No BAR ANGA com Karl Marx

No BAR ANGA com Karl Marx
Por Marinho Bastos
Férias. Balneário Gaivotas, litoral do Paraná.
O litoral é o refúgio perfeito onde o tempo desacelera. O sol brilha intenso. Caminhar descalço pela areia, de mãos dadas com a Italiana, faz a vida ganhar algum sentido. No quebrar das ondas, a energia se renova e o ego, por algumas horas, esquece suas ilusões.
Sentamos. Guarda-sol aberto — conhecido entre nós como Eclipse —, caixa térmica abastecida e uma pequena caixa de som tocando pagode. Dou início aos trabalhos abrindo a primeira latinha. Cavalheiro que sou, ofereço à Italiana o primeiro gole.
De longe, escuto:
— Coco gelado! Coco gelado!
Era Walter do Coco. Carinhosamente, nós o chamávamos de Water do Coco. Acenei. Ele se aproximou trazendo um coco gelado e uma batida de vodca saída dos porões secretos do carrinho.
Eu e a Italiana conversávamos sobre coisa nenhuma. Amenidades. Diante do mar, até o assunto perde a obrigação de chegar a algum lugar. Inclinei a cadeira e, pouco depois, estava nos braços de Morfeu.
Não sei quanto tempo dormi. Acordei com alguma coisa sendo depositada sobre minha barriga. Um telegrama. Levantei a cabeça. O homem que o entregara já havia desaparecido.
A Italiana, assustada, perguntou:
— Que foi isso?
— Também quero saber.
Juntos, abrimos o telegrama.
REMETENTE: KARL MARX = MAITLAND PARK ROAD = HAMPSTEAD = BELSIZE PARK = LONDRES = CAMARADA MARINHO = ESTAREI NO BAR ANGA NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA = CHEGADA PREVISTA ÀS 19 HORAS = ANSIOSO PARA O ENCONTRO = UM FORTE ABRAÇO = CAMARADA KARL MARX +
Reli. Olhei para a Italiana.
— Quem diria... Mohr estará entre nós.
A Italiana me encarou com aqueles olhos que parecem duas esmeraldas. Silêncio.
— Lá vem história! Marinho, subimos a serra amanhã pela manhã.

Litoral deixado para trás com sucesso. Mala desfeita. Agora, a missão era outra: BAR ANGA, cerveja gelada e alguns goles de consciência de classe com o camarada Mohr.
O horário se aproximava, e meu coração, que é vermelho, sofria de taquicardia. A Italiana se ofereceu para me levar. Deu-me um selinho e depositou-me em frente ao meu santuário.
Acenei.
— Veio de carona?
Era Bambu Albino, com uma nova camisa do Paraná Clube. Ele não andava: desfilava garbosamente.
— Sim. A Patroa me trouxe. Bonita camisa!
— Marinho, não se esqueça das minhas pedrinhas de gelo!
Entrei. Aqui acontece o milagre da transformação: minha água vira cerveja gelada. No BAR ANGA, Ego e Id entram de mãos dadas.
Cumprimentei o Sr. Edu e fiz um pedido inusitado: quitutes alemães e, para acompanhar, a de sempre — uma gelada. Dirigi-me à santa mesa, sentei e brindei silenciosamente: que a fonte nunca nos falte. Sorvi o primeiro copo como se fosse o elixir do conhecimento.
O relógio marcava dezenove horas em ponto. Olhos fixos na porta. A qualquer momento, o velho Mohr entraria. O tempo foi escoando. Pedi ao Flash Gordon mais uma ampola gelada. Morena, em pé junto ao balcão, percebeu minha inquietação.
Então, a porta do BAR ANGA se abriu e, por um instante, o tempo congelou. Era ele. Karl Marx, em carne, osso e barba densa. Vestia o terno de sempre, visivelmente surrado pelo peso dos séculos e pelas longas horas de estudo. Carregava nos ombros a poeira da História e, nos olhos, a mesma vivacidade de quem escreveu o Manifesto.
A banda SAMBASTOS atacou os primeiros acordes de A Internacional. Marx foi reconhecido pelos presentes. Uma salva de palmas tomou conta do BAR ANGA. Mohr meneou a cabeça em agradecimento, correu os olhos pelo salão, localizou-me e caminhou em direção à mesa com a naturalidade de um velho frequentador.

