O Agente Secreto de Si Mesmo na Literatura: de Poe a Piglia, Benjamin, Borges, Cortázar e Perec
- LUIS CARLOS EIRAS

- há 1 dia
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O Agente Secreto de Si Mesmo na Literatura
De Poe a Piglia, Benjamin, Borges, Cortázar e Perec
Nota do editor: O dialeticos.com tem o prazer de apresentar o ensaio de estreia de Luís Carlos Eiras. Em seu texto inaugural, o autor investiga as ambiguidades do "eu" e da observação urbana nas obras de Poe, Benjamin, Borges, Cortázar e Perec. Boa leitura.
A figura do agente secreto de si mesmo emerge na literatura como uma lente poderosa para explorar a complexidade da identidade, da percepção e da relação entre o indivíduo e a metrópole moderna.
Aqui busco traçar a genealogia e as manifestações dessa figura, partindo de Edgar Allan Poe e seu conto “O Homem das Multidões”, passando pela seminal interpretação de Walter Benjamin sobre o flâneur, e culminando em suas ressonâncias e reelaborações na obra de autores latino-americanos e franceses como Jorge Luis Borges, Julio Cortázar e Georges Perec.
A análise se concentrará em como esses escritores, cada um a seu modo, desdobram a ideia de um sujeito que, consciente ou inconscientemente, investiga, decifra ou mesmo constrói os mistérios de sua própria existência e do mundo ao seu redor, muitas vezes operando nas fronteiras entre a realidade e a ficção.

“O Homem das Multidões” (1840) de Edgar Allan Poe é frequentemente citado como o texto fundacional para a figura do observador urbano moderno. O narrador, convalescente em um café londrino, é tomado por uma compulsão irresistível de seguir um homem idoso que se destaca na multidão. Esse homem, que parece carregar um segredo insondável, torna-se o objeto de uma perseguição noturna através das ruas da cidade. A incapacidade do narrador de desvendar o mistério do homem, que ele descreve como “o tipo e o gênio do crime profundo”, revela a cidade como um labirinto de segredos e o indivíduo como um enigma indecifrável. Poe, aqui, estabelece o arquétipo do detetive e, simultaneamente, a ideia de que a própria identidade pode ser um mistério a ser investigado, um “agente secreto” de sua própria existência oculta.
Walter Benjamin, em sua obra “Paris, Capital do Século XIX” e em seus estudos sobre Charles Baudelaire, eleva a figura do flâneur a um patamar filosófico e sociológico. O flâneur, o passeante ocioso que observa a vida urbana, é para Benjamin uma figura ambivalente, um agente secreto da modernidade. Benjamin afirma que Baudelaire era um “agente secreto, um agente do descontentamento secreto de sua própria classe e lugar de sua própria dominação” [1]. Essa citação é crucial, pois sugere que o flâneur, ao se imergir na multidão e observar seus movimentos, não é apenas um espectador passivo, mas um participante ativo, embora oculto, nas dinâmicas sociais e econômicas da cidade. A conexão com Poe é explícita: Benjamin vê “O Homem das Multidões” como um texto que prefigura a transição do flâneur para o detetive, onde a observação da massa se transforma em uma busca por decifrar seus segredos, tornando o flâneur um “agente” que busca desvendar a própria cidade e, por extensão, a si mesmo.
O escritor argentino Ricardo Piglia é um dos mais importantes teóricos e praticantes da ideia do agente secreto de si mesmo na literatura contemporânea. Piglia propõe que o escritor moderno, à semelhança de um detetive, investiga não apenas a realidade, mas a própria ficção. Em sua teoria das “duas histórias” no conto, Piglia argumenta que toda narrativa esconde uma história secreta, clandestina, que o leitor (e o próprio escritor) deve desvendar. Essa história oculta é o “agente secreto” que opera nas entrelinhas do texto, revelando as verdadeiras intenções e os mecanismos da ficção. Em obras como A Cidade Ausente e Respiração Artificial, os personagens de Piglia frequentemente atuam como agentes de uma conspiração literária ou política, onde a identidade é uma construção secreta e a realidade é permeada por ficções.

