CANDIDO DE FIGUEIREDO É CONTRA OS ESTRANGEIRISMOS. ELE PERDEU O BONDE DA GLOBALIZAÇÃO
- Hatsuo Fukuda

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CANDIDO DE FIGUEIREDO É CONTRA OS ESTRANGEIRISMOS. ELE PERDEU O BONDE DA GLOBALIZAÇÃO.
Hatsuo Fukuda
Uma das minhas diversões de desocupado e diletante é folhear, às vezes, o livrinho de Cândido de Figueiredo, Estrangeirismos.
Como me divirto lendo o folhetim do velho dicionarista português!
Cândido de Figueiredo é um dos maiores dicionaristas portugueses, e objeto de admiração de quantos partilhem com ele um entranhado amor à última flor do Lácio, a inculta e bela, como dizia Olavo Bilac. As invectivas do ilustre dicionarista tem como objetivo defender a língua portuguesa das intrusões alienígenas, tais como os anglicismos, os galicismos e outras subversões linguísticas que, segundo Cândido de Figueiredo, mais adequadamente poderiam se exprimir em palavras nativas.
O livrinho, em dois volumes – uso o termo carinhosamente – eu gosto de pequenos livros, fáceis de manusear e ler – é constituído de pequenos verbetes – agradáveis à leitura, e recheado de comentários mordazes (e divertidos) do autor.

Não vou citá-los, mas para que o leitor entenda minha diversão, informo que vários dos anglicismos e galicismos que foram, na época, objeto de escárnio do mestre já há muito se incorporaram ao dia a dia da língua portuguesa.
Que fiasco, mestre, que fiasco!
O nacionalismo linguístico de Cândido de Figueiredo tem inúmeros seguidores no Brasil. Afinal, trata-se de um mestre da língua portuguesa, e nada mais natural que os habitantes do Bananal, cuja elite foi estudar Direito em Coimbra – onde ele também estudou -, se beneficiassem de suas luzes. Eu mesmo – que não estudei em Coimbra, sou filho da Faculdade de Direito da UFPR - tenho nas minhas estantes um exemplar de seu dicionário, que eventualmente consulto ao batucar minhas pouco ilustradas linhas.
O pecado mortal do ilustre dicionarista, seu nacionalismo linguístico – bem próximo da xenofobia linguística – padece de uma oclusão mental, reveladora, no fundo, de insegurança. Esta insegurança é típica de povos imaturos. Países autoconfiantes, como a Inglaterra, Japão, Coréia, não sofrem deste mal, usando e abusando dos estrangeirismos.
Portugal, pelos padrões da história mundial – China, Japão -, não entrara na maturidade e já perdera sua posição de proeminência no cenário mundial, tendo perdido a jóia da coroa de seu império, o Brasil. Aliás, reveladora de sua imaturidade linguística é o fenômeno Machado de Assis, que começou a ensinar, no final do século XIX e começo do XX, a comunidade de língua portuguesa a escrever numa linguagem decente, junto com outros grandes escritores portugueses, como Eça de Queiroz e Fernando Pessoa.
Já Camões dizia:
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
Grandes impérios sempre se alimentaram do tráfico com outros povos, e a troca de bens materiais traz consigo a troca linguística. Os povos dominados necessariamente sofrerão a maior influência, podendo inclusive perder sua identidade linguística, mas a troca se dá em mão dupla. A língua portuguesa, recheada de expressões de origem árabe, africana e de nativos americanos, é um exemplo desta via dupla de influências.
Quando este uso passará a ser aceito pelos puristas? Cinquenta anos, cem, duzentos anos?
Mesmo o uso novidadeiro e leviano das novidades linguísticas faz parte deste fluxo. Elas exprimem um movimento maior e mais profundo, que é o da preponderância de um poder sobre o outro. Os jovens, os descolados, os ávidos por modismos serão os primeiros a usar e abusar das novidades linguísticas, que aos poucos se incorporarão ao quotidiano do povo. Ou não. Novas palavras virão e substituirão as velhas novidades. Eventualmente serão resgatadas, no futuro, em uma onda de nostalgia e ressignificação, como já aconteceu e voltará a acontecer.
Este ritmo acelerou e tornou-se global, a partir das grandes navegações portuguesas, que deram o pontapé inicial na transformação do mundo em uma pequena aldeia. Hoje, as revoluções científicas e tecnológicas tornaram a idéia do nacionalismo linguístico uma impossibilidade. Não há como – em regra – usar um equivalente linguístico nacional aos novos fatos emergentes. Ainda que seja possível, em certos casos, o equivalente não conseguirá captar o sentido subjacente das novas palavras, em outros termos, a alma da palavra ou da expressão.
E aqui chegamos ao cerne da questão, a alma da língua. Já dizia Heidegger que a linguagem é a morada do ser. O ser fechado a trocas externas é um ser mumificado, um ser morto. A infinita variedade do mundo do ser exige que a linguagem incorpore a infinita variedade de seus sentidos. Inclusive suas impurezas.
Para nós, curitibocas, que somos frutos de uma coleção de aldeias linguísticas mal conectadas entre si (aldeias alemãs, italianas, ucranianas, polacas, japonesas, etc, um cadinho do mundo), que criou o dialeto leite quente, é fácil de entender.
Afinal, “assimilamos todos as palavras, sobretudo os barbarismos universais. Evoé, Baco!” (Manuel Bandeira).

Talvez você queira viver em um tugúrio sombrio infenso às novidades externas. Ou talvez, por mais pobre que seja sua cabana, você prefira abrir portas e janelas por onde entrarão o sol e os ventos frescos das altas montanhas.
Respire fundo. E lembre-se do que dizia Oswald de Andrade, antropófago-mor das terras caraíbas, enquanto deglutia o Bispo Sardinha e seu purismo linguístico: a alegria é a prova dos nove (Manifesto Antropófago).
Mas Cândido de Figueiredo não viu passar a banda da Semana de Arte Moderna, de 1922. Muito menos o fuzuê tropicalista, de seus netos baianos, nos anos 60. Foi a maior festa, comme il faut.

Hatsuo Fukuda é um brasileiro-japonês, curitiboca-catanduvense, e usa alegremente o vocabulário que Deus lhe deu, como Oswald de Andrade.










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