top of page

NÃO DEIXE CAIR O MALABAR

há 4 horas
5 min de leitura
Ilustração cómica de um homem a esquivar-se de um pesquisador eleitoral na rua, com um balão de pensamento a fazer malabarismos com temas do quotidiano.

NÃO DEIXE CAIR O MALABAR


Por Caio Brandão


Elpídio não segurava onda, nem marola, não entrava em bola dividida e, se no céu as nuvens perdessem a palidez, ele saltava de banda e ia pousar em paragens amenas e sem contradições. Elpídio não era uma pessoa, exatamente, mas um personagem que se adaptava a qualquer roteiro de filme ou de novela, desde que na trama não existisse fratura exposta ou sequer uma canelada. Era um homem ameno, sem opinião ou, quem sabe, com várias opiniões, o rei do contraditório de si mesmo.


Elpídio era, por definição, um malabarista de salão. Sabia manter no ar todos os malabares — inclusive os domésticos — sem jamais deixar nenhum cair, unicamente para não ter a chateação de resolver nada, ou algo bem perto disso.


Era especialista em vácuo, principalmente nas amizades. Esperava a direção do vento para se lançar e contornava com maestria eventuais embates ou a sinalização de alguma discórdia em perspectiva.


Se, no grupo de mensagens, os amigos começavam um debate inflamado, Elpídio entrava instantaneamente em modo de hibernação digital. Apagava as digitações, silenciava a conversa por um ano e só reaparecia três dias depois, mandando a figurinha de um gatinho calmo tomando chá. Se cobrado por uma tomada de posição, alegava que a bateria do celular havia morrido no exato instante da discussão — um milagre tecnológico que se repetia com precisão suíça a cada crise alheia.


Se o garçom lhe servia café frio, Elpídio descobria, ali mesmo, uma repentina e apaixonada preferência pelo estilo gelado à moda europeia. Se, na mesa do almoço, a conversa descambava para a política, ele balançava a cabeça com olhar grave e soltava um solene:


— A questão é complexa, tem muitos lados...


E pronto. Escapava pela tangente sem deixar um único fio de cabelo no caminho. Para Elpídio, viver não era um combate, mas um espetáculo de equilibrismo em que a gravidade parecia pedir licença para passar.


«Para Elpídio, viver não era um combate, mas um espetáculo de equilibrismo em que a gravidade parecia pedir licença para passar.»

O problema, claro, é que até os melhores malabaristas entram em pânico quando o vento resolve mudar de direção sem avisar.


E, em ano eleitoral, o vento não apenas mudava de direção: virava vendaval. A cidade transformava-se num campo minado de bandeiras, carros de som e militantes apaixonados. Para Elpídio, caminhar até a padaria virava uma operação militar de esquiva. Cada esquina podia esconder uma opinião; cada esquina seguinte, uma pergunta.


Foi numa dessas travessias que o inevitável aconteceu. A pouca distância de seu refúgio, um pesquisador de opinião, de colete azul e prancheta na mão, surgiu de trás de uma banca de jornal, em rastejo tático, e bloqueou sua passagem:


— Boa tarde, meu caro! Uma pesquisa rápida de intenção de voto. Para presidente, o senhor já tem candidato definido ou pende para a situação?


Elpídio congelou. Ali não havia botão para silenciar a conversa, nem a desculpa da bateria descarregada. Olhou para a esquerda e viu um militante de vermelho; olhou para a direita e topou com um simpatizante de verde e amarelo. Qualquer palavra audível poderia detonar uma guerra civil no raio de dois metros.


Em vez de responder, Elpídio encolheu o pescoço entre os ombros, baixou as pálpebras num transe meditativo e soltou um som vindo diretamente do fundo do tórax, um ruído rouco e cavo, quase monotônico:


— Mmm-grrr-nhã...


O pesquisador piscou, com a caneta suspensa no ar.


— Desculpe, não entendi. O senhor disse que vota no candidato da esquerda?


— Rrrr-hnnn-depende... — devolveu Elpídio, num murmúrio ainda mais grave e gutural, tão baixo que parecia o ronronar de um motor antigo ou o mantra de um monge de claustro. — Candidato é conceito... a conjuntura... hnnn-hum... nada é definitivo sob a luz do sol...


— Mas e o partido? — insistiu o rapaz, franzindo a testa e tentando decifrar o código. — O senhor se considera de Centro, Direita ou Esquerda?


— Mmm-centro-periférico-transversal... hummm...


“— O senhor se considera de Centro, Direita ou Esquerda? — Mmm-centro-periférico-transversal... hummm...”


Sem dar tempo para o jovem processar a geometria ideológica da resposta, Elpídio adiantou o corpo, tocou com gravidade o ombro do rapaz e fitou-o no fundo dos olhos, sem piscar. Como quem revela um segredo de Estado, disparou:


— Minha próstata!


O moço travou a caneta, perplexo.


— Como? Alguma candidata in pectore?


— Não — disse Elpídio, assumindo uma urgência súbita e quase aflita. — Preciso urinar! Sabe onde fica o banheiro?


Desconcertado, o jovem apontou para a lanchonete do outro lado da rua. Elpídio agradeceu com um aceno solene e acelerou o passo.


A lanchonete foi um alívio milagroso. Do outro lado da rua, o pesquisador ainda acompanhava os passos de Elpídio, que se refugiou no toilette. Apalpou o membro fugidio, deu-lhe ânimo para uma micção vigorosa que existia apenas na sua imaginação e refez-se, aliviado.


Do toilette, porém, não saiu de pronto. Merecia um periscópio para perscrutar o entorno, mas bastou-lhe a tela do celular para fazer o papel. Visto o ambiente limpo, sem riscos e livre de personagens sinistros, Elpídio deu o primeiro e largo passo em direção ao corredor que dava acesso ao balcão.


A garçonete sorriu e soltou a frase clássica:


— Posso lhe ajudar?


— Um café forte e sem açúcar, por favor.


— O senhor é diabético? — ela perguntou.


Elpídio não gostou. Parecia o início de uma nova e irritante pesquisa.


— Não — disse ele. — Sou hanseniano.


— Isso pega? — perguntou a moça, dando meio passo para trás.


— Melhor não arriscar — respondeu Elpídio.


Ela o olhou por um instante, sem saber se deveria manter a distância ou chamar alguém.


Então veio a pergunta fatal:


— E o senhor vai votar em quem?


Elpídio não pestanejou.


— No dono da padaria da esquina — devolveu.


— Ah! Não sabia que ele era candidato a algum cargo...


— Ainda não — respondeu Elpídio, tomando finalmente o café.


Levantou-se devagar, colocou a coluna no lugar e lembrou-se do conselho de um velho amigo, político de grandes e memoráveis derrotas, que costumava dizer:


— Definições, pela sua natureza, são autoritárias e sugam energia tanto na sua formulação quanto no seu cumprimento. Melhor ficar solto, sem amarras, sem muitas respostas, evitando ter que justificar alguma coisa sem proveito. Uma opinião, quando declarada, ganha o péssimo hábito de cobrar coerência mais tarde.


«Uma opinião, quando declarada, ganha o péssimo hábito de cobrar coerência mais tarde.»

E, se o assunto fosse futebol ou religião, melhor fingir uma convulsão e pôr a correr o interlocutor curioso, em meio a uma salivação espumante e olhos esbugalhados.


Elpídio não pretendia mudar o mundo. Bastava-lhe não ser obrigado a escolher um lado dele.


Como é bom dizer tudo sem dizer coisa alguma.




foto do autor, caio  brandão, de oculos escuros

Caio Brandão é jornalista. Como é mineiro, está onde sempre esteve.

Comentários


bottom of page