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A PROVA DOS NOVE

há 9 horas
3 min de leitura
Fachada histórica do antigo Presídio do Ahú, em Curitiba, em fotografia com efeito envelhecido em tom sépia, exibindo paredes desgastadas e janelas com grades.

A Prova dos Nove

Vitorio Sorotiuk


O Pafúncio era um preso que tinha permissão para andar pelos corredores. Gaúcho, alto, andar desengonçado balançando os braços, lá vinha ele gritando as manchetes da Tribuna:


– A bandidada está botando para quebrar.


Bastava aparecer o Galdino por perto que ele mudava a manchete:


– Atlético vence o clássico contra o Coritiba.   


A Janete, militante do movimento estudantil e ligada à AP, foi presa e trazida para o Presídio do Ahu. Havia sido muito torturada. Ela era de pequena estatura, magrinha, parecia uma menininha. A notícia de sua tortura correu de boca em boca no presídio. Todos se sentiram atingidos. Há humanidade nos presos; não existe nos torturadores.


À noite, novamente veio a DOPS buscar a Janetinha. O Pafúncio foi um dos lideres da quase rebelião no Presídio do Ahu. O resultado foi que a administração do Presídio, para que não ocorresse uma rebelião, teve que negociar com a DOPS para que a Janetinha não fosse levada para novo interrogatório.   


Esse acontecimento aumentou a nossa amizade com o Pafúncio. Belo dia ele entra em nossa cela e diz:


– Vocês dizem que quem manda no país são os militares. Pois eu fui picador de lenha e engraxava as botas do Tenente Candal da Fonseca quando piazote lá no Rio Grande do Sul.


Informamos o Pafúncio que o Tenente Candal da Fonseca era agora o General Candal da Fonseca, comandante do Exército em Pernambuco.


No outro dia cedo, apareceu novamente o Pafúncio na janela de nossa cela. Não havia dormido, pensando. E raciocinava:


– Mas se vocês dizem que eles mandam no país ele pode interceder pelo magrão aqui.


Ele conversava mais com o João Bonifácio Cabral Júnior. Finalmente concordou-se em ajudar o Pafúncio a escrever uma carta ao General Candal da Fonseca. A idéia era não pedir nada no processo, mas a transferência para o Rio Grande do Sul.


E começou a redação da carta. O Cabral redigindo e o Manfio ajudando na terminologia gaúcha. A carta começava lembrando que ele picava lenha e engraxava os sapatos dele quando tenente, e que a vida leva as pessoas a destinos diferentes. Que ele não queria que o General intercedesse na questão da condenação, mas que ele sentia saudades do Rio Grande do Sul, que faltava o sopro do minuano, que faltava a rodada de chimarrão e o proseado com linguajar dos pampas.


A carta foi postada no correio. Durante dois meses esperava uma resposta o Pafúncio. Andava já desacorçoado, quando um dia chamaram pelo alto-falante. "Enio Francisco Mar, comparecer na Portaria". Esse era o nome do Pafúncio.


Na volta, conta o Pafúncio:


– Eram três. O do meio tinha tanta estrela no boné que parecia noite de céu estrelado. E me perguntou tudo sobre a minha situação, falou com o Diretor do Presídio, e me deixou uns cigarritos.


Não demorou para que um dia aparecesse o Pafúncio, com a mala na mão, para se despedir, porque seguia para o Rio Grande do Sul transferido. Despediu-se de todos quase chorando.


Pelo corredor, seguia o Pafúncio o caminho para os pampas, quando um dos nossos lançou a pergunta ao Pafúncio:


- Pafúncio, quem manda no País?


O Pafúncio balançou os ombros e disse:


Ora, ora!



Retrato de busto do advogado e escritor Vitório Sorotiuk, autor da crônica.

Vitório Sorotiuk: Advogado ambientalista, ex-líder estudantil, ex-preso político e um dos principais fundadores do PT no Paraná. Foi secretário de Estado do Meio Ambiente e é uma das vozes históricas da esquerda e dos direitos humanos no Estado. É um membro atuante da comunidade ucraniana, tendo sido presidente da Representação Ucraniana no Brasil.

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