Trilogia Caio Brandão (I): O cinismo e o voto nas eleições
- CAIO BRANDÃO

- há 6 horas
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APRESENTAÇÃO Por Hatsuo Fukuda, editor
Caio Brandão, jornalista por vocação, acompanha os acontecimentos de nossa terra com o olhar aguçado de quem conhece intimamente os atores e os cenários. A política, esse território historicamente minado, ganha em suas linhas um tom afetuoso e perspicaz, o que torna suas crônicas políticas especialmente saborosas.
O Dialéticos, blog despretensioso, não tem partido, mas tem posição. No calor das campanhas, enquanto militantes ocupam as redes no limite das normas legais, preferimos a pausa para a reflexão. Qualquer que seja a opinião do leitor — engajado, neutro, aguerrido ou desdenhoso —, vale recordar a lição do Eclesiastes: “Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece”. Esta é a nossa posição.
Iniciamos hoje uma trilogia de postagens onde Caio conecta Minas Gerais, Paraná e o Brasil profundo. Nos dois primeiros textos, o alvo é a engrenagem política. No encerramento da série, trazendo uma mensagem do passado direto para o futuro, o autor nos entrega uma carta à sua filha — um chamado à razão e à nossa humanidade que evoca o espírito de Benjamin Franklin.
Hoje, abrimos as cortinas com: “Ai de ti, eleitor, se vire e não encha o saco”.
Boa leitura.
AI DE TI, ELEITOR, SE VIRE E NÃO ENCHA O SACO
Por Caio Brandão
Eram outros tempos. Recebi uma carta do Fábio Barletta, que hoje releio com saudade. Ele já não está entre nós — ao menos fisicamente —, mas legou presença moral e intelectual que sempre apreciei. Criminalista talentoso, ubaense da gema, mais do que parente, era um amigo. Morava em Belo Horizonte, mas costumávamos nos comunicar por escrito; naquele tempo não havia internet e, por telefone, nem pensar.
O Fábio só usava o aparelho para chamar táxi, marcar consulta médica e bisbilhotar os preços em ascensão, abatidos pela inflação galopante. Com amigos, só falava mesmo por carta — e exigia resposta. Segundo ele, era a forma mais inteligente de comunicação, pois obrigava o interlocutor a pensar, elaborar e exprimir as ideias com zelo e responsabilidade. Ganhavam todos.
Sua carta me envaideceu. Ele se referiu à inauguração do Restaurante Moutai e enviou-me uma cópia do discurso que não foi feito. As palavras não ditas sempre merecem lugar ao sol; são aquelas que nos calam fundo, que vêm da alma de forma sincera e espontânea. Que bom que o Fábio não as guardou para si e tomou a iniciativa de trazê-las para o papel. Fiquei emocionado. Ao meu querido Fábio, respondi invocando o poeta Alphonsus de Guimarães e, lá pelas tantas, destaquei passagem de um de seus conhecidos poemas: — “São versos que pensei sem escrevê-los...”
Deixo de lado o Fábio, com a nossa querida Ubá — a “Cidade Carinho”, calorosa e repleta de histórias, mormente nas bandas da estrada de ferro, na saída da cidade —, para relembrar Minas Gerais, sua capital e os inquilinos que se revezam no Palácio da Liberdade. Conheci vários de perto e com eles interagi ao longo do tempo. Fiz e agenciei favores, uns com e outros sem nenhuma contrapartida, mas fez parte do jogo. Os políticos têm natureza diversa da pessoa comum; a sua escala de valores, tanto moral quanto pecuniária, é peculiar.
Ah, voltando ao Fábio: ele sabia disso e até perdoava alguns descompassos do seu dileto amigo governador Ozanam Coelho, que sucedeu a Aureliano Chaves, quando este se desincompatibilizou para candidatar-se ao cargo de vice-presidente, na chapa do general João Figueiredo. Ozanam foi colega de minha mãe, Nair, no curso primário, em Ubá. Segundo ela, ele foi o último da turma a aprender a ler — talvez porque estivesse predestinado a outras leituras ao longo da vida, com textos bem mais complexos.
