É PRIMEIRO DE MAIO: BANDEIRAS VERMELHAS DESFRALDADAS
- Hatsuo Fukuda

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É PRIMEIRO DE MAIO: BANDEIRAS VERMELHAS DESFRALDADAS
Hatsuo Fukuda
Hoje é Primeiro de Maio. Lembranças da juventude me vêem à memória. Sair de casa, cedo, as ruas vazias, rumo à manifestação dos poucos gatos-pingados que lá iriam, estóicos e persistentes. A velha chama estava viva, ainda na clandestinidade, mas nós éramos o futuro. Versos de Maiakovski e Drummond e Neruda na mente.
Alguns anos depois, as ruas se encheriam com multidões e no meio delas, as bandeiras vermelhas seriam também desfraldadas, junto com bandeiras amarelas (Diretas Já) e verde-amarelas. A apoteose da nova Constituição.
Mas, para quem quisesse ver, quem faria o discurso arrebatador seria um velho liberal, Ulysses Guimarães.
O futuro havia chegado, mas as bandeiras não seriam vermelhas. Teriam esmaecido e se assemelhavam mais um tépido cor-de-rosa assistencialista e sem futuro.
Ó Brasil, sempre um passo atrasado, sempre o coração arrebatado, e a razão turvada pelas emoções, a eterna incapacidade de fazer opções. O Brasil que não seria vermelho, mas também não seria liberal – um chove-não-molha, uma eterna geringonça que nos maravilha com seus coqueirais e suas praias tão lindas. E seu atraso.

Mas hoje é Primeiro de Maio. Quero me lembrar daquela emoção da juventude, do ideal de uma sociedade sem classes e sem patrões, onde homens e mulheres seriam irmãos e irmãs, onde o progresso caminharia inexorável e haveria abundância para todos, e o egoísmo seria banido da sociedade.
Quero me lembrar daquelas caminhadas abraçado com os camaradas cantando canções proibidas, canções que falavam de um sonho imemorial a congregar toda a humanidade.
No mundo de influencers e consumidores, aqueles seres patéticos, que éramos nós, estavam vivos.
Em homenagem aos antigos camaradas.

Hatsuo Fukuda, o cronista desafinado, canta a Internacional no dia 1.º de Maio.








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