Parou diante de mim. Um longo e fraterno abraço aconteceu. É o tipo de abraço em que o aprendiz descobre que sua jornada nunca será solitária.
— Camarada Marinho! Que satisfação!
A voz profunda parecia ter atravessado o século XIX. Sentamos.
— Aqui a consciência de classe vem acompanhada de tira-gosto e cerveja gelada.
— Mohr atrasado? O que houve?
— Reconheço que minha fama de atrasos é antiga, mas hoje o motivo é legítimo: sobreviver à Linha Verde deveria servir de justificativa para qualquer atraso. Aliás, vocês têm prefeito? PQP!
— Relaxa, Mohr! Vamos ao líquido.
Derramei o líquido abençoado em sua caneca e na minha. Brindamos.
— À fonte, que nunca nos falte!
— Prost! Para aguentar o capitalismo e despertar a consciência de classe.
Marx inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos na mesa. O tecido gasto do terno chegou a estalar.
— Então, Marinho... como andam as coisas por aqui? Soube que o capitalismo, por essas bandas, ganhou contornos... interessantes.
Dei um gole na gelada para lubrificar os neurônios.
— Interessantes, Mohr? Abriram a caixa de Pandora do cenário nacional. Nossa burguesia perdeu de vez o pudor, e a direita deixou claro que, quando o lucro é ameaçado, qualquer máscara democrática pode ir para o lixo. Literalmente, a cadela está no cio.
Mohr ficou algum tempo me encarando.
— Sabe, Marinho, o maior triunfo de um mestre não é ser lembrado. É contemplar o discípulo e perceber que seus ensinamentos ganharam vida e asas próprias.
Confesso que fiquei sem jeito. Com tamanha deferência, senti Ego e Id bailando no meu inconsciente. O Superego, de tão feliz, pedia mais uma gelada. Acenei para Flash Gordon. Ele surgiu com a costumeira rapidez, equilibrou o líquido abençoado sobre a mesa e balbuciou:
— Garçons do mundo, uni-vos!
Brindamos.
— Tem conversado com Friedrich Engels?
— Não. Até porque estou enterrado no Cemitério de Highgate, no norte de Londres, e meu amigo Engels foi cremado, conforme seus desejos.
— Realmente fica um pouco difícil enviar cartas para cinzas.
Marx sorriu e tomou mais um gole.
— Marinho, vou te contar uma coisa. Não chega a ser segredo, mas pouca gente pensa nisso. Friedrich sempre foi discreto. Não queria monumentos nem protagonismo. Sempre me considerou o gênio da dupla.
Marx girou lentamente a caneca entre as mãos.
— Nossa amizade ultrapassava a filosofia. E quer saber de uma ironia que a História adora esconder?
Inclinei-me sobre a mesa.
— Manda.
— O comunismo talvez não tivesse saído do papel se Engels não tivesse trabalhado dentro da engrenagem do capitalismo para ajudar a sustentar minhas ideias.
Ergui a caneca.
— Mohr, isso merece um brinde.
Ele levantou a dele.
— Às contradições, Marinho.
— À fonte, que nunca nos falte.
— Sem contradições, metade da História ficaria desempregada.
As canecas se encontraram. E o capitalismo, por alguns segundos, financiou outra rodada.
Bambu Albino aproximou-se e falou junto ao meu ouvido:
— Marinho, vou embora mais cedo. Minhas pedrinhas de gelo...
Abri a carteira e lhe entreguei cinquenta reais. Bambu agradeceu e retirou-se. Mohr observou a cena por trás da selva de barba grisalha.
— Não me julgue pela distribuição de renda — antecipei-me. — Já sei: caridade burguesa para aliviar minha culpa de classe.
Marx ergueu a caneca.
— Pelo contrário, Marinho. Nem todo gesto precisa virar tratado econômico. Você apenas reconheceu o trabalho de um homem.
Bebeu generosamente. O velho Marx sabia degustar uma cerveja como poucos.
A noite no BAR ANGA já ia alta, e nossa mesa parecia o epicentro de uma Internacional Etílica. Marx ficou alguns segundos em silêncio, contemplando a espuma que escorria lentamente pela caneca.
— Marinho, você sabe por que me chamavam de Mohr?
— Claro.
Aproximei-me e respondi:
— Porque você tem cor de chiclete mascado.
Marx me encarou.
— Brincadeira. É por causa de sua pele morena.
— Só meus familiares e amigos próximos me chamam de Mohr. Fico feliz por você estar entre eles.
— Vou dar a mesma resposta que dei a Freud. É porque tenho RG.
Cofiou a barba.
— RG? O que é RG?
— Rola grossa.