De novo as eleições batem à porta. O cenário federal está confuso e pode piorar; em Minas, os candidatos não preenchem as expectativas e sequer excitam o eleitor — com exceção de um que, apesar da pouca idade, desponta fazendo valer mais o entusiasmo do que as propostas. Isto ao contrário do Paraná, onde sobra carisma, embates tóxicos e promessa de dias piores, mas com fortes emoções. Paranaense bate forte, dá a cara a tapa, enquanto mineiro futrica, manda carta anônima e finge que apoia o candidato in pectori. Povo difícil.
Itamar Franco, em exceção à sua própria mineiridade — apesar de ser natural da Bahia —, na campanha para o Senado em 1974, foi desafiado a comparecer a um debate em canal de televisão. Lá, era esperado pelo seu principal adversário, José Augusto Ferreira Filho, do partido ARENA e candidato à reeleição, que estava armado de um porrete, coisa bem ao estilo paranaense, quando sob a batuta do jornalista Marcos Formighieri, combatente inoxidável da crônica local. E o apresentador paranaense, Cadeia, que se postava frente às câmeras ostentando um enorme cacetete? O final da história do Itamar com o famigerado porrete tem várias versões, mas a borduna não chegou a ser usada, segundo consta, e Itamar ganhou a eleição. Não sei se cacetete e borduna no Sul e no Sudeste têm a mesma insinuação; como saber?
Agora, como é costume, vamos ouvir o discurso recorrente dos candidatos, falando sobre as coisas e as promessas de sempre. Retornarão com frases lapidadas para prometer sobre educação, saúde e transporte, tangenciar o saneamento básico e a eletrificação rural, culminando com a segurança pública, insinuando a eventualidade de espancamentos e estupros nas famílias que, descuidadas, votam nos segmentos mais alegres e descompromissados da campanha.
Volto ao Fábio e acho que ele tem razão. O eleitor tem muito a ver com o “discurso que não foi feito”. O eleitor cego, surdo e mudo torna-se cada vez mais responsável pelas mazelas que acometem o seu meio, a sua gente e a sua terra. Logo, merece sofrer.
Ruy Barbosa, o erudito, que acumulou derrotas nas tentativas de chegar à Presidência da República, dizia: — “Cada povo tem o governo que merece”. Ele perdeu em 1910, para o Marechal Hermes da Fonseca; em 1914, para Venceslau Brás; em 1919 — na eleição suplementar —, para Epitácio Pessoa; em 1922, para Artur Bernardes e, finalmente, retroagindo, também viu consagrado vencedor o adversário Prudente de Morais na eleição de 1894. Em compensação, no Paraná, o Ratinho ganhou duas para governador, de lavada. Talvez o nome do candidato tenha alguma influência na captação de votos, vai saber!
Gosto de andar a pé, olhar de perto e com vagar as cidades, e interagir com elas. Morei também em São Paulo e o Maluf sempre me incomodou. Ele derrubava prédios como castelos de cartas e fazia surgir avenidas largas e modernas. Dizem que enchia o seu embornal, mas nem tanto ao estilo “rouba, mas faz”, de Adhemar de Barros. Receava que ele demolisse o hotel de minha preferência — sou conservador. A minha cidade, ai de ti, Belo Horizonte, é o cemitério dos negócios e lugar onde as coisas se recusam a acontecer, exceção das costumeiras fraudes em licitações e obras superfaturadas, sempre recorrentes, não importando a cor da bandeira hasteada.
Mas os novos baianos estão chegando. Políticos tradicionais, seus filhos, esposas, apaniguados, algumas novidades e outros tantos só para compor chapa e permitir aos partidos políticos sugar o fundo partidário, que só faz crescer. Animemo-nos, com júbilo juvenil, porque mudará o cocô, mas os mosquitos permanecerão os mesmos — e o eleitor que se dane e que não encha o saco.
Amanhã, no Dialéticos:
Na segunda parte da trilogia, Caio Brandão mergulha no "coitadismo eleitoral" da televisão, resgata choros marcantes de candidatos e analisa a vaidade que alimenta a engrenagem do poder.
Não perca: Trilogia Caio Brandão (II): Entre iates fantasmas e o canto da sereia.

Caio Brandão: Jornalista por vocação e observador atento da comédia humana da política. Caio Brandão escreve para resgatar o que há de mais profundo em nossa humanidade, mesmo quando os mosquitos da política insistem em não mudar.










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