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MARTELADAS

A trajetória de uma música conhecida por todos, de uma forma ou outra.


Imagem de David Mark por Pixabay


Pete Seeger, o autor da canção If I had a hammer, era um comunista de carteirinha, durante a juventude. Foi um daqueles que seguiam as diretrizes da Internacional Comunista, ao tempo de Stalin. Nos anos 30, como toda a esquerda da época, acompanhou apaixonadamente a Guerra Civil Espanhola. Muitos anos depois, as canções revolucionárias que aprendeu – não chegou a ir para lá – ainda faziam parte de seu repertório. Com o Pacto Hitler-Stalin, como todos os comunistas da época, passou a defender que os EUA não deveriam participar da guerra europeia, naquele início da década de 40, em que a Inglaterra era o único farol da democracia a se opor ao domínio nazista da Europa. Tudo mudou quando Hitler invadiu a União Soviética. Seu grupo de então, Almanac Singers (do qual fez parte outra lenda, Woody Guthrie), dissolveu-se por falta de membros: todos se alistaram depois de Pearl Harbour, inclusive Pete.

Com o final da guerra, Pete retomou as atividades, com um novo grupo, The Weavers. O fervor revolucionário continuava, e ele compôs a canção – junto com Lee Hays – que foi primeiro cantada em um jantar em homenagem aos membros do Partido Comunista Americano que estavam sendo julgados por atividades antigovernamentais, em 1949.


A filiação política da canção era óbvia, a começar pelo título, que se reportava imediatamente a um dos símbolos do comunismo, o martelo (hammer). E, embora comunista, Seeger era, também, orgulhosamente, um descendente dos peregrinos que haviam aportado à terra no Mayflower. Portanto, não deixou de se apropriar de um dos símbolos da Revolução Americana, o Sino da Liberdade (Liberty Bell), sempre associado à Declaração de Independência, que é um dos mitos fundantes do país, que se encontra na Filadélfia.

Mas Seeger era, apesar de todo o fervor político, um artista. Assim, além do martelo e do sino, Seeger usaria também a arma dos músicos, a canção.


Ouvindo a gravação, reparem no tom triunfal e messiânico com que os Weavers encerram a canção, como que anunciando um novo mundo:

Well, I got a Hammer/And I got a bell/And I got a song to sing/All over this land

It’s the Hammer of justice/It’s the bell of freedom/It’s the song about love between my brothers/All over this land


Eles cantam com o fervor dos apaixonados pela causa.


Os Weavers andaram fazendo sucesso naqueles anos, mas If I Had a Hammer não, em parte pela óbvia conexão com o comunismo, em tempos de guerra fria e caça às bruxas (que, em seguida, pegou ambos, Hays e Seeger). A canção estourou nas paradas de sucesso, alguns anos depois, quando o grupo Peter, Paul and Mary a gravou, entrando na lista dos Top 10, em 1962. A batida continuava a mesma, cantada com o fervor dos crentes. Uma modificação havia sido feita. Weavers pregava “love between brothers”, e nesta gravação, Peter, Paul and Mary, anunciando novos tempos, cantava “love between my brothers and sisters”.


Os anos 60 do século passado realmente anunciaram novos tempos, e um dos seus cantores foi Trini Lopez, um cantor texano (nascido em Dallas, filho de pais mexicanos). Frank Sinatra o ouviu, em uma boate, e o contratou pela Reprise Records, sua gravadora. Lopez incluiu If I Had a Hammer no seu álbum. A canção, que havia sido Top Ten nos Estados Unidos, no ano anterior, na versão de Trini Lopez foi a número 3, em 1963, chegando a ser a mais tocada em 36 países (obrigado, Wikipedia).