Rimos juntos como se fosse a última cerveja, torcendo para que a mais-valia da ressaca fosse distribuída igualmente entre nós. Brindamos e tomamos o último gole de nossas canecas. Marx olhou para o relógio de bolso, ajeitou as mangas do terno surrado e suspirou.
— Bem, camarada Marinho — disse, apoiando as mãos na mesa para se levantar. — É hora de recolher as forças produtivas.
— Deixe-me acompanhá-lo até a saída, Mohr — respondi, levantando-me também e sentindo o peso leve dos goles de consciência de classe.
Paguei ao Sr. Edu, que se recusou a cobrar a mais-valia dos quitutes alemães, por puro respeito ao convidado ilustre, e caminhamos em direção à calçada.
O ar da noite curitibana estava fresco. Marx parou e me deu um abraço forte, daqueles de quebrar costela burguesa.
— Continue firme na agitação e na propaganda, Marinho. E não se esqueça: os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; a questão, porém, é transformá-lo... ou, pelo menos, continuar pagando cinquenta reais pelas pedrinhas de gelo do Bambu Albino.
Rimos juntos.
Naquele exato momento, um brilho familiar cortou a penumbra da rua. Era o carro da Italiana despontando na esquina. Ela estacionou bem em frente ao nosso santuário. O vidro desceu, e aqueles dois olhos de esmeralda iluminaram a calçada. Ela olhou para mim, olhou para o homem de terno gasto e barba monumental ao meu lado e abriu um largo sorriso.
— E aí, Marinho? A revolução já começou ou eu vim buscar os feridos à toa?
— Camarada Mohr, esta é a Italiana, a dona dos meus meios de afeição — apresentei, orgulhoso.
Marx fez um gesto elegante, tirando um chapéu invisível.
— Muito prazer, minha senhora. Agora entendo por que o Marinho passa as férias no litoral em vez de ficar lendo os meus calhamaços. Diante dessas esmeraldas, até o materialismo mais rígido vira idealismo romântico. Cuide bem dele. A consciência de classe desse senhor é altamente contagiante.
A Italiana riu, achando graça da diplomacia do velho revolucionário.
Despedi-me de Marx com um último aceno enquanto ele sumia garboso na noite de Curitiba, o velho terno carregando a poeira dos séculos.
Entrei no carro. O cheiro doce da Italiana me trouxe de volta à realidade. Ela engatou a primeira, olhou pelo retrovisor e perguntou, com certa ironia:
— E então? Ele pagou a conta?
— Que nada... A conta a gente divide com a História.
Encostei a cabeça no banco, feliz da vida.
— Toca pro rumo. Amanhã a serra nos espera.
Sobre o autor

Mário Luiz Bastos (Marinho) é colaborador do dialeticos.com, personagem notório das madrugadas curitibanas, dedicado a escrever crônicas e contos entre copos e discussões de balcão. Sócio fundador do Clube dos Canalhas — situado entre o Paraná Clube e o Athletico Paranaense —, em uma outra encarnação teria atuado como psicólogo na Secretaria de Estado da Educação do Paraná. Suas reflexões etílico-filosóficas têm como refúgio habitual as mesas do Bar Anga.










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