ABDO AREF KUDRI, O FILHO DE IMIGRANTES ÁRABES, CONTA SUA VIDA: DE JORNALEIRO A DONO DE JORNAL
- Hatsuo Fukuda

- 13 de set. de 2025
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A primeira observação é a da modéstia: é uma sala pequena e simples, decorada com uma escrivaninha Móveis Cimo, algumas poltronas bem usadas. Um desavisado que imagina que o poder se identifica com móveis high tech e parafernália eletrônica se espantaria. Abdo Aref Kudri, o proprietário do Diário Popular e presidente do Sindicato de Jornais do Paraná, é um homem simples, como simples e amável é a recepção aos visitantes.
Menino, filho de imigrantes pobres, jornaleiro de rua e engraxate, tornou-se dono de jornal e líder de proprietários de jornais.
Dono de jornal, às vésperas do Golpe de 64, abre suas portas e oficinas a jornalistas em greve. (Veja, aqui, na Linha do Tempo do Sindicato dos Jornalistas do Paraná)
Tranquilo, afável, fala bem de seus amigos, jamais cita inimigos, diz que não guarda rancor de ninguém e com suavidade esconde seu poder: o Quarto Poder, o da imprensa.
Ao entrevistar Abdo Aref Kudri, impossível não associá-lo ao cinema. Nossa memória hollywoodiana imediatamente se acende com os possíveis registros, ao entrar em sua sala.
Será um Orson Welles, Cidadão Kane nativo, forjando do nada seu espaço na imprensa?

Ou um Frank Capra, com seu irresistível otimismo e crença no indivíduo: “Mister Abdo goes to Curitiba”? Ele é o próprio self made man, e poderia ser o símbolo do Brazilian Dream, um retrato de imigrantes libaneses pobres em sua jornada pelo sucesso em terras paranaenses.

E é, claro, pelos detratores que sussurram nas sombras mas nunca deixam claro o que dizem: Francis Ford Coppola, cujo Godfather é tão poderoso quanto amável e amigo de seus amigos.

Qualquer que seja a resposta, o filme será um épico, à maneira de John Ford, em “The Man who shot Liberty Valance”, onde definitivamente se cristalizou a matéria-prima por excelência da imprensa: “Entre a verdade e a lenda, publique-se a lenda”.

E que lenda.
Esta entrevista foi originalmente publicada no extinto Jornal da Associação dos Procuradores do Estado do Paraná – Abdo Aref Kudri era Procurador do Estado – aos Procuradores Hermínio Back e Hatsuo Fukuda. Nós a republicamos, em homenagem a um dos pioneiros da imprensa paranaense.
Caso você se interesse pela biografia de Abdo Aref Kudri, leia a Wikipedia, que traz um verbete dedicado a ele. Clique aqui.
(Hatsuo Fukuda)
VENDENDO JORNAIS NA RUA
Minha luta é a história de muitas pessoas pobres que começaram desde cedo. No meu caso, em Paranaguá, onde nasci em 1929. Quem é pobre usa todos os instrumentos; eu, para ajudar nas despesas de família - meus pais eram imigrantes libaneses, meu pai sírio e minha mãe libanesa - comecei a vender jornais na rua desde cedo. Por incrível que pareça, minha inclinação era para a imprensa desde criança. Eu era uma pessoa que pegava cem jornais para vender - o Diário da Tarde, que não existe mais - e conseguia vender quase todos diariamente e ganhava uma comissão. Uma parte do dinheiro eu pedia para minha mãe guardar; a outra dava para os meus pais para ajudar nas despesas da casa, e outra parte eu usava para de vez em quando ir na matinê.
Eu esperava o “Tabela”, um trem que saía de Curitiba diariamente às 7 da manhã e chegava às 10:00 em Paranaguá. Eu ia à Estação Ferroviária, pegava os jornais e imediatamente começava a vender, anunciando: “Diário da Tarde! Diário da Tarde! Compre de quem precisa!” (risos). Isso foi há mais de 50 anos. Então eu ajudava nas despesas de casa, as minhas - eu era uma criança, praticamente -, ganhava dinheiro para ir à matinê, para ter meus momentos de lazer.
Paranaguá era uma cidade agradável - ainda é, mas era diferente. Os tempos mudaram. Quando eu era criança não tinha sequer estiva. Hoje tem estiva, tem operários, greves, pressões, luta pelo dinheiro, tudo o que na minha época existia, mas não era fundamental; hoje já é fundamental. Era uma terra admirável, tranquila. Estudei com um professor que era candidato, político, o nome dele era Vidal Vanhoni, que vem a ser o pai do Ângelo Vanhoni. Este professor Vidal era muito meu amigo porque me dava liberdade. Para mim, que era um menino pobre, era uma grande distinção. Isso foi uma das coisas que me marcaram na época.

