A anatomia de um amador: bastidores, fetiches e o imbróglio de Daniel Vorcaro
- CAIO BRANDÃO
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Nota do Editor: O noticiário recente esmiúça os meandros financeiros e os escândalos que cercam figuras do colarinho branco nacional. Contudo, para além dos relatórios da Polícia Federal, existe uma engrenagem sutil feita de vaidades, fetiches e jogos de cena. Nesta crônica mordaz, o escritor e jornalista Caio Brandão resgata memórias de bastidores e esquadrinha, com precisão cirúrgica e fina ironia, a linha que separa o verdadeiro estrategista do amador atabalhoado. Boa leitura.
De banqueiro a lobista atabalhoado: a anatomia de um amador
Por Caio Brandão
Acompanho, como de resto milhões de brasileiros, o imbróglio do novelo de fatos e versões que emolduram a trajetória do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, envolvido num dos maiores escândalos conhecidos do setor financeiro.
A par de sua capilaridade, atuando no cerne dos três poderes da República, Vorcaro se revela, contudo, um amador fanfarrão.
O exagero de suas ações — com franca e desnecessária exposição e risco —, os números que praticou com quem não merecia e não daria retorno, a disposição para atuar de forma agressiva, violenta e fora de padrão, o ajuntamento de mulheres disponíveis para reuniões eróticas de caráter grupal, além da tentativa grosseira de manipular a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República, tudo junto e misturado faz dele um jogador de várzea, perdulário e incompetente.
O jogo de aparências do lobby
Lobby se faz com delicadeza e sem ostentação, conquistando primeiro o coração e depois a mente. Os favores são modestos, podendo crescer com o tempo e o envolvimento. Mais vale a expectativa na linha do horizonte do que a entrega de algo a priori, na esperança de uma contrapartida.
Quanto mais relevante a autoridade, mais ela se preserva. Aceita favores, mas não dá a cara a tapa. Se o caldo engrossar, ela apenas diz: "Conheço esse senhor de relance, mas nada tenho a ver com ele, senão um encontro casual promovido por amigos em comum."
Informação versus conhecimento
Aprendi, desde cedo, a diferença entre informação e conhecimento. No mundo dos negócios — particularmente no terreno comercial pedregoso das obras de engenharia de grande envergadura, onde o pisar e o andar são movimentos garantidores de sobrevivência —, o conhecimento está sempre fincado na vivência, na experiência e na aprendizagem.
Quanto à informação, esta, sim, que processa dados sobre alguém ou algo específico, pode, a partir do conhecimento, mudar o rumo das coisas. Com o campo mapeado e identificados os atores capazes de encenar a peça por inteiro e dar a ela o almejado final, então o rumo aparece no cenário conforme o esperado.
Na obra Leviatã, de Thomas Hobbes, de 1651, a frase "informação é poder" surge associada à célebre máxima "scientia potentia est" (conhecimento é poder), citação que ganhou o mundo e avançou pelo tempo afora. Escutei muitas vezes essa frase dita por Laerte Rabello, da Norberto Odebrecht, com quem convivi em décadas passadas.
Laerte era uma figura atípica: de biotipo endomorfo, atarracado, não ligava para o trajar e se comunicava através de um linguajar direto, mediante poucas mesuras. Viajava bastante e levava, sempre à mão, uma maleta de couro desgastado, com alguma peça de roupa sobrando pelas laterais, que poderia ser tanto um pé de meia quanto uma peça íntima. Mas, desmazelo à parte, Laerte era ímpar e um grande multiplicador de negócios rentáveis.
Pedidos de emprego em reuniões reservadas
Certa feita, recebi um pedido do Márcio Manata, velho amigo, para agendar com o Laerte um encontro com executivo de suas relações residente em São Paulo, visando "o encaminhamento de uma excelente oportunidade de conquista de contrato de alto valor". Laerte viajou de Salvador para São Paulo e eu parti de Belo Horizonte, ambos com destino ao referido encontro.
