O MINISTRO FACHIN, DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, É UM POETA.UM POETA EM TEMPOS SOMBRIOS.
- Hatsuo Fukuda

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O MINISTRO FACHIN, DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, É UM POETA.
UM POETA EM TEMPOS SOMBRIOS.
Hatsuo Fukuda
O ministro Luiz Edson Fachin, antes de ser um sério e vetusto ministro do Supremo Tribunal Federal, foi um jovem poeta. Nisto ele seguiu os passos de outros juristas-poetas, como o grande Pontes de Miranda. O paralelo com Pontes de Miranda se justifica, também, pois Fachin foi durante muitos anos titular da cadeira de Direito Civil da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná.
O reservado Presidente do STF esconde dentro de si um poeta. Sua persona pública destoa das midiáticas aparições de outros eminentes juízes, na linha de uma tradição milenar da magistratura – a natureza desta função exige decoro público. Mas sua poesia denota a existência, por trás da fachada hierática, de um ser humano sensível, o que também se espera de um homem público. Ele se inscreve na centenária tradição enunciada por Bartolo da Sassoferrato, jurista medieval: “I meri leggisti sono puri asini”.
Em um ano eleitoral, o homem público Fachin será obrigado a tourear a quase inadministrável irritação da opinião pública com a Suprema Corte. Espera-se que ele se lembre daquilo que já escreveu:
Bem mais duro e forte, aqui dentro/há um monstro/bem mais duro e forte/que se contenta com rosa/e já cedo é guindaste de ferro e aço.
Ele precisa ser forte. Avante, ministro.

O blog retirou de suas empoeiradas estantes um exemplar da coletânea Sangra:Cio, e traz aos seus leitores uma autoapresentação e alguns de seus poemas.
Noto que a autoapresentação faz referência à filha Camila, omitindo Melina, a outra filha, que nasceu alguns anos depois. Melina é atual diretora da Faculdade de Direito, e Camila é Vice-Reitora da Universidade Federal do Paraná.
Hatsuo Fukuda
AUTOAPRESENTAÇÃO DO POETA
L. E. Fachin,
nasceu em Águas da Rondinha-RS. Gentilmente convidado pelos anúncios de cursinhos e avisos da egrégia Comissão Central do Vestibular da UFPR, reside há mais de meia dúzia de anos em Curitiba, saído de 3 Boucas (hoje Linha Progresso), em Toledo.
com a parceira Rosana, tornou-se pai de Camila, a menina mais linda do mundo (e com 4 dentes terrivelmente afiados).
A quem interessar possa, publicou em:
- A Praça é do Povo (antologia, poemas), Editora Jurana, Uberaba, MG, 1980.
- Reis Magros (antologia, poemas), Curitiba Paraná 1979.
- Sala 17 (antologia, poemas), Movimento Sala 17, Curitiba, 1979.
- Reportagens no País das Mara Vilhas, livros I e II, mimeografados, poemas, 1978.
-Abaixo-Assinado (poemas), com João Bosquo, Curitiba 1977.
- Sinto, Logo Existo (poemas), UPES, Curitiba 1976.
- Você (poemas), apoio da UPES/UMES/UTES e Prefeitura Municipal de Toledo, 1975.
Recebeu Menção Honrosa no prêmio Fernando Chinaglia, da UBES, com o livro (inédito) Poemar e Outros Cantos, em 1978.
Também publicou poemas em diversos jornais e revistas; participa da “Amostra Grátis” do PEGA GENTE do poeta Ulisses Tavares.
Como ainda é possível, dedica estes poemas ao Edílio. E também a Otília, mãe.
Próspera Província, outubro de hum mil novecentos e oitenta, pois.
DADOS FAMILIARES
nem azul nem vermelho
o fogo acende a noite
e esquenta o chá de erva
para a mulher doente
lá fora
o deserto se desorganiza
aqui
a madrugada acaba só
dispersa
nem azul nem vermelho
o fogo acende vagarosamente
uma nesga de esperança
sobre o escuro atento
e as presas no rebanho diário
AMADA
Tenho lido nos finais de noites, nos teus olhos
o cansaço de forçar
braços restos atirados soltos inúteis latentes.
Ao vestir o macacão diário da hipocrisia,
o reparo nas rugas de teu peito doído,
de teu útero parido pedra
e de teus lábios torturados sol feito chicote.
Sento na mesa como quem senta sob fio de carrasco.
E mesmo assim, sinto tuas mãos
encolhidas nos meus ombros rígidos, dizendo sonolentas
- bom trabalho.
O QUE É DO HOMEM
O BICHO NÃO COME
Te agasalho com mesma força
do ferