A PROVA DOS NOVE

A Prova dos Nove
Vitorio Sorotiuk
O Pafúncio era um preso que tinha permissão para andar pelos corredores. Gaúcho, alto, andar desengonçado balançando os braços, lá vinha ele gritando as manchetes da Tribuna:
– A bandidada está botando para quebrar.
Bastava aparecer o Galdino por perto que ele mudava a manchete:
– Atlético vence o clássico contra o Coritiba.
A Janete, militante do movimento estudantil e ligada à AP, foi presa e trazida para o Presídio do Ahu. Havia sido muito torturada. Ela era de pequena estatura, magrinha, parecia uma menininha. A notícia de sua tortura correu de boca em boca no presídio. Todos se sentiram atingidos. Há humanidade nos presos; não existe nos torturadores.
À noite, novamente veio a DOPS buscar a Janetinha. O Pafúncio foi um dos lideres da quase rebelião no Presídio do Ahu. O resultado foi que a administração do Presídio, para que não ocorresse uma rebelião, teve que negociar com a DOPS para que a Janetinha não fosse levada para novo interrogatório.
Esse acontecimento aumentou a nossa amizade com o Pafúncio. Belo dia ele entra em nossa cela e diz:
– Vocês dizem que quem manda no país são os militares. Pois eu fui picador de lenha e engraxava as botas do Tenente Candal da Fonseca quando piazote lá no Rio Grande do Sul.
Informamos o Pafúncio que o Tenente Candal da Fonseca era agora o General Candal da Fonseca, comandante do Exército em Pernambuco.
No outro dia cedo, apareceu novamente o Pafúncio na janela de nossa cela. Não havia dormido, pensando. E raciocinava:
– Mas se vocês dizem que eles mandam no país ele pode interceder pelo magrão aqui.
Ele conversava mais com o João Bonifácio Cabral Júnior. Finalmente concordou-se em ajudar o Pafúncio a escrever uma carta ao General Candal da Fonseca. A idéia era não pedir nada no processo, mas a transferência para o Rio Grande do Sul.
E começou a redação da carta. O Cabral redigindo e o Manfio ajudando na terminologia gaúcha. A carta começava lembrando que ele picava lenha e engraxava os sapatos dele quando tenente, e que a vida leva as pessoas a destinos diferentes. Que ele não queria que o General intercedesse na questão da condenação, mas que ele sentia saudades do Rio Grande do Sul, que faltava o sopro do minuano, que faltava a rodada de chimarrão e o proseado com linguajar dos pampas.
A carta foi postada no correio. Durante dois meses esperava uma resposta o Pafúncio. Andava já desacorçoado, quando um dia chamaram pelo alto-falante. "Enio Francisco Mar, comparecer na Portaria". Esse era o nome do Pafúncio.
Na volta, conta o Pafúncio:
– Eram três. O do meio tinha tanta estrela no boné que parecia noite de céu estrelado. E me perguntou tudo sobre a minha situação, falou com o Diretor do Presídio, e me deixou uns cigarritos.
Não demorou para que um dia aparecesse o Pafúncio, com a mala na mão, para se despedir, porque seguia para o Rio Grande do Sul transferido. Despediu-se de todos quase chorando.
Pelo corredor, seguia o Pafúncio o caminho para os pampas, quando um dos nossos lançou a pergunta ao Pafúncio:
- Pafúncio, quem manda no País?
O Pafúncio balançou os ombros e disse:
Ora, ora!

Vitório Sorotiuk: Advogado ambientalista, ex-líder estudantil, ex-preso político e um dos principais fundadores do PT no Paraná. Foi secretário de Estado do Meio Ambiente e é uma das vozes históricas da esquerda e dos direitos humanos no Estado. É um membro atuante da comunidade ucraniana, tendo sido presidente da Representação Ucraniana no Brasil.










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