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OUTRAS CACHORRADAS


Ministro da Fazenda prepara o novo marco fiscal, sob ataques dos amigos e dos inimigos. É necessário uma paciência canina.


Imagem de Agência Brasil - EBC


Como sabem todos os leitores deste modesto blog – os sete, incluindo a esposa do Publisher -, aqui só tratamos de coisas grandes. As pequenas miudezas da vida não nos interessam. No grande fluxo da vida, só os grandes acontecimentos históricos merecem nossa atenção. Então temos acompanhado, com a atenção que merece, as cachorradas que espreitam o novo ministro da Fazenda. Avante ministro! Salve a pátria, é o que o Brasil espera de você! E lembre-se do que acontece com os ex-ministros – todos, mas principalmente os que sentaram em sua cadeira, como o anterior – quando atingir o status de ex-ministro (inevitável como o dia seguir a noite), não será mais convidado para nada, ou, quando for convidado, sentará no fundo da sala, local onde se acomodam os indesejados, sifilíticos, leprosos, portadores de mau hálito e outras doenças contagiosas abundantes em Brasília.


Já no governo anterior, no nosso ofício de acompanhar os grandes acontecimentos da pátria, comentamos as cachorradas que o presidente andou fazendo ao ministro da Saúde – e ressaltamos que não havia, da nossa parte, nenhuma intenção de ofender os nossos fiéis amigos, os cachorros. É triste, mas os cães, que nada têm a ver com isso, levaram a fama e hoje, quando um humano faz coisa ruim, invoca automaticamente o melhor amigo do homem. Que têm os cães a ver com as cachorradas (ops) humanas? Nada, absolutamente nada. Mas assim é a linguagem. Cheia de equívocos.

Então, com todo respeito aos cães bons, vamos aos grandes acontecimentos da política nacional. Hoje nos juntaremos aos políticos, que costumam salvar a pátria todos os dias. (Até agora não a salvaram, mas vai que dá certo?).

Ao que parece, o ministro da Fazenda não conta com a simpatia do famoso mercado. Uma pesquisa recente constatou que cem por cento dos operadores do mercado não confia no ministro. Cem por cento! Ponto para o ministro, porque, cá entre nós, tirando os operadores do mercado, cem por cento da população não confia neles. E, além disso, cem por cento dos companheiros do ministro, incluindo sua presidente, não confia nele cem por cento. É verdade. A presidente do partido do ministro, dia sim, outro também, dedica-se a dar palpites indesejados ao ministro. Está complicado. Ao que parece, todos estão muito ansiosos querendo que a pátria seja salva. Mas em dois meses e meio, tempo em que o ministro está na cadeira, é difícil salvar a pátria. E, sofrendo cachorradas todos os dias, inclusive de quem deveria apoiá-lo, fica impossível.

Paciência, pessoal. Vamos deixar o homem trabalhar. Ele tem um jeitão canino (basta olhar os olhos dele). Deve ser bom de serviço.


Agora que demos o nosso pitaco nos grandiosos problemas do país – aguardem que logo resolveremos também os problemas da humanidade – vamos ao que interessa, ou seja, os cachorros bons.


Meu melhor amigo - com todo respeito aos demais – é um ferocíssimo guardião da casa. O amigo do alheio que tentar solertemente, sem aviso, penetrar na minha casa, acautele-se. Thor, o poderoso, não perdoa ninguém. Seus dentes foram projetados como máquina de matar – e, incidentalmente, moer carne. Seu latido atinge níveis agudos que imediatamente chamam a atenção dos moradores do quarteirão, que, alertados, chamarão a polícia. Naturalmente, quando a polícia chegar, encontrará a casa em paz, pois o poderoso Thor terá feito o seu trabalho, rápido e limpo, como todo justiceiro que se preze.


Sim, o Poderoso Thor, conhecido pelos íntimos como Toto, é implacável e fiel como Hatchiko, o fiel companheiro do Professor Ueno, da Universidade de Tókio, e que o acompanhava diariamente até a estação de trem, e lá estaria quando retornasse, ao final do dia. Um dia o professor Ueno não voltou, vítima de um ataque do coração. Hatchiko continuou a esperá-lo, todos os dias, até a sua morte, dez anos depois. Toto também aguarda os membros da casa na porta, ansioso pela companhia de sua matilha (nós, humanos). É o nosso Hatchiko.

Este símbolo de fidelidade japonês, exaltado em prosa e verso, mereceu uma estátua na estação Shibuya, em Tókio. Nas escolas, as crianças ouvem a história e se comovem. Faz parte da alma nacional.

Talvez devêssemos imitar o exemplo dos japoneses e contar a historinha para os companheiros do ministro da Fazenda? Quem sabe eles passem a tratá-lo como um cão trata os seus companheiros humanos: com amor, fidelidade, paciência?



Hatchiko e o Professor Ueno - Imagem de Coisas do Japão.

A história de Hatchiko foi filmada no Japão e Hollywood fez uma versão, Sempre ao seu lado, com Richard Gere e Joan Allen, direção de Lasse Hallstron. Eu, preconceituosamente, sempre gosto de filme de cachorro e com cachorro. Mas Lasse Hallstron, um grande cineasta, aqui se excedeu. É maravilhoso, não deixe de assistir. E não esqueça os lenços, porque as lágrimas são inevitáveis, mesmo sabendo do final. Quanto ao ministro da Fazenda, deixa pra lá. Vamos combinar: ele sabe os amigos que tem.


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