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No BAR ANGA com Karl Marx

há 3 horas
7 min de leitura
O autor Marinho Bastos e Karl Marx sentados a uma mesa de madeira no Bar Anga, cercados por canecas de chope e porções de petiscos, conversando animadamente em um ambiente boêmio acolhedor.

No BAR ANGA com Karl Marx

Por Marinho Bastos


Férias. Balneário Gaivotas, litoral do Paraná.


O litoral é o refúgio perfeito onde o tempo desacelera. O sol brilha intenso. Caminhar descalço pela areia, de mãos dadas com a Italiana, faz a vida ganhar algum sentido. No quebrar das ondas, a energia se renova e o ego, por algumas horas, esquece suas ilusões.


Sentamos. Guarda-sol aberto — conhecido entre nós como Eclipse —, caixa térmica abastecida e uma pequena caixa de som tocando pagode. Dou início aos trabalhos abrindo a primeira latinha. Cavalheiro que sou, ofereço à Italiana o primeiro gole.


De longe, escuto:


— Coco gelado! Coco gelado!


Era Walter do Coco. Carinhosamente, nós o chamávamos de Water do Coco. Acenei. Ele se aproximou trazendo um coco gelado e uma batida de vodca saída dos porões secretos do carrinho.


Eu e a Italiana conversávamos sobre coisa nenhuma. Amenidades. Diante do mar, até o assunto perde a obrigação de chegar a algum lugar. Inclinei a cadeira e, pouco depois, estava nos braços de Morfeu.

Não sei quanto tempo dormi. Acordei com alguma coisa sendo depositada sobre minha barriga. Um telegrama. Levantei a cabeça. O homem que o entregara já havia desaparecido.


A Italiana, assustada, perguntou:


— Que foi isso?


— Também quero saber.


Juntos, abrimos o telegrama.


REMETENTE: KARL MARX = MAITLAND PARK ROAD = HAMPSTEAD = BELSIZE PARK = LONDRES = CAMARADA MARINHO = ESTAREI NO BAR ANGA NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA = CHEGADA PREVISTA ÀS 19 HORAS = ANSIOSO PARA O ENCONTRO = UM FORTE ABRAÇO = CAMARADA KARL MARX +


Reli. Olhei para a Italiana.


— Quem diria... Mohr estará entre nós.


A Italiana me encarou com aqueles olhos que parecem duas esmeraldas. Silêncio.


— Lá vem história! Marinho, subimos a serra amanhã pela manhã.


Cadeira de praia de madeira sob guarda-sol colorido na areia de Balneário Gaivotas, com uma lata de cerveja, caixa térmica retrô e um telegrama de Karl Marx convidando para um encontro no Bar Anga.

Litoral deixado para trás com sucesso. Mala desfeita. Agora, a missão era outra: BAR ANGA, cerveja gelada e alguns goles de consciência de classe com o camarada Mohr.


O horário se aproximava, e meu coração, que é vermelho, sofria de taquicardia. A Italiana se ofereceu para me levar. Deu-me um selinho e depositou-me em frente ao meu santuário.


Acenei.


— Veio de carona?


Era Bambu Albino, com uma nova camisa do Paraná Clube. Ele não andava: desfilava garbosamente.


— Sim. A Patroa me trouxe. Bonita camisa!


— Marinho, não se esqueça das minhas pedrinhas de gelo!


Entrei. Aqui acontece o milagre da transformação: minha água vira cerveja gelada. No BAR ANGA, Ego e Id entram de mãos dadas.


Cumprimentei o Sr. Edu e fiz um pedido inusitado: quitutes alemães e, para acompanhar, a de sempre — uma gelada. Dirigi-me à santa mesa, sentei e brindei silenciosamente: que a fonte nunca nos falte. Sorvi o primeiro copo como se fosse o elixir do conhecimento.


O relógio marcava dezenove horas em ponto. Olhos fixos na porta. A qualquer momento, o velho Mohr entraria. O tempo foi escoando. Pedi ao Flash Gordon mais uma ampola gelada. Morena, em pé junto ao balcão, percebeu minha inquietação.


Então, a porta do BAR ANGA se abriu e, por um instante, o tempo congelou. Era ele. Karl Marx, em carne, osso e barba densa. Vestia o terno de sempre, visivelmente surrado pelo peso dos séculos e pelas longas horas de estudo. Carregava nos ombros a poeira da História e, nos olhos, a mesma vivacidade de quem escreveu o Manifesto.


