TARÁS CHEVTCHENKO, O CORAÇÃO DA UCRÂNIA EM CURITIBA
- Hatsuo Fukuda

- há 2 dias
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CAMINHADA
Hatsuo Fukuda
Consulto o Google Maps e vejo que do tugúrio onde me escondo são apenas 3,5 km, uma caminhada fácil. Sei, por experiência própria, que serão mais; o caminho mais curto não será necessariamente o mais agradável – normalmente não é o mais interessante – e o oráculo Google, como sempre, será ignorado.
Coloco umas balas de banana Antonina na mochila, uma garrafa de Ouro Fino, e chamo meu companheiro de caminhada, que imediatamente responde. Está ocupado com seus próprios botões. Fica para a próxima. Será uma caminhada solitária.
Os chorões à beira do Córrego Bigorrilho, na Rua Fernando Moreira, se lamentam à minha passagem. Suas curvas sensuais há muito perdidas, seus barrancos suaves que um dia convidaram a uma pescaria, os patos e narcejas que ali habitavam há muito desaparecidos. Respondo: “Não reclame. Poderia ser bem pior. E você não está sozinho. Esse destino infame você partilha com seus irmãos, o Rio Belém e o Rio Ivo. A desgraça partilhada é mais amena”.
Passo pela Praça 29 de Março e sigo pela Rua Padre Anchieta. Ali, aos domingos, ela recebe a feira livre, e durante as semanas ainda é um lugar agradável. Lembro dos velhinhos maconheiros da Boca Maldita que se acotovelavam em um velho Celta e iam para lá fumar, aproveitando seu sossego.

Um suave aclive e chego ao meu destino, a Praça da Ucrânia. Ela em si é um monumento à habilidade dos arquitetos do IPPUC: uma bela praça, delimitada pelas ruas Capitão Souza Franco e Cândido Hartmann, Padre Agostinho e Padre Anchieta. O piso é plano e convidativo – nada das armadilhas traiçoeiras dos petipavês que infestam a cidade.

E o desenho das calçadas em preto , branco e ocre geométricos, inspirados em bordados ucranianos, são suaves ao olhar do caminhante.

Os bancos são diferentes das demais praças. Algum arquiteto os desenhou e os colocou em harmonia com o piso, os canteiros de flores, as árvores.

Também o parquinho, ao lado da estátua, é diferente: o piso é emborrachado, adequado a crianças, e o equipamento infantil é visivelmente mais elegante.

E ali, ao lado da majestosa paineira, que está se preparando para rebrotar suas folhas e flores, a estátua imponente de Tarás Chevtchenko, o poeta da Ucrânia. Ao contrário dos patéticos bustos que povoam a cidade, o poeta Tarás recebeu uma homenagem à altura de sua importância para a literatura universal. É um grande poeta, e um símbolo da grandeza do povo ucraniano – o que justifica a imponência com que se apresenta aos curitibocas. Mas Tarás foi também um humilde servo da gleba, e cantou como ninguém a vida simples e os sentimentos do povo, o que o faz amado por ucranianos camponeses que aqui aportaram. A imponência é suavizada pelo ar de mestre.

Ele carrega na mão direita um livro, e os seus olhos, bem abertos e serenos, olham para um futuro em que a Ucrânia se libertará da opressão nacional e seus servos da tirania de senhores feudais. Longos anos se passarão até que o sonho se transforme em realidade, e enquanto isso, o poeta – profeta e mestre de seu povo -, recomendava: “Estudai, irmãos! Lede e meditai. O que é dos outros aprendei, sem desprezar o que é vosso.”
Sábias palavras, poeta.
Hatsuo Fukuda
O SONHO
Tarás Chevtchenko, versão em português por Mariano Czaikowski, Wira Selansk, Helena Kolody
Cada qual tem o seu destino
Seu caminho vasto;
Um constrói, um destrói:
Com olhar nefasto
Os confins do mundo mede,
Busca a terra nova
Para espoliar e consigo
Levar para a cova.
Um descasca com baralho
Uma casa amiga,
Um afia às escondidas
A arma fratricida.
Um, quietinho, piedoso,
Manso, mas atento,
Como um gato se aconchega,
Aguarda o momento -
Zás! teu fígado perfuram
Garras venenosas;
***
Eu sigo com pesar profundo,
Despeço-me do mundo:
“Adeus, mundo, adeus, terra,
País inimigo,
Minhas dores, minhas mágoas
Levarei comigo.
A ti, minha pobre Ucrânia,
Viúva sem sorte,
Visitarei das alturas,
Das nuvens da morte.
Vamos consolar-nos, tristes,
Com amor intenso,
Eu te cubro à meia-noite
Com orvalho denso.
Virei, até o Sol desponte
E tu não mais chores,
E teus filhos se revoltem
Contra os invasores.
Adeus, minha mãe querida,
Viúva cativa,
Crie os filhos: Deus é dono
Da verdade viva!”

TARÁS CHEVTCHENKO – O POETA DA UCRÂNIA, publicação do Consulado Honorário da Ucrânia em Paranaguá, por sugestão da Representação Central Ucraniana-Brasileira (leia-se Vitório Sorotiuk, na época seu presidente) de autoria de Mariano Czaikowski e Wira Selansk. O livro é bilingue. Os poemas foram traduzidos por ambos e mais Helena Kolody. Nossa poeta maior era ucraniana de Cruz Machado e nestas versões, aqui e ali, você encontrará ecos de sua poesia. E vice-versa. Ela nasceu no Brasil, mas sua alma era ucraniana. Ela mesma contou que quando criança ouvia o pai recitar poemas de Chevtchenko. Não achei o livro na Amazon Books, o que é lamentável. Na Estante Virtual você encontrará alguns exemplares.

Hatsuo Fukuda é um quase um ucraniano, pelas tantas vezes que visitou o consulado da Ucrânia em Curitiba, o Bar Barbaran, da Sociedade Ucraniana.









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