NORMA CECI CANTA NO FASCINAÇÃO
- NORMA CECI
- há 2 dias
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Norma Ceci, a conhecida cantora curitibana, que percorreu todo o circuito de bares e casas dançantes da cidade, cantou na rádio e na televisão, é a nova colaboradora do Dialeticos. Quando Norma Ceci entra no palco, a festa é de arromba. Preparem seus corações. Lá vem história.
(Da Redação)
NORMA CECI CANTA NO FASCINAÇÃO
Norma Ceci
Quando eu comecei no Fascinação eu cantava aos sábados das 6 da tarde às 3 da manhã em 2 turnos. Nós começávamos em quarteto e depois das 8 entrava a banda inteira. Eu fazia isso porque ganhava 2 cachês.
Num sábado, no começo da noite, apareceu uma turma. Eles tinham saído de um churrasco, homens e mulheres. Naquela hora havia pouca gente no salão. Engatamos uma sequência de boleros para sentir a platéia. Eu cantava Sabor a mi:
No pretendo, ser tu dueña,
No soy nada, yo no tengo vanidad
De mi vida, doy lo bueno,
Soy tan pobre,
Que outra cosa puedo dar
Reparei em um homem que, dançando, sempre aparecia na frente do palco, olhando para mim. Começava uma nova canção, e lá estava ele. Rodopiava, de olho em mim.
“Ganhei um fã”, pensei.
No meio da música, de repente, olhando para mim, ele caiu na frente do palco. Levaram-no até o escritório para ver o que tinha acontecido, chamaram médicos e tudo, mas ele faleceu.
O trombonista, Agenor, falou:
- Norma, você é responsável. Ele olhou pra tuas pernas e ficou maluco. Você o matou.
Eu fiquei apavorada. Eu, bobinha (naquela época eu era bobinha), acreditava em tudo, falei:
- Agenor, não fale assim.
- Pô! O cara tava vidrado em você.

O baile recomeçou e o salão começou a lotar. Gente, gente, gente, todos dançando e o corpo no escritório do Paulo Polatti (ele era o proprietário em sociedade com dois irmãos).
Às 8:00 da noite a banda fazia um intervalo e nós tomávamos café nesse escritório. Todo mundo levava um pãozinho, uma margarina, uma mortadela, um café. Era nosso lanche antes de começar a pauleira noturna. Quando chegamos lá, cada um com seu pãozinho com mortadela, o corpo estendido num canto. Eu falei, com o pãozinho na mão:
- Vou comer meu pãozinho em outro lugar.
Angustiada, com as palavras do Agenor na minha cabeça.

Chamaram o IML e a família. Mas a família não sabia que o homem tinha ido ao Fascinação. Colocar o carro do IML na frente do Fascinação não dava. O povo chegando e aquilo lotava, eram mil pessoas no sábado, era uma loucura. E a mulher histérica brigando com o falecido. O Paulo, que era funcionário da Prefeitura, pediu para o pessoal do IML estacionar a viatura no pátio dos fundos, longe das vistas do público. O espetáculo tem que continuar.

Eu, apavorada, com medo de ser acusada de assassinato, voltei a cantar. Engatei uma sequência de canções animadas, do tempo da Jovem Guarda: Banho de Lua, Namoradinha de um amigo meu, Pobre menina, O Bom, Estúpido Cupido. O público adorava.
Em certa altura, vi que dois seguranças carregavam um homem, aparentemente bêbado, pelo salão, em direção ao camarim atrás do palco. Era ele, o defunto. O camarim tinha uma saída para os fundos, onde a viatura do IML estava aguardando.
O público dançava animado enquanto eu cantava:
Quando eu apareço o comentário é geral:
Ele é o bom, é o bom, é o bom demais.
Pensei comigo mesma que eu não o tinha matado. Minhas pernas eram e continuam lindas, mas não foram elas que o mataram. Foi a vida. E o baile continuou.

Norma Ceci, a fabulosa cantatriz, conta histórias da vida noturna de Curitiba.










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