A banda SAMBASTOS atacou os primeiros acordes de A Internacional. Marx foi reconhecido pelos presentes. Uma salva de palmas tomou conta do BAR ANGA. Mohr meneou a cabeça em agradecimento, correu os olhos pelo salão, localizou-me e caminhou em direção à mesa com a naturalidade de um velho frequentador.


Karl Marx entrando pela porta do rústico Bar Anga, enquanto uma banda executa A Internacional com sanfona e violino e os frequentadores aplaudem calorosamente.

Parou diante de mim. Um longo e fraterno abraço aconteceu. É o tipo de abraço em que o aprendiz descobre que sua jornada nunca será solitária.


— Camarada Marinho! Que satisfação!


A voz profunda parecia ter atravessado o século XIX. Sentamos.


— Aqui a consciência de classe vem acompanhada de tira-gosto e cerveja gelada.


— Mohr atrasado? O que houve?


— Reconheço que minha fama de atrasos é antiga, mas hoje o motivo é legítimo: sobreviver à Linha Verde deveria servir de justificativa para qualquer atraso. Aliás, vocês têm prefeito? PQP!


— Relaxa, Mohr! Vamos ao líquido.


Derramei o líquido abençoado em sua caneca e na minha. Brindamos.


— À fonte, que nunca nos falte!


— Prost! Para aguentar o capitalismo e despertar a consciência de classe.


Marx inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos na mesa. O tecido gasto do terno chegou a estalar.


— Então, Marinho... como andam as coisas por aqui? Soube que o capitalismo, por essas bandas, ganhou contornos... interessantes.


Dei um gole na gelada para lubrificar os neurônios.


— Interessantes, Mohr? Abriram a caixa de Pandora do cenário nacional. Nossa burguesia perdeu de vez o pudor, e a direita deixou claro que, quando o lucro é ameaçado, qualquer máscara democrática pode ir para o lixo. Literalmente, a cadela está no cio.


Mohr ficou algum tempo me encarando.


— Sabe, Marinho, o maior triunfo de um mestre não é ser lembrado. É contemplar o discípulo e perceber que seus ensinamentos ganharam vida e asas próprias.


Confesso que fiquei sem jeito. Com tamanha deferência, senti Ego e Id bailando no meu inconsciente. O Superego, de tão feliz, pedia mais uma gelada. Acenei para Flash Gordon. Ele surgiu com a costumeira rapidez, equilibrou o líquido abençoado sobre a mesa e balbuciou:


— Garçons do mundo, uni-vos!


Brindamos.


— Tem conversado com Friedrich Engels?


— Não. Até porque estou enterrado no Cemitério de Highgate, no norte de Londres, e meu amigo Engels foi cremado, conforme seus desejos.


— Realmente fica um pouco difícil enviar cartas para cinzas.


Marx sorriu e tomou mais um gole.


— Marinho, vou te contar uma coisa. Não chega a ser segredo, mas pouca gente pensa nisso. Friedrich sempre foi discreto. Não queria monumentos nem protagonismo. Sempre me considerou o gênio da dupla.


Marx girou lentamente a caneca entre as mãos.


— Nossa amizade ultrapassava a filosofia. E quer saber de uma ironia que a História adora esconder?


Inclinei-me sobre a mesa.


— Manda.


— O comunismo talvez não tivesse saído do papel se Engels não tivesse trabalhado dentro da engrenagem do capitalismo para ajudar a sustentar minhas ideias.


Ergui a caneca.


— Mohr, isso merece um brinde.


Ele levantou a dele.


— Às contradições, Marinho.


— À fonte, que nunca nos falte.


— Sem contradições, metade da História ficaria desempregada.


As canecas se encontraram. E o capitalismo, por alguns segundos, financiou outra rodada.


Bambu Albino aproximou-se e falou junto ao meu ouvido:


— Marinho, vou embora mais cedo. Minhas pedrinhas de gelo...


Abri a carteira e lhe entreguei cinquenta reais. Bambu agradeceu e retirou-se. Mohr observou a cena por trás da selva de barba grisalha.


— Não me julgue pela distribuição de renda — antecipei-me. — Já sei: caridade burguesa para aliviar minha culpa de classe.


Marx ergueu a caneca.


— Pelo contrário, Marinho. Nem todo gesto precisa virar tratado econômico. Você apenas reconheceu o trabalho de um homem.