ENTRE O JORNALISMO E O DIREITO
Meus pais passaram dificuldades e fomos obrigados a mudar para Sorocaba, em São Paulo, onde novamente abriram uma casa de comércio que também não deu certo. Tiveram de fechar. Era uma loja de armarinhos, coisa de árabe. Tivemos de voltar à Curitiba, onde meus pais abriram uma loja na Marechal Deodoro. Eu, nesse ínterim, já tinha uns 20 anos e fui trabalhar no Diário da Tarde, jornal que era um dos principais de Curitiba, um jornal combativo. Eu comecei como repórter local, depois fui repórter político, e passei a ser redator chefe. Mais adiante assumi o comando do jornal, cheguei a ser diretor do Diário da Tarde. O jornal era da Conceição Araújo, viúva do Coronel Hildebrando de Araújo, de uma família tradicional do Paraná.
O PRIMEIRO JORNAL. ABDO VAI MORRER?
A MORTE ANUNCIADA
Quando estava no Diário da Tarde comecei a sonhar com jornal próprio. Eu também trabalhava como escrevente do cartório dos feitos da Fazenda, cujo titular se tornou meu amigo, depois desembargador, Ernani Guarita Cartaxo. Ele teve muita influência na minha vida: era professor da Faculdade de Direito, professor de Direito Romano, e sempre me dizia: “Abdo, você já trabalha aqui conosco, siga a carreira de juiz ou de escrivão”. Mas eu não quis; segui a imprensa. Eu deixei o cartório e quem me sucedeu foi o Osíris Alvim de Oliveira. Eu prossegui na minha tentativa de ter meu próprio jornal. Este jornal foi o Correio do Paraná, que eu fundei, fui o dono. Tentei seguir como proprietário quando me acontece uma fatalidade. Surgiu um problema, eu consultei um médico, na época, e ele achou que era câncer e me deu um ano de vida. Naquele tempo eu tinha... Foi há uns 40 anos atrás...
Eu tinha acabado de montar o jornal, aqui na Rua 15, na quadra de cima, e eu apressadamente vendo o jornal.
Em primeiro lugar, pensei em pagar minhas dívidas, pois eu não tinha capital para começar o jornal. Eu fiz o jornal com o aval de 2 amigos já falecidos; dinheiro mesmo eu não tinha. Inclusive eu falei: “Olha, estou pedindo dinheiro emprestado e o banco só me empresta se eu tiver 2 avalistas”. Um deles foi o deputado Aníbal Curi; o outro foi o deputado Paulo Afonso Alves de Camargo. Eles me avalizaram e o banco então descontou.

Dinheiro o Aníbal não tinha; ele não deu dinheiro, ele avalizou. Mas era um aval bom, aval de deputado. Eu falei com o Anibal quando soube da doença. “O que você acha que eu devo fazer?” Ele disse: “Venda o jornal”, e até me apontou o candidato que estava interessado em comprar. De posse desse dinheiro, que era muito na época, eu apliquei uma parte, e com outra parte fui para os Estados Unidos para verificar quanto tempo eu tinha ainda de vida. E qual não foi a minha surpresa agradável - com certeza a minha hora não tinha chegado - o médico me disse que o diagnóstico estava equivocado. Eu tinha uma ameba no intestino e que confundia o diagnóstico. Era normal esta confusão, pois não havia os recursos que existem hoje.
A GREVE DE JORNALISTAS DE 1963

