Trilogia Caio Brandão: Uma mensagem para o futuro e o voo inevitável dos filhos
- CAIO BRANDÃO

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Trilogia Caio Brandão (Fim): Uma mensagem para o futuro vinda do passado
Nota do Editor: Chegamos ao fim da jornada. Ao resgatar esta memória de 1993, Caio Brandão oferece o antídoto perfeito contra a superficialidade do debate público. Longe do pragmatismo frio das eleições, o voo de uma filha nos devolve à nossa escala mais humana. Enquanto promessas eleitorais naufragam, a poesia do cotidiano salva nossa humanidade.
Caminheira e Semeadora: O Voo da Flecha de Janaína
Por Caio Brandão
O filósofo libanês Gibran Khalil Gibran, no seu livro mais conhecido, O Profeta, amparou a minha decisão de permitir que a minha filha mais velha, Janaína, que na época contava apenas dezoito anos, fosse para Hong Kong, em plena transição de colônia da Inglaterra, para Região Administrativa Especial da China Continental.
O momento era tenso e havia forte atrito entre Londres e Pequim ao longo de todo o ano de 1993, porque os chineses alegavam que as mudanças violavam os acordos prévios da Declaração Conjunta Sino-Britânica. Mas isto não me dizia respeito e, ademais, me atinha apenas aos conselhos de Gibran, quando ele dizia:
— Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da Vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós. E embora estejam convosco, não vos pertencem. (...) Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são lançados como flechas vivas. O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com Toda a Sua força para que Suas flechas voem rápidas e para longe.
Decisão difícil, mas ela estaria amparada e protegida, tanto quanto possível, e não apenas aceitei, como incentivei a decisão.
Ver aquela jovem de dezoito anos arrumar as malas rumo ao desconhecido, cruzando oceanos em direção a um território que fervilhava em transformações, fez o meu coração de pai apertar, mas também se encher de orgulho. Eu sabia que Hong Kong, com seus arranha-céus reluzentes e mercados tradicionais, seria o cenário onde a minha flecha traçaria o seu próprio voo.
Hoje, olhando para trás e vendo a mulher em que ela se tornou, concordo com o arqueiro, porque cada um deve traçar o seu destino em face das suas escolhas e assumir consequências. Após a sua partida, dela recebi uma carta, acolhida em Curitiba, a qual respondi em 01 de setembro de 1993, e que ora transcrevo.
Curitiba, 01 de setembro de 1993
Querida Janaína,
Foi bom receber sua carta. Sempre me considerei, na sua idade, vocacionado para grandes desafios e você me superou, o que é ótimo. Fico muito feliz em vê-la realizando os seus sonhos e encarando a sua própria realidade.
Lembre-se de que um mesmo caminho pode ser trilhado de muitas maneiras, cabendo a você perceber aquela que melhor se ajusta aos seus anseios e às suas expectativas. Para cada aclive, ao longo do percurso, sempre existirá uma descida para lhe permitir retomar o fôlego e seguir a sua jornada.
Nem sempre o destino final é o mais importante, mesmo porque, em que pesem as encruzilhadas da vida, sempre haverá algum destino. O aprendizado se faz enquanto se caminha, e chegar nada mais representa do que olhar para trás e avaliar o que se fez, como se fez, e o que se deixou de fazer e por quê.
Assim, querida filha, a vida é feita de atitudes, ou seja, do semear que cada um procede a seu modo e a seu tempo. Portanto, caminheira e semeadora, tenha a visão na linha do horizonte, mas mantém o passo firme e embase as suas ações com o melhor do seu intelecto, em harmonia com as suas convicções de foro íntimo e atenta ao pulsar do seu coração que, tenho certeza, reúne o que de melhor uma jovem adolescente pode oferecer a si mesma e aos seus circunstantes.
Explore o seu sorriso, defenda-se com ele, faça-o instrumento de ataque, se necessário, mas jamais o utilize como desdém ou deboche. Não tenha receio para externar posições em que realmente acredita e, lembre-se, a arte de fazer amigos pode estar mais próxima da sinceridade do não do que da pluralidade do sim.
Estar em outro país, conviver com outra família, falando outro idioma a par de costumes diferentes dos seus exige, no mínimo, bom-humor. E bom-humor também é a prática constante das palavrinhas mágicas que você desde cedo incorporou ao seu dia a dia: por favor, com licença e obrigado. A entonação, o volume e a expressão facial podem fazer milagres com essas palavrinhas. Assim, facilite a sua vida e abuse da sua simplicidade; você se surpreenderá com o alcance dessas palavras aparentemente tão sem importância.
Lembre-se e valorize a pontualidade, que é sinal de respeito e consideração para com as pessoas, o seu trabalho, as instituições e de grande valia até no ponto de ônibus.
O sucesso do conviver pode estar muito mais próximo da naturalidade do que você imagina. Respeitar o espaço alheio não é renunciar ao seu, e ser natural também é se esforçar para ficar incorporada ao cenário, fazer parte dele sem afetação, sem exibicionismo, mas também sem abdicar das peculiaridades que fazem de você, você.
Assim, em sendo você mesma e em sintonia com o seu meio, valendo-se do seu sorriso e praticando as palavras mágicas, o seu semear lhe trará realizados muitos dos seus sonhos, minha querida filha caminheira.
Entre os erros e acertos que praticar, não fique tão somente com a euforia ou com a angústia, mas, acima de tudo, guarde consigo as lições, porque amanhã, de qualquer forma, será sempre outro dia e você poderá renascer, sempre, perante você mesma.
Com o meu forte abraço e o da Anna, bem como das suas irmãs, fique bem.
Carta assinada por Cáio Brandão, em 01 de setembro de 1993.
Janaína hoje é advogada, cidadã britânica, e mora em Londres há vinte anos.

Sobre o autor: Jornalista por vocação e observador atento da comédia humana da política. Caio Brandão escreve para resgatar o que há de mais profundo em nossa humanidade, mesmo quando os mosquitos da política insistem em não mudar.









Ótimo texto - parabens amigo