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É PRIMEIRO DE MAIO: BANDEIRAS VERMELHAS DESFRALDADAS

Pedro Sanchez, Primeiro-ministro da Espanha, sorridente, canta a Internacional de punhos erguidos.

É PRIMEIRO DE MAIO: BANDEIRAS VERMELHAS DESFRALDADAS


Hatsuo Fukuda


Hoje é Primeiro de Maio. Lembranças da juventude me vêem à memória. Sair de casa, cedo, as ruas vazias, rumo à manifestação dos poucos gatos-pingados que lá iriam, estóicos e persistentes. A velha chama estava viva, ainda na clandestinidade, mas nós éramos o futuro. Versos de Maiakovski e Drummond e Neruda na mente.


Alguns anos depois, as ruas se encheriam com multidões e no meio delas, as bandeiras vermelhas seriam também desfraldadas, junto com bandeiras amarelas (Diretas Já) e verde-amarelas. A apoteose da nova Constituição.


Mas, para quem quisesse ver, quem faria o discurso arrebatador seria um velho liberal, Ulysses Guimarães.


O futuro havia chegado, mas as bandeiras não seriam vermelhas. Teriam esmaecido e se assemelhavam mais um tépido cor-de-rosa assistencialista e sem futuro.


Ó Brasil, sempre um passo atrasado, sempre o coração arrebatado, e a razão turvada pelas emoções, a eterna incapacidade de fazer opções. O Brasil que não seria vermelho, mas também não seria liberal – um chove-não-molha, uma eterna geringonça que nos maravilha com seus coqueirais e suas praias tão lindas. E seu atraso.


Stálin, Lênin, Trotsky, heróis revolucionários. Dependendo da facção política, um ou outro seriam considerados inimigos.
Stálin, Lênin, Trotsky, heróis revolucionários. Dependendo da facção política, um ou outro seriam considerados inimigos.

Mas hoje é Primeiro de Maio. Quero me lembrar daquela emoção da juventude, do ideal de uma sociedade sem classes e sem patrões, onde homens e mulheres seriam irmãos e irmãs, onde o progresso caminharia inexorável e haveria abundância para todos, e o egoísmo seria banido da sociedade.


L’ARMATA BRANCALEONE, de Mario Monicelli, retrata com humor as aventuras de um grupo de heróis improváveis. Éramos nós.

Quero me lembrar daquelas caminhadas abraçado com os camaradas cantando canções proibidas, canções que falavam de um sonho imemorial a congregar toda a humanidade.


No mundo de influencers e consumidores, aqueles seres patéticos, que éramos nós, estavam vivos.   


Em homenagem aos antigos camaradas.


Hatsuo Fukuda, o cronista desafinado, canta a Internacional no dia 1.º de Maio.

Hatsuo Fukuda, o cronista desafinado, canta a Internacional no dia 1.º de Maio.

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