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Paulo Rocha: Crônica de uma liderança inesquecível na PGE-PR

Caricatura em estilo desenho com aquarela de Paulo Rocha de corpo inteiro. Ele aparece sorrindo, de cabelos grisalhos penteados para trás, vestindo camisa social branca de mangas compridas dobradas, colete azul aberto, suspensórios e calça social cinza com as mãos nos bolsos. No rodapé, a assinatura do cartunista Paixão.
O carisma e o perfil descontraído de Paulo Rocha capturados pelo traço preciso do caricaturista Paixão.


Um retrato afetivo sobre a trajetória de Paulo Rocha na Procuradoria-Geral do Estado do Paraná, onde combinou habilidade política, eficácia jurídica e uma rara capacidade de diálogo.


Paulo Rocha: Crônica de uma liderança inesquecível na PGE-PR


Por Hatsuo Fukuda


Paulo Rocha era parte daquela jeunesse dorée que nasceu e cresceu na pequena aldeia curitibana, no enclave que começa na Praça Osório e tem a Pracinha do Batel como ponto central.


Muitos personagens que no futuro povoariam a crônica política e jurídica do Estado lá viviam, entretidos em folguedos juvenis. Seu amigo Roberto Requião, por exemplo – depois governador e senador - morava em uma casa com um imenso e frondoso quintal ao lado de onde hoje é a Justiça do Trabalho, no começo da Rua Vicente Machado.


O ex-governador Bento Munhoz da Rocha Neto, que morava na Praça Osório, era seu padrinho. Bento frequentava às vezes um discreto bar, fechado, no Edifício Brasilino Moura – o Balança mas não Cai – na esquina da Cândido Lopes com a Ébano Pereira. Era um bar que se perdeu na história, como as canetas-tinteiro e os distintos cavalheiros. Paulo me contou que, adolescente, admirador do padrinho, dava pulos para vê-lo pela janela do recluso estabelecimento, bebericando um drinque com amigos.


Fachada do casarão histórico ocre na esquina da Praça Osório com a Travessa Jesuíno Marcondes em Curitiba. Em destaque, a escadaria externa dupla de ferro forjado que leva à porta principal branca de estilo eclético.
O casarão na Praça Osório onde residiu o ex-governador Bento Munhoz da Rocha Neto, padrinho de Paulo Rocha.

Foi superintendente da Sunab paranaense, nos anos 60, mas seu destino seria a carreira na Procuradoria do Estado, onde passou a exercer a coordenação dos processos administrativos e inquéritos envolvendo o funcionalismo do Estado.


Era um cargo menor, na estrutura do Estado, idêntico às chefias burocráticas das demais secretarias, mas que carregava um poder efetivo e simbólico que Paulo como ninguém sabia realçar.


A Procuradoria Geral do Estado funcionava no Edifício Castelo Branco, com outras Secretarias de Estado. O prédio, projetado por Oscar Niemeyer, fora inicialmente pensado para ser sede do Instituto de Educação, antes de encontrar sua verdadeira vocação, o hoje Museu Oscar Niemeyer – MON. Como a maioria dos prédios públicos, era malcuidado. As esquadrias superiores, projetadas para iluminar o interior – um prédio sem janelas – sofriam infiltração em dias de chuva. A ausência de janelas tornava o prédio insalubre.


Mas era um permanente encanto lá trabalhar. Descer a rampa do prédio, tendo à frente o Bosque do Papa verdejando os olhos, e chegar ao enorme e deslumbrante vão livre, sempre era um momento de arrebatamento, quase êxtase.


Fotografia noturna vertical do Museu Oscar Niemeyer em Curitiba. O icônico olho de concreto se projeta sobre o espelho d'água, com a rampa sinuosa iluminada em tons claros e a torre amarela central em destaque contra o céu do crepúsculo.
O imponente vão livre e o "Olho" do MON à noite: a obra-prima de Niemeyer que outrora abrigou as Secretarias de Estado e a PGE.

Era pequena ainda a instituição. O Gabinete, frugal, consistia de uma sala, onde se abrigava o Procurador Geral, ladeado, à direita, por uma sala minúscula, onde ficava o Diretor Geral. Em outra, à esquerda, o Chefe de Gabinete, e na frente um hall de entrada, onde ficavam três secretárias, e, quando assumiu a cadeira o Dr. Ronald Schulman – depois desembargador pelo quinto constitucional – dois assessores técnicos, Procuradores de Estado.


Era essa a estrutura da PGE, naquele tempo, que somava talvez uns 50 procuradores e um número ainda menor de funcionários.


A PGE era um fenômeno para os padrões da burocracia estatal brasileira. Todo governador, ao assumir, nomeava somente um Procurador Geral, um Diretor Geral e um Chefe de Gabinete. Tudo o mais permanecia intacto. Para que mexer naquele ninho de águias jurídicas? A lista de advogados e professores ilustres era um Quem é Quem do Direito paranaense. No setor em que eu trabalhava, havia mais Mestres e Doutores do que gente.


Mas divago. Como Procurador do Estado, carreira na qual hoje estou aposentado, vivi de perto aquela engrenagem.


