas insanidades ideológicas e políticas foram, em boa parte contidas pela maioria parlamentar que se construiu. As insanidades petistas serão, também, devidamente enquadradas, como estão sendo. Desta forma, luzia continuará nos palanques, enquanto saquaremas exercerão o poder de fato. Até a próxima rodada.


O Matagal agradece.



A disputa entre saquaremas e luzias, hoje esquecida, exceto por alguns ratos de biblioteca, marcou a vida política brasileira. Quem se der ao trabalho de ler a vida de Nabuco, ou de Rio Branco, e outros grandes estadistas do Império, ficará assombrado ao ver o grau de sofisticação com que tratavam os problemas do país. Esta elite política conduziu os negócios do Brasil de modo irreconhecível aos que hoje acompanham o noticiário político, que se confunde com as páginas policiais ou romances pornográficos. Se quiser um banho de cultura e civilidade política, leia Um Estadista do Império, de Joaquim Nabuco. Sugiro também, para uma melhor compreensão da política da época, a leitura de João Camilo de Oliveira Torres, particularmente A Democracia Coroada e O Presidencialismo no Brasil. O sorites de Nabuco é extensamente discutido em ambos os livros. Você pode discordar do autor, mas sua leitura é enriquecedora. Os livros de Oliveira Torres estão disponíveis na Amazon Books, grátis, em formato Kindle, graças ao patrocínio da Câmara dos Deputados.

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