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O Encontro

Fotografia de dois homens idosos idênticos sentados frente a frente em uma mesa de madeira em uma cozinha rústica, segurando as mãos e olhando um para o outro. Há duas taças de vinho e uma jarra na mesa.


O Encontro


Por Caio Brandão


Três horas da manhã e lá vou eu, relutante, para o meu passeio madrugador, tal e qual um vigia noturno conferindo a segurança da casa.


Na saleta, a surpresa: eu sentado, olhando para mim de soslaio, de maneira tranquila e amigável — uma paz que há muito eu não experimentava. O susto me travou os passos.


— Quem é você? — perguntei àquela figura tragicamente familiar. — Será que eu morri?


O outro eu manteve o prumo. Não havia pressa no seu olhar, apenas a solenidade do silêncio que só a madrugada sabe ter.


— Calma, não se apresse — respondeu ele, com uma voz que era o eco da minha própria. — Talvez sequer você tenha vivido, e se trate apenas de uma borboleta sonhando que é um homem. Logo, acalme-se, porque, neste caso, as consequências podem estar no despertar, e não no sonhar.


— Então estou sonhando? — perguntei-lhe.


— Não — respondeu ele. — Você é o Ego e eu o Alterego. Sou o que se preocupa, que cuida das contas, dos compromissos e das miudezas que você despreza, mas somos um só. Você pode me chamar de um duplo estratégico, que escreve quando silenciamos e sonha quando estamos ocupados.


— Por que está aqui? Algum motivo especial?


— Sim — respondeu de mim para mim. — Resolvi me materializar para conhecê-lo melhor e propor-lhe nos unirmos. Não contra, mas em silenciosa resistência em desfavor dos exageros do Superego. Vamos despi-lo da condição de carrasco, aceitá-lo e livrá-lo da armadura de culpa, para fazer dele pura sabedoria. Ele tem dificuldades para se atualizar e mantém o tom crítico severo, quase medieval, sem considerar a velocidade das mudanças psicossociais em andamento.


— A ideia de cooptarmos o censor me agrada — confessei. — Então, na realidade, somos três? Ego, Alterego e Superego?


— Somos uma verdadeira trindade, que exibe força e poder. E, ainda, tem mais um: o Id, com quem devemos evitar lidar. Criatura sinistra, que traz consigo a impiedade de forças malignas da natureza.


O Alterego fez uma breve pausa, ajeitou-se na cadeira e continuou:


— Para facilitar, vamos nos tratar por nomes: Caio será o Ego; Brandão, o Alterego; e Pinto, o Superego. O planeta está atravessando uma fase de transição de enorme relevância, e precisamos nos preparar, somando forças sem, contudo, desestruturar a personalidade do individuo que reúne esses elements que representamos.


Caio sorriu, com uma malícia que logo foi percebida por Brandão, que completou:


— O Superego, chamado de Pinto, não vai reclamar. Ademais está vinculado ao sobrenome do autor. Ao contrário, pode até achar divertido, haja vista a sua permanente circunspecção introspectiva. A rigor, quem lida com a sexualidade e os impulsos puramente instintivos é o Id, mas nós já o deixamos de lado. Então, devemos nos ater à dimensão da fantasia e do romantismo, com a sexualidade sublimada em poesia, sedução verbal, em admiração estética e no jogo do charme. É aí que entra o Brandão: sutil e elegante.


— Então o Id é o arquiteto da culpa? — perguntou Caio.


— De jeito nenhum — atalhou Brandão, sorrindo. — O Id não tem a menor sofisticação para projetar algo assim; ele é o caos, o desejo bruto que ignora as consequências. Quem projeta e constrói a culpa é o Pinto, o nosso Superego, com suas fôrmas rígidas de certo e errado. O Id apenas fornece a matéria-prima do deslize; a cobrança do boleto moral é toda do censor.


— Procurei, mas não encontrei o Pinto. Ele está por aqui?


— Sim, mas ainda não está pronto para interagir. Vamos trazê-lo devagar, porque é muito forte nas energias que traduz e pode acarretar desequilíbrio e até a loucura. Nosso objetivo final é o sucesso na busca da felicidade, sem culpa e sem remorso. Nossa integração é plena, e qualquer desconforto será sutil e imperceptível.


De repente, um feixe de claridade cortou a penumbra.


— Oh, o dia amanhece… Você suporta a luz? — questionou Caio.


— Como não? — respondeu o Brandão, rindo. — Não sou o Conde Drácula. Me dê as suas mãos e vamos nos fundir para ressurgir sem a memória deste maravilhoso encontro que, espero, possamos renovar sempre que possível. Precisamos nos fortalecer para começarmos a abrir a caixa-preta de O Hospício é Deus e a tentar decifrar a figura magistral da autora, Maura Lopes Cançado.


Nota do Editor: Em O Encontro, Caio Brandão aborda conceitos da teoria freudiana e faz referência direta a O Hospício é Deus (1965), diário de autoria da escritora mineira Maura Lopes Cançado (1929–1993) que relata sua experiência no sistema manicomial brasileiro. Maiores detalhes sobre sua trajetória literária e biográfica podem ser consultados no perfil sobre a autora na Wikipedia. A imagem que ilustra esta publicação foi desenvolvida pelo autor com o auxílio da inteligência artificial Gemini, como representação visual do duplo que conduz a narrativa. 


Retrato fotográfico do escritor Caio Brandão.

Caio Brandão é advogado, jornalista, escritor, e colaborador regular do Dialeticos.com.

3 comentários


Deusa
há um dia

Cada dia você me surpreende com seus textos

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Convidado:
há um dia

Bom texto sempre surpreende de!

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Nicole
há um dia

Crônica inteligente, divertida e leve ao mesmo tempo. Achei muito interessante a forma como você personificou esses conflitos internos sem perder o humor. Parabéns pelo texto! 👏

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