Os jornalistas entraram em greve, e eu, mesmo proprietário de jornal, fui solidário, e vou explicar o porquê. De coração eu sempre me considerei jornalista. Proprietário de jornal eu fui depois, com a graça de Deus, mas não me desvinculei da posição de jornalista. Quando houve este problema, não havia piso salarial, nada. Então eu defendi por espírito de classe, por espírito um pouco justiceiro. Quem foi pobre sempre tem um pouco de contemplação para que outros não sofram o que nós sofremos. Vieram os jornalistas com o movimento, todos foram contra; inclusive eu tinha que ser contra; tinha de ter solidariedade com a classe empresarial a qual eu já pertencia. Aí o Mazza (Luiz Geraldo Mazza) e outros perguntaram se eu tinha coragem de imprimir um jornal, “A Greve”. Perguntei se iria ser contra alguém, e me disseram que iria mostrar os direitos da classe e contra os empresários que acham que o capital não deve beneficiar o trabalhador. Eu disse: “Não sou socialista, mas acho que está certo”. Eu dei a chaves, vieram para cá e fizeram o que quiseram.
ABDO E O GOLPE MILITAR DE 64
Claro que isso me custou problemas. Veio a Revolução de 64, fui denunciado - que país o nosso, hein? Não vou dizer quem foi, são fatos que já esqueci, e as pessoas que assim fizeram já perdoei. Foi em função da minha atitude liberando as oficinas para imprimir o Jornal da Greve. Que fizeram essas pessoas? Foram na Quinta Região Militar e me denunciaram como comunista. Eu nunca fui de esquerda, comunista. Eu disse para o coronel:
“Eu sou um homem sincero, meus pais sempre me educaram assim. Tem uma palavra em árabe – Maktub - está escrito: eu fui educado assim. O que está escrito ninguém altera, só Deus. Então eu vou aceitar: devo pagar isso. Ser processado sem dever, acusado sem culpa.”
Na 5.ª Região Militar, o Coronel me perguntou:
“O senhor é de esquerda, comunista, o que o senhor é?”
Eu respondi que não sei bem definir o que seja. Eu sou liberal, sou contra as injustiças sociais, acho que o capital não deve escravizar o trabalho, e devemos ter compreensão com os menos favorecidos. Se isso é ser comunista, eu sou. Se isso é ser de esquerda, eu sou. No meu parecer, não, mas se o senhor acha. O senhor é que está com a decisão.
Depois fui chamado na Polícia Federal, e tive uma conversa com o Coronel Valdemar Bianco, chefe da PF em Curitiba:
- Como é que o senhor explica a amizade com o deputado Aníbal Curi?
- Eu me orgulho da amizade com o deputado Aníbal Curi.
- Mas como é que o senhor pode se orgulhar da amizade com um político corrupto?
- Eu sou um pouco filósofo. Para mim, os amigos não têm defeitos e os inimigos não têm qualidades.