Bebeu generosamente. O velho Marx sabia degustar uma cerveja como poucos.


A noite no BAR ANGA já ia alta, e nossa mesa parecia o epicentro de uma Internacional Etílica. Marx ficou alguns segundos em silêncio, contemplando a espuma que escorria lentamente pela caneca.


— Marinho, você sabe por que me chamavam de Mohr?


— Claro.


Aproximei-me e respondi:


— Porque você tem cor de chiclete mascado.


Marx me encarou.


— Brincadeira. É por causa de sua pele morena.


— Só meus familiares e amigos próximos me chamam de Mohr. Fico feliz por você estar entre eles.


— Vou dar a mesma resposta que dei a Freud. É porque tenho RG.


Cofiou a barba.


— RG? O que é RG?


— Rola grossa.


Marinho Bastos e Karl Marx de pé ao lado da mesa de bar com copos e pratos vazios, gesticulando em um diálogo fraterno antes de encerrar o encontro.

Rimos juntos como se fosse a última cerveja, torcendo para que a mais-valia da ressaca fosse distribuída igualmente entre nós. Brindamos e tomamos o último gole de nossas canecas. Marx olhou para o relógio de bolso, ajeitou as mangas do terno surrado e suspirou.


— Bem, camarada Marinho — disse, apoiando as mãos na mesa para se levantar. — É hora de recolher as forças produtivas.


— Deixe-me acompanhá-lo até a saída, Mohr — respondi, levantando-me também e sentindo o peso leve dos goles de consciência de classe.

Paguei ao Sr. Edu, que se recusou a cobrar a mais-valia dos quitutes alemães, por puro respeito ao convidado ilustre, e caminhamos em direção à calçada.


O ar da noite curitibana estava fresco. Marx parou e me deu um abraço forte, daqueles de quebrar costela burguesa.


— Continue firme na agitação e na propaganda, Marinho. E não se esqueça: os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; a questão, porém, é transformá-lo... ou, pelo menos, continuar pagando cinquenta reais pelas pedrinhas de gelo do Bambu Albino.


Rimos juntos.


Naquele exato momento, um brilho familiar cortou a penumbra da rua. Era o carro da Italiana despontando na esquina. Ela estacionou bem em frente ao nosso santuário. O vidro desceu, e aqueles dois olhos de esmeralda iluminaram a calçada. Ela olhou para mim, olhou para o homem de terno gasto e barba monumental ao meu lado e abriu um largo sorriso.


— E aí, Marinho? A revolução já começou ou eu vim buscar os feridos à toa?


— Camarada Mohr, esta é a Italiana, a dona dos meus meios de afeição — apresentei, orgulhoso.


Marx fez um gesto elegante, tirando um chapéu invisível.


— Muito prazer, minha senhora. Agora entendo por que o Marinho passa as férias no litoral em vez de ficar lendo os meus calhamaços. Diante dessas esmeraldas, até o materialismo mais rígido vira idealismo romântico. Cuide bem dele. A consciência de classe desse senhor é altamente contagiante.


A Italiana riu, achando graça da diplomacia do velho revolucionário.


Despedi-me de Marx com um último aceno enquanto ele sumia garboso na noite de Curitiba, o velho terno carregando a poeira dos séculos.

Entrei no carro. O cheiro doce da Italiana me trouxe de volta à realidade. Ela engatou a primeira, olhou pelo retrovisor e perguntou, com certa ironia:


— E então? Ele pagou a conta?


— Que nada... A conta a gente divide com a História.


Encostei a cabeça no banco, feliz da vida.


— Toca pro rumo. Amanhã a serra nos espera.



Sobre o autor

Retrato do autor Marinho Bastos, homem maduro de óculos de armação redonda, terno cinza, gravata preta e barba grisalha aparada, sorrindo suavemente diante de um fundo escuro.

Mário Luiz Bastos (Marinho) é colaborador do dialeticos.com, personagem notório das madrugadas curitibanas, dedicado a escrever crônicas e contos entre copos e discussões de balcão. Sócio fundador do Clube dos Canalhas — situado entre o Paraná Clube e o Athletico Paranaense —, em uma outra encarnação teria atuado como psicólogo na Secretaria de Estado da Educação do Paraná. Suas reflexões etílico-filosóficas têm como refúgio habitual as mesas do Bar Anga.

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