No romance O Caminho de Ida, Piglia estabelece um diálogo direto com O Agente Secreto de Joseph Conrad. O personagem Thomas Munk, uma ficcionalização de Ted Kaczynski (o Unabomber), é apresentado como um leitor atento de Conrad, personificando a transição do intelectual para o “agente” que opera nas sombras contra o sistema tecnológico [2]. Piglia sugere que a leitura e a escrita são formas de conspiração, e a personagem Ida Brown, ao descobrir mensagens ocultas no exemplar de O Agente Secreto de Munk, transforma o ato crítico em uma investigação de “agente secreto” [2]. O escritor, assim como Conrad, um polonês escrevendo em inglês, é visto como um “agente secreto” em terra estrangeira, operando entre diferentes línguas e culturas para revelar verdades ocultas [2].
Jorge Luis Borges, mestre da metaficção e do labirinto, explora a figura do agente secreto de si mesmo através de personagens que são, em essência, investigadores de realidades construídas e de identidades fragmentadas. Em contos como “A Morte e a Bússola” e “O Jardim de Caminhos que se Bifurcam”, os protagonistas são detetives que se perdem em suas próprias investigações, tornando-se agentes de labirintos mentais onde o segredo é a própria estrutura da realidade. A busca por um enigma externo frequentemente se revela uma jornada para o interior da própria consciência, onde o “agente secreto” é o próprio sujeito que tenta decifrar a si mesmo e o universo que ele habita. A identidade em Borges é fluida, múltipla, e o ato de narrar é um ato de constante auto invenção e autodescoberta, onde o escritor é o primeiro e mais astuto “agente secreto” de sua própria obra.
Em “O Outro”, Borges leva a fragmentação da identidade a um ponto culminante ao narrar o encontro do próprio autor, já idoso, com sua versão jovem. Este encontro, que transcende as barreiras do tempo e da realidade, força o protagonista a confrontar a alteridade dentro de si mesmo. O “outro” não é apenas um estranho, mas uma manifestação de seu próprio passado, um “agente secreto” que guarda as memórias, as ambições e as ilusões de uma vida. A conversa entre os dois Borges revela a natureza ilusória da identidade unificada e a constante negociação com as múltiplas versões do eu. O conto sublinha a ideia de que o indivíduo é um constante investigador de sua própria história e de suas projeções, um detetive de sua própria psique, onde o segredo maior é a própria construção do ‘eu’ ao longo do tempo.
Julio Cortázar, herdeiro da tradição de Poe e da leitura de Benjamin, cria personagens que são “agentes secretos” de realidades paralelas e de percepções expandidas. Cortázar retoma a citação de Benjamin sobre o agente secreto parisiense de 1798, sugerindo que a cidade massificada exige que o sujeito se torne um agente para manter sua identidade e descobrir as “passagens” para o “lado de lá” [3]. Em “Las Armas Secretas”, a memória atua como um agente secreto que sabota o presente, e o personagem opera sob a influência de um passado que ele não domina totalmente, agindo como um agente de uma história que o possui [3]. No conto “As Babas do Diabo” (que inspirou o filme Blow-Up), o fotógrafo Roberto-Michel atua como um agente secreto da visão. Ao ampliar uma foto, ele descobre um crime oculto na normalidade de um parque, exemplificando a transição do flâneur para o detetive-investigador descrita por Benjamin [3]. Os personagens de Cortázar são frequentemente levados por acasos e sincronicidades, agindo como agentes de uma ordem oculta que se revela através de eventos aparentemente insignificantes, desvendando os segredos da vida cotidiana.
Georges Perec leva a flânerie de Benjamin a um novo nível através do conceito de “infraordinário”. Em obras como A Vida Modo de Usar e Tentativa de Esgotamento de um Local Parisiense, Perec age como um agente que monitora cada detalhe insignificante da realidade urbana, transformando o cotidiano em um campo de investigação minucioso. A figura do observador em Perec não busca o extraordinário (como o detetive clássico), mas o “infra ordinário”, agindo como um agente secreto infiltrado na normalidade para denunciar a alienação e a estrutura dos espaços [4]. O ato de catalogar, listar e observar a vida cotidiana transforma o sujeito em um agente de uma ordem secreta e minuciosa, revelando a complexidade e a estranheza do que é aparentemente comum. Perec, assim, demonstra que o “agente secreto de si mesmo” pode ser aquele que, ao se dedicar à observação minuciosa do mundo, desvenda os segredos mais profundos da existência.

A figura do agente secreto de si mesmo na literatura, que se origina em Poe e é teorizada por Benjamin, encontra em Borges, Cortázar e Perec uma rica tapeçaria de manifestações. Esses autores, cada um com sua singularidade, exploram a ideia de um sujeito que, através da observação, da investigação e da reinterpretação da realidade, atua como um agente de sua própria história e dos mistérios que o cercam. Seja na busca por enigmas externos que se revelam internos, na decifração de realidades paralelas ou na minuciosa catalogação do infraordinário, o “agente secreto de si mesmo” é uma figura que reflete a incessante busca humana por sentido e por uma compreensão mais profunda da identidade em um mundo cada vez mais complexo e fragmentado. A literatura, nesse sentido, oferece um espaço privilegiado para essa investigação, onde o leitor é convidado a se tornar, ele próprio, um agente secreto na decifração dos segredos da narrativa e da existência.
[1] Benjamin, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1989. [2] Piglia, Ricardo. O Caminho de Ida. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. [3] Cortázar, Julio. As Armas Secretas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964. [4] Perec, Georges. A Vida Modo de Usar. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Luís Carlos Eiras por ele mesmo
Nasci em Cambuí, sul de Minas, em 1950. Fiz mestrado em Ciência da Informação pela UFMG. Escrevo na revista Medium (medium.com) sobre tecnologia. Meus livros O moto contínuo, O Teste de Turing e Viagem ao País de Tropicana estão à venda na Amazon.










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