PAULO PIMENTEL: SOMOS ADVERSÁRIOS, NÃO INIMIGOS

Eu nem conhecia o Paulo Pimentel. Na época eu fiz a campanha contra o Paulo, apoiei o candidato Bento Munhoz da Rocha Neto. Perdemos as eleições. Proclamado o vitorioso, me recolhi triste e desanimado. Agora eu vou sofrer, pensei comigo, porque eu estive do outro lado. Sozinho. Só o meu jornal fez campanha para o Bento. Um dia, recebo uma ligação. Era o governador Paulo Pimentel. Eu atendi sem acreditar que era ele. Ele disse: “Então eu vou passar o telefone para um amigo que você conhece, o João Feder”. O João Feder se identificou, avalizou a voz do Paulo. “É o governador, ele quer te cumprimentar!” Disse então a Paulo Pimentel: “Muito obrigado, eu pus em dúvida a sua voz porque estivemos em campos opostos. Mas a eleição terminou. E outra coisa: eu lhe respeito pela sua conduta limpa na campanha. Pessoas assim merecem respeito. Faço questão de ser seu amigo”. Isso foi há mais de 30 anos. Depois disso sempre estivemos juntos: deputado federal, depois perdemos uma eleição para prefeito. A última foi para o Senado; perdemos, lamentavelmente, quem perdeu foi o Paraná. Nós perdemos a eleição por causa do Lula - que eu respeito muito, assim como ao senador Arns, que foi eleito. Mas continuo achando que o Paulo Pimentel seria melhor para o Paraná.
PROCURADORIA GERAL DO ESTADO
Quem tinha cargo de advogado, que era o meu caso, foi transferido para a carreira de Procurador. Eu me aposentei nesse cargo. Eu vi a nossa carreira crescer e ao mesmo tempo a nossa associação, sendo muito bem levada nas reivindicações justas da classe. A instituição hoje é fantástica. Quem, como eu, da época antiga, jamais poderia imaginar que chegássemos ao ponto em que chegamos. Inclusive com a lida da Associação. A Associação de Procuradores do Estado (APEP) deu uma movimentação diferente ao procurador. É um órgão de defesa como o que nós temos na Associação dos Jornais e o Sindicato dos jornais. De agregação e de pressão pelas causas justas, porque a gente nunca deve deixar de reivindicar. Em toda eleição eu compareço para depositar meu voto e conversar com os amigos que tenho lá.
FRANCISCO CUNHA PEREIRA FILHO E PAULO PIMENTEL

O que eu tenho com o Doutor Francisco Cunha Pereira, com o Doutor Paulo Pimentel, é a mesma amizade, na mesma proporção, uma amizade, uma confiança, que a gente adquire na vida. Como se prova que você é bom? Com a tua conduta. Olhe para trás. O que que você fez na vida? A vida da gente é assim. Eu tenho uma relação de amizade com o doutor Francisco há 50 anos; com o doutor Paulo há 35 anos. Os dois são meus amigos, são solidários comigo em tudo. Nunca tive um dissabor de ter qualquer desacordo com eles e com os demais companheiros também. No nosso sindicato estão filiados todos os jornais do Paraná. Você tem que merecer o respeito e a confiança, senão ninguém se junta com você.
A IMPRENSA PARANAENSE E O PODER PÚBLICO
Eu vou lhe explicar: o que há é um pouco de confusão. O próprio Mazza, que é meu amigo, combate, acha errado, mas o Mazza é uma pessoa que a gente tem que saber lidar e entender as posições, a irreverência; a gente tem de respeitar. Mas o que é que diz a Constituição Federal? O poder público tem obrigação de prestar contas de seus atos permanentemente, usando os órgãos de comunicação. O Estado e a União seguem à risca esta determinação constitucional, até para não sofrerem também punições dos Tribunais de Contas, E os tribunais apreciam as despesas de divulgação, querem saber onde foi divulgado, quanto custa, e o governo não pode boicotar. O empresário que se sentir boicotado entra com um mandado de segurança e ganha, pois o governo estaria ferindo a Constituição.
PAULO PIMENTEL E A BRIGA COM O GOVERNO CANET JR.
Houve a tentativa de boicote das empresas do Paulo Pimentel. Ele sofreu um boicote muito grande. Na ocasião, ele chegou a perder uma rádio. Mas eu não sou privilegiado em ter coragem. A gente nasce com uma certa inclinação. Eu nasci para tomar posição. Na época o governador era o Jayme Canet Júnior, um grande empresário, eu respeito muito, mas sei lá porque, não gostava do doutor Paulo Pimentel, e se achou no direito de boicotar as empresas dele. Eu me insurgi.
Qualquer que fosse o motivo, não dava direito ao governador ignorar a Constituição Federal. Não pode usar o dinheiro público para boicotar um jornal. Era um ato arbitrário, por essa razão recebeu a minha condenação, um protesto público. Isso cria inimizade, mas eu também não ligo. Na função que a gente ocupa, deve estar preparado para as fases boas e as fases ruins. A vida mostrou que compensa ter atitudes de coragem, independência, coerência, com o espírito democrático que todo jornalista tem que ter.










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