Paulo Rocha, que coordenava o setor de inquéritos e processos administrativos, na prática responsável pela parte disciplinar de todo o Poder Executivo, estava sempre à caça de Procuradores e funcionários para reforçar seu quadro, sempre necessitado de elementos dispostos a exercer a ingrata tarefa de investigar e processar o funcionalismo.


Recém-chegado de Londrina, eu o conheci, apresentado por um colega, em frente à sala que abrigava o Gabinete. Passei a ser alvo de seu interesse.


Para me seduzir, chamou-me para um camarão e uma cerveja em Paranaguá. Lá fomos, em uma caravana de três carros, a pretexto de ouvir testemunhas em um processo administrativo. Na verdade, era uma artimanha do Dr. Paulo na sua peculiar técnica de recrutamento de quadros para o setor. No decorrer dos anos, vi o processo se repetir várias vezes. Almoços e happy hours faziam parte de seu arsenal de sedução.


Depois do convescote parnanguara, Paulo passou a me considerar como sua propriedade privada, e periodicamente me convidava a presidir comissões investigativas, que eu acumularia com meu trabalho de rotina. Era impossível dizer não.


Ele era realmente irresistível.


Eu costumava compará-lo a um fenômeno da natureza: um terremoto, uma inundação, a peste bubônica. Inelutáveis. Ele me ouvia, às vezes sorridente, às vezes gargalhante. José Luiz, procurador e um de seus amigos mais próximos, companheiro infatigável de noites boêmias, sempre de bom humor, sempre rápido no gatilho em contar alguma piada ou frase de efeito, dizia que ele era inimputável.


Essa imprevisibilidade vinha acompanhada de um desprendimento singular. Ele soube que eu não tinha, entre as minhas canetas-tinteiro, uma Parker 51, um ícone entre as canetas. Comentou, descuidado, que deveria ter algumas em seus guardados. Ele costumava comprá-las, aos magotes, para presentear seus inúmeros afilhados ao tempo em que lecionava na Faculdade de Direito da Universidade Católica, hoje PUC-PR. Eu tenho o presente agora nas minhas mãos, e ela me faz pensar em quão generoso era seu coração.


Caneta-tinteiro Parker 51 com corpo azul e tampa dourada disposta horizontalmente sobre um caderno artesanal de capa de couro marrom rústico, em cima de uma mesa de trabalho de madeira.
A caneta-tinteiro Parker 51, presente de Paulo Rocha, repousa sobre o caderno artesanal da curitibana Paradiso Book Arts na mesa de trabalho do autor. Foto: Hatsuo Fukuda.

Sua expertise na área era enorme e cheia de sutilezas, o que vim a descobrir com a convivência. Mas sua principal qualidade era a capacidade de diálogo, que exercia radicalmente com todos, do motorista aos membros do alto escalão. Era enorme o seu prestígio. Luiz Carlos Caldas, Procurador Geral, certa vez comentou que muitas vezes, necessitado de algo, se socorria da vasta rede de relações de Paulo, que com um telefonema resolvia nós burocráticos.


Não era um mero jurista (lembrando Bartolo da Sassoferrato: i meri leggisti sono puri asini), muito menos um burocrata apegado a regulamentos. Sua técnica era resolver problemas.


Dotado de aguda sensibilidade política e administrativa, que guardava para si, movia-se produzindo impecáveis soluções para as questões que caíam à sua mesa. Disso sou testemunha, e sempre me admirava de sua capacidade de chegar a uma decisão administrativa sem máculas.


Como todo grande líder, carregava consigo um grupo de seguidores fiéis. A atividade os levava para todo o interior, e somente aqueles dispostos a passar dias ou mesmo semanas em hotéis e pousadas precárias se animavam a trabalhar com ele.


Era um band of brothers dedicados a se divertir nos intervalos das chatésimas audiências administrativas. Era uma trupe animada e trabalhadora, que refletia o espírito do líder.


O cartunista Paixão captou a descontração do personagem, avesso a formalidades, confiante em seu carisma e habilidade pessoal.


Quando se aposentou do serviço público, com mais de cinquenta anos de trabalho, uma festa foi realizada na Associação dos Procuradores do Estado. Os amigos chamaram uma dançarina de ventre para animar o evento. Paulo, entre um chope e outro, assistiu embevecido.


Por um instante pensei que iria se juntar à dançarina, mas ele se conteve.


Não haveria metáfora melhor para Paulo Moacyr Wilhelm Rocha. Como homem e advogado, ele acompanhou o ritmo pulsante da vida, e nunca perdeu a graça.


Caricatura em estilo desenho com aquarela de Hatsuo Fukuda, focado do busto para cima. Ele está sentado em uma poltrona clássica bege, vestindo paletó preto e camisa social clara, segurando um livro aberto. Ele usa óculos escuros pretos e um boné branco. Ao fundo, prateleiras de biblioteca repletas de livros em traços pretos e brancos.

Hatsuo Fukuda é Procurador do Estado do Paraná aposentado e editor do Dialéticos.com. Para evitar ser recrutado pelo Dr. Paulo Rocha para presidir mais comissões investigativas ou ser arrastado para convescotes de camarão e cerveja em Paranaguá, ele adota este disfarce estratégico.

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