Nosso anfitrião, que eu conhecia superficialmente, nos recebeu com estilo e, ato contínuo, mediante desculpas, pediu que a reunião fosse particular, apenas entre ele e o Laerte — uma descortesia para comigo.
A conversa durou cerca de 40 minutos e, na saída, no elevador, perguntei ao Rabello qual fora o tema secreto da reunião reservada. Laerte respondeu: "O cara me entregou o currículo e pediu emprego na empresa, alegando estar em condições de carrear para o nosso grupo um grande negócio".
Marinheiro de poucas viagens à época, fiquei mal no filme por não ter buscado a informação correta e ter me deixado levar apenas pelos ímpetos do Manata, sequioso por socorrer um amigo paulistano em dificuldades — no caso, o Junqueira... fica aqui o sobrenome. Mas, felizmente, o fato foi logo superado por eventos subsequentes tão carreados de emoção quanto, ficando o Manata redimido do tropeço anterior.
O consultor de dez mil dólares em Washington
Mas coisa pior sobreveio em outra oportunidade, em outra empresa. Viajei para Washington em companhia de uma conhecida figura mineira, recém-saída da presidência de uma entidade pública de destaque e que, depois, ocupou posição congênere em Brasília, a quem contratei como consultor sob o peso de honorários de 10 mil dólares.
A nossa missão estava restrita ao Banco Mundial, mediante reunião agendada com o Monsieur Rocha, alto funcionário daquela instituição, cujo parecer liberatório, demandado em processo de interesse da organização que eu representava, poderia alavancar um financiamento de alto valor para um empreendimento de notória monta. O meu contratado tinha bons contatos na área técnica do Banco Mundial, em face de trabalhos por ele realizados no passado e de tratativas financeiras complexas com o banco. Logo, a escolha me pareceu adequada.
A reunião com o Monsieur Rocha foi demorada; ele começou falando em inglês e depois em francês, alternando a locução nos dois idiomas. O meu contratado falava ambos os idiomas com desenvoltura, e eu não dominava nenhum dos dois. Ele, que se postava manso, falando devagar e orquestrando gestos estudados, entregou a Rocha um documento de três ou quatro folhas, que imaginei tratar-se do arrazoado de sustentação da nossa demanda. Monsieur Rocha leu com atenção, olhou-me nos olhos e sugeriu que a reunião prosseguisse em português.
O "Viajante" — vou chamá-lo por este codinome no sentido de poupá-lo do flagrante de um deslize ético — caiu em desconforto, mas aquiesceu. Monsieur Rocha informou ao meu contratado, em bom português, que o seu currículo para o pedido de emprego estava em boas mãos e que seria encaminhado ao setor competente para avaliação.
Paguei a viagem, o hotel, a alimentação e os extras, mais 10 mil dólares de remuneração, para o indivíduo pedir emprego ao Banco Mundial sob os meus olhares incompetentes e os meus ouvidos moucos.
A esgrima corporativa e a identificação do otário
Mas não perdi a fé no ser humano; apenas aprendi a lidar com atores do tipo e a usar conhecimento, informação e ferramentas sofisticadas em desfavor deles. Com o aprendizado, incorporei a arte do jogo, e este ficou equilibrado nas cartas que embaralhei — ou "baralhei", se preferir — ao longo dos anos.
Levei a lida inspirado na esgrima, onde a "guarda" é o ponto de partida da luta por ser essencialmente defensiva. Depois, neste esporte, vêm o "marchar" e o "romper", movimentos básicos que levam ao "afundo" e à "estocada", além de outras ações importantes, culminando com o glorioso touché. Uma reunião de negócios será sempre parecida com a esgrima, exceção feita ao blefe, que acarreta "risco de vida" e notáveis prejuízos financeiros.
Contudo, também existem no cardápio uma e outra malandragens. Dentre elas, quando entro em uma reunião de negócios, procuro sempre distinguir a presença de um otário. Quando não a identifico, não tenho dúvida quanto à sua identidade, porque o otário, no caso, sou eu; então, em respeito à plateia, retiro-me de forma prudente e comedida, sob alguma alegação plausível e sem desconcerto.
