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SOU CANDIDATO COM LULA DE PERUCA, REQUIÃO GASTANDO TOSTÃO E GRECA FUMANDO MACONHA ESTRAGADA

Caio Brandão é jornalista, mineiro, e sabe das coisas. No Paraná, por onde andou, foi presidente da Sanepar.


Uma crônica de Caio Brandão


Primeiro, foi a família contra. Medo de perder bens e valores escorrendo pelo ralo da política. Depois, a perspectiva de ausência do pai, do amigo, do provedor — prestes a se tornar um cavaleiro andante na caça de apoio e votos, ao sabor do vento e da esperança, sempre à custa de algum dispêndio e lidando com promessas temerárias.


Dos parentes surgiram o sorriso e o questionável compromisso de apoio, enquanto dos vizinhos vieram os incentivos de quem já escolheu candidato. No trabalho, o aplauso insincero, coroado pela frase escorregadia “ESTAMOS JUNTOS”, escrita assim, em caixa alta.


Mas eu quero. Vou nessa onda porque o cacique, o chefe político da região, acha que sou vocacionado para ocupar espaços e me seduziu. Tenho espírito público e quero ajudar. Do governador, ganhei incentivo, mas ele ainda não falou sobre recursos e nem de onde virá o dinheiro para a campanha. Ah! O candidato a federal vai bancar uma parte e o partido tira do fundo partidário o que faltar. Minha esposa já avisou: nossa poupança é intocável.


Pedi duas Kombis antigas emprestadas ao vereador da cidade, mas ele hesitou. Vou continuar esperando. Ele trucou e disse que troca por um carro de som, que nem precisa ser novo. Tenho boas ideias para o palanque, mas comício caiu em desuso. Na televisão, meu tempo será curto e ainda não decidi se aparo o bigode ou deixo o cabelo crescer. Gosto do topete do Itamar Franco, mas meu cabelo não dá para tanto e me falta coragem para a peruca.


Cantor sertanejo ajuda, mas a legislação endureceu o jogo. Cédula no poste não pode — suja a cidade. Vou ter de me contentar com a minha cara tremulando presa a cabos de vassoura nas esquinas. Vou para o rádio dar entrevista e falar sobre coisas positivas para a região. Farei promessas, mas o estoque de aleivosias está sendo usado por outros tantos aventureiros, que também buscam a eleição. Ou, quem sabe, faço alguma denúncia cabeluda contra alguém?


Não consigo competir com o cara da televisão, que tem programa sobre bandidagem e avisa sobre operações da polícia, e nem com o jogador de futebol em fim de carreira. Em outra época, uma candidata a vereadora enfeitou a cidade com outdoors, alardeando que tinha nove filhos, e perdeu a eleição. Filhos não ajudam; podem até atrapalhar.


Meu sindicato é pequeno e os filiados não pagam a anuidade. Vou pregar adesivos nos para-choques, com a minha cara estampada. Ponho a cara jovem ou a atual? Não gosto de nenhuma das duas. Mas sou candidato. Os prefeitos da região, que em princípio me apoiam, dizem que estão “avaliando opções”. Sinto cheiro de dinheiro no ar e não tenho para dar. Tenho, mas não quero. A regra é usar o dinheiro alheio e ainda guardar uma sobra.


Não conheço banqueiros e os empreiteiros se escondem atrás de uma tal de compliance — desculpa da moda para se esquivar. O pastor evangélico, que prega no templo da esquina, vai anunciar candidatura. Ele tem palanque e os devotos chegam aos montes, especialmente quando milagres acontecem. E milagres por lá não faltam.


Em Pirapora, um candidato a prefeito subiu no palanque, segurou duas pombas brancas pelos pés, soltou as coitadinhas e gritou ao microfone: “Foram-se as pombas da paz, começou a guerra!”. Não entendi nada. Mas a política está aí, muita gente chegando lá, ganhando espaço e notoriedade. Tem deputado buscando a sétima legislatura e ainda não entendi a fórmula mágica para conquistar a primeira. Meu primo tem medo de perder a eleição para síndico do prédio onde mora há quarenta anos.


Vou para as redes sociais criar factoide. Preciso de seguidores, mas como atraí-los? Ocupei cargo no governo, fiz contatos e viajei pelos rincões, chamando prefeitos pelo nome. Tomei muito cafezinho, levei tapinha nas costas e até a filha de um vereador se insinuou, pedindo emprego na capital.


Enquanto no cargo, tive lua de mel com a Assembleia Legislativa. Agora, pré-candidato, fomentei dezenas de inimigos naquela Casa, e deputados levantam meu cadastro e buscam a ficha criminal que nunca tive. O governador me chamou; segurou o telefone e solicitou aos prefeitos apoio à minha candidatura. Mas não sei se havia alguém do outro lado da linha — encenação comum na política. O presidente do partido está comigo, mas vez por outra fala em “consenso”, palavra perigosa, mais próxima da exclusão do que da inclusão.


Difícil esta luta, mas sou candidato. Sou, mas preciso de ajuda, senão morro na praia. Vou buscar o apoio da Vovó Maria Conga, no centro umbandista do Zé do Carmo, protegido dos orixás, mas a romaria de pedidos por lá já está grande. Até o Haddad foi visto rondando o terreiro. Ricardo Saud diz que é mentira, que pode ser o Lula disfarçado, de peruca.


Bolsonaro não está recebendo visitas; eu teria que viajar para tentar falar com o filho mais ousado, mas ele agora só fala inglês. O moço é complicado e vai dizer que preciso do aval do Trump. Que luta! Não tenho padrinho poderoso, o bispo da paróquia diz que não se mete mais em política, porque foi preterido ao cardinalato pelo Papa, mas preciso atender à lista de pedidos dos vereadores da base. Procurei o Roberto Requião no Paraná, mas ele tergiversou dizendo que só se elege com orações, e que nunca gastou um tostão na política e que só faz dobradinha com Cosme e Damião.


Vou pedir ao Edson Paulino, ex-prefeito de Rio Pardo de Minas, que fique no meu lugar. Ele sabe das coisas. Mas vou querer troco, em dinheiro, pela desistência. Alá seja louvado, estou fora desta — a não ser que o Rafael Greca me dê a receita do bom humor e da alegria que ele mantém. Acho que ele fuma maconha estragada, só pode ser isso.


Caio Brandão é jornalista, mineiro, e sabe das coisas. No Paraná, por onde andou, foi presidente da Sanepar.

Caio Brandão é jornalista, mineiro, e sabe das coisas. No Paraná, por onde andou, foi presidente da Sanepar.

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