Também, pudera. Lopez deu à canção uma batida latina. Doravante, a caminhada à terra prometida não seria uma procissão solene de peregrinos, e sim uma festa dançante. Nada da sisudez anglo-saxônica ou russa. Neste mesmo álbum, Lopez lançou suas próprias versões de La Bamba (que também estourou nas paradas) e Cielito Lindo (esta, no Brasil, mais conhecida pela versão Está chegando a hora), além de America, de Bernstein e Sondheim, do musical West Side Story. Para deixar claro para onde iam suas simpatias, neste mesmo álbum gravou sua versão de This Land Is Your Land, um dos maiores ícones da canção progressista americana, de Woody Guthrie. O filho de mexicanos anunciava, a quem quisesse ouvir, naquele início dos anos 60, em que as ruas começaram a pegar fogo com as lutas pelos direitos civis, que


This land is my land from California to the New York Island/This land was made for you and me”.


Sergio Bardotti, bem conhecido entre nós, brasileiros, pelas suas parcerias com Chico Buarque e Vinicius de Moraes – e Roberto Carlos de Canzone per te - entra em cena. Em 1964, ano seguinte ao sucesso de Trini Lopez, ele faz sua própria versão de If I Had a Hammer. Na Itália, chamou-se Datemi um martello, e foi gravada com um sucesso extraordinário por uma garotinha chamada Rita Pavone, que na época tinha 19 anos, mas aparentava ter 14. No Brasil tornou-se a marca registrada da garotinha. Novamente, a batida mudou. O frenesi latino de Trini Lopez foi substituído por uma batida mais antenada aos jovens rebeldes que deixariam a sua marca nos anos 60. E a pregação revolucionária – que ainda persistia em Lopez – era substituída por um anárquico anticonformismo juvenil contra tudo e todos: Rita esbravejava contra os casais que querem luzes apagadas e canções lentas, às dengosas que a fazem ficar sem par no baile, o telefone que a mandará voltar para casa. Desta vez, o martelo será usado para dar um golpe na testa de quem não é da turma:


Um colpo sulla testa/A chi non è dei nostri/E cosi la nostra festa/Piu bela sará/Saremo noi soli/E saremo tutti amici/Faremo insieme i nostri balli/Il surf, il hully gully/Que forza sarà”.

Os anos 60 finalmente haviam chegado. A juventude ocupou o centro do palco; e os adultos e suas tediosas preocupações assumiram o papel coadjuvante. Estávamos às vésperas da Era de Aquarius. Um pouco mais, e seria proibido proibir. Mas não no Brasil. Aqui, tudo ficou proibido, em uma longa noite de canções lentas e tediosas, que durou vinte anos.


Pete Seeger, em determinada altura fez uma autocrítica de seu apoio a Stalin. Uma autocrítica matizada. Ele ainda se dizia comunista, mas lembrava que ninguém deixa de ser cristão, mesmo sabendo dos crimes cometidos pela Inquisição. De qualquer forma, a militância de Seeger mudou, entrando no mainstream do movimento progressista americano, voltado para os direitos humanos, de gênero e ambientais. Quando Obama assumiu a presidência, pela primeira vez, em 2009, ele foi um dos artistas que participaram do show comemorativo. Ele cantou – junto com Bruce Springsteen - a canção do companheiro e parceiro musical Woody Guthrie, “This Land is your Land”. Um longo caminho havia sido percorrido, desde os tempos em que ele e Woody pegavam caronas nos trens de carga que percorriam a América. Um negro estava lá, at last.

PARA VER E OUVIR: Pete Seeger morreu em 2014, com 94 anos. Sem ele, não haveria a folk music nos Estados Unidos, muito menos a “música de protesto”. Toda a geração de cantores e compositores que se projetou nos anos 60 aprendeu ouvindo suas canções. Dele e de Woody Guthrie. No Youtube você encontrará todas as canções de Pete Seeger, Almanac Singers, The Weavers, Peter, Paul and Mary, Trini Lopez, e Rita Pavone. Sergio Bardotti era um artista versátil, que ajudou a projetar a carreira internacional de Roberto Carlos, com Canzone per te, que ganhou o Festival de San Remo (o primeiro estrangeiro a fazê-lo) e posteriormente trabalhou com Chico Buarque e Vinicius de Moraes.


2 Comments


Celso Luiz Ludwig
Celso Luiz Ludwig
Oct 26, 2021

Belíssimo texto!

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Excelente!

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