O tempo ensina. Custa caro, mas vale a pena, porque o que se perde aqui, ganha-se acolá, desde que com um acentuado poder de observação e severa disciplina.
O fetiche e o Sagrantino di Montefalco
Roberto tinha por objetivo cativar a simpatia de um importante CEO de empresa, capaz de firmar com a sua uma parceria de notável poder no tocante à abertura e conquista de oportunidades. Ocorre que o tal CEO era uma figura díspar: não fumava, não bebia, não praticava esportes, levava uma vida recatada em família e se dedicava à escuta de música clássica e a ver filmes de décadas passadas, em preto e branco. Era uma fortaleza difícil de ser escalada.
O jantar foi preparado para três comensais, estando eu presente. A conversa começou fria, com prolegômenos desimportantes e um claro distanciamento de prefácio entre anfitrião e convidado. Quanto a mim, adornando como valete a reunião, parecia encarnar um personagem desimportante e descartável.
Mas o jogo estava sendo jogado, e o conhecimento e a informação tinham feito a sua parte. A informação havia descoberto que o referido CEO tinha uma atração exacerbada por decotes arrojados em vestidos de mulheres loiras — tinha que ser loira, a criatura. Assim, contratei uma atriz paulista em início de carreira e pouco conhecida, de formas anatômicas arredondadas e de olhos muito azuis, para trajar um look bem ao gosto do convidado.

A noite avançava, e o CEO havia tomado apenas água de coco e comido dois camarões VG (verdadeiro grande, como é dito na Bahia), subtraídos do prato à provençal posto à mesa de centro — que ele violou sem lavar as mãos —, quando a loira entrou na sala, de forma respeitosa e cautelar. Pediu licença e, sem tocar no anfitrião, debruçou-se sobre o ombro do Roberto e, desviando o olhar do convidado, disse-lhe algo para nós inaudível. Roberto agradeceu; ela recolheu, pela postura de novo ereta, o decote posto à mostra em linha direta com o CEO e deixou a sala com elegância.
O convidado se iluminou, abriu um sorriso, ficou receptivo e esticou a conversa, assedada sobre o tema de interesse. O diálogo passou a fluir naturalmente, tendo a loira retornado mais duas vezes à sala, em missões parecidas, mas tão discretas quanto a sua primeira e enigmática entrada.
A noite adentrava a madrugada e o CEO, que aquiesceu em libar mais de uma garrafa de vinho Sagrantino di Montefalco — italiano, da Umbria, com 15,5 graus de teor alcoólico e potente poder de dissuasão —, levantou-se rubro para sair, quando perguntou: "E a loira, Roberto? Chame a moça aqui para eu me despedir!!!".

Missão cumprida. Roberto sacou a sua gaita, que tocava em raros momentos e na presença de muito poucos amigos, enquanto eu me encarregava de libar a última garrafa colocada à minha frente, disponível e oferecida.
FETICHE É FETICHE E INFORMAÇÃO É PODER.

Caio Brandão é um advogado, jornalista e executivo mineiro com trânsito de longa data nas esferas pública e privada de Minas Gerais e do Paraná. Conhecido nos bastidores pela habilidade técnica, erudição gastronômica e agudo senso de observação, ele cultiva a discrição absoluta como sua principal ferramenta de trabalho e de vida.
Sua escrita, sempre elegante e salpicada de fina ironia, resgata a comédia humana que rege o poder, dividindo com os leitores do dialeticos.com o olhar de quem aprendeu a ler as cartas do jogo antes mesmo de elas serem distribuídas.
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Se você gostou desta imersão nos bastidores do poder, não deixe de ler a série anterior do autor sobre a engrenagem política nacional:
Trilogia Caio Brandão (I): O cinismo e o voto nas eleições – Uma análise irônica e cirúrgica sobre o papel do eleitor e os bastidores de Minas Gerais e do Paraná.
Trilogia Caio Brandão (II): Entre iates fantasmas e o canto da sereia – As revelações sobre a comédia humana que dita o ritmo da nossa engrenagem eleitoral.






