O meu lugar? Que bom não sabê-lo

O meu lugar? Que bom não sabê-lo
Caio Brandão
Entre o giro lento do disco, o diálogo franco com a taça e os ecos dos amigos e da política, Caio Brandão reflete sobre a mansa sabedoria de não caber em moldura alguma.
O meu ritual de sábado não é tão sagrado como eu gostaria. Posso fazê-lo mais ou menos etílico, a depender da inspiração. Ouço música — sempre as mesmas nos últimos vinte anos —, reencontrando intérpretes dos quais continuo gostando, a despeito da presença repetitiva, mas sempre bem-vinda. O vinho pode ser libado em uma garrafa inteira, menos do que isso ou até mais; tudo varia conforme a qualidade da safra ou, principalmente, o estado de espírito.
Olho ao redor e percebo que os objetos também já não reclamam de nada. A poeira que repousa sobre as lombadas dos livros parece a mesma que se assenta sobre os velhos hábitos. Se me perguntassem onde me encaixo nesta altura da vida, talvez apontasse para o breve intervalo entre uma canção e outra, quando o silêncio devolve a pergunta ao ar.
E que alívio não ter a resposta na ponta da língua.
Na televisão, assisto à política, com seus escândalos renovados, mas sempre no mesmo diapasão. Malas e malas, cheias e transbordantes. Os destinatários, em euforia, enfrentam os processos com galhardia, como personagens de uma trama popularesca. O vulgo precisa de heróis e, entre uma mala e outra, os mais aquinhoados alçam voo rumo ao Olimpo.
Entremeio a música aos livros. Agora sorvo Pedro Rogério Moreira, com Bela Noite para Voar. Pedro é profundo, mistura ficção com realidade, mergulha com acuidade em nomes, datas e situações. Chama, de repente, a Princesa, da qual tenho notícia, mas passo ao largo.
Pedro diz que sou escritor, mas sei que não sou. Jornalista, sim; escritor, não. Um diletante, apenas; dedilhador de palavras e modesto construtor de frases. Vou ensaiando e edificando devagar, sem pressa, para não claudicar. Se alguma coisa resulta, ótimo. Se não resulta, paciência. Amanhã a caneta pode resolver se vingar de mim.
Leio também Fukuda, o editor do Dialéticos.com. Um buscador, graças a Deus. Quem é ele? Não importa. As letras o traduzem e desnudam o cara que tem a caneta solta, escorreita e atrevida. Que vá adiante sem curvar-se às encruzilhadas — elas são traiçoeiras e, não raro, nos fazem chegar aonde não pretendíamos.
Noutro canto do mesmo Dialéticos, Tito Guimarães me surpreende. Publica algo erótico, uma noite “Antes do Inverno Chileno”, com a surpresa na cama: presente um ser perfumado e quiçá andrógino, a tatear-lhe os íntimos, ora mais pacientes do que valentes. Melhor não descobrir a natureza da criatura. Se prazerosa, é o suficiente. Há mistérios que merecem permanecer mistérios, sobretudo quando a cama está envolvida.
A taça já está renovada, em viva contradição a Requião — um dinasta, apologista de sua adega secreta, de cujos exemplares só tenho notícia pelas exaltações do seu ego avantajado. Estive com ele no ano passado, em sua casa, e da tal adega singular conheci apenas um cafezinho. Gostoso, sim, mas nada além de um cafezinho — e com o Mauro Fregonesi pagando o jantar.
Os políticos não mudam; é o que temos.
Requião tem o seu valor, é verdade, mas não contemos com a sorte de provar da sua adega. Um avaro, pois, pois.
Lembro-me também de Newton Cardoso, este sim pródigo... consigo mesmo. Mantinha uma adega fantástica no Sítio Rio Rancho, guardando para si centenas de pérolas destiladas nos recantos mais prestigiados do labor etílico. Mas o rio levou — e levou mesmo.
Numa enxurrada histórica, as águas lavaram o sítio, embora não tenham lavado os pecados do “Trator”. De alguns deles fui consorte, mas sem nunca provar do néctar de suas garrafas. Tudo bem. Ficou no passado. E as garrafas, pelo visto, também.
Agora ouço Arlindo Cruz cantando o seu próprio “Meu Lugar” — aquele cercado de mitos e seres de luz, feito de sorriso, paz e prazer. Um doce lugar que fica eterno no coração, ideal “pra cantar e escrever”.
Bonito, sem dúvida.
Mas não sei se é o meu.
Quanto ao meu lugar, acho que ainda não o encontrei — e nem desejo isso. Talvez porque encontrar um lugar definitivo seja, de alguma maneira, aceitar que já não há para onde ir.
Prefiro a novidade que surge no momento certo, a circunstância que preenche lacunas e acentua situações. Pontuo com ações chamadas respostas, que tampam buracos, abaixam a cortina, dão tempo ao tempo e, quando necessário, varrem para debaixo do tapete, com discrição e sem alarde.
Que o diga Roberto Gutierrez.
Dele fui o valete necessário e oportuno, um peão com ares de torre e jogadas de rainha nem sempre reconhecidas. Mas dele me tornei amigo — e isso, no fim das contas, foi o suficiente.
Talvez seja esse o meu lugar: não um endereço, mas uma circunstância. Não uma cadeira cativa, mas a cadeira que aparece quando alguém precisa que eu me sente.
Mas, neste meu lugar que não conheço e nem reconheço — e que, por enquanto, me basta —, recebo uma mensagem de Lena Brandão, jornalista que não é parenta, mas amiga virtual.
Diz Lena:
“Leitura necessária.”
Que bom me fazer necessário!
Há palavras que acariciam o ego. Outras alimentam a alma. Algumas fazem as duas coisas ao mesmo tempo. Esta fez.
Sentimento de agregar valor. Vou cultivar isto.
Por aqui, renovo a taça e me recuso às certezas dos mapas. Afinal, a vida não exige endereço fixo quando se tem boa música no ar, cumplicidade nas páginas e uma garrafa disposta ao diálogo.
Talvez o meu lugar seja justamente esse: o lugar que não se deixa encontrar porque prefere continuar acontecendo.
Entre uma canção e outra.
Entre uma página e outra.
Entre uma taça e outra.
Se for assim, não tenho do que reclamar.
Se o meu lugar for apenas este ponto de encontro entre o vinho e a palavra que chega na hora certa, dou por cumprido o sábado.
E que grande alívio continuar sem sabê-lo.

Caio Brandão é jornalista e cronista mineiro.











Ah, Dr. Caio, então não és um escritor?
És, dos grandes, inspirado, preciso: fazes que sintamos os incômodos da poeira nas capas dos livros e, provavelmente, em muitos cômodos da casa. Fazes que sintamos o gostinho do vinho!
E és treteiro, fazes troça dos outros, retratando até os trejeitos!
Profusão de amigos e memória prodigiosa.
Imaginação fértil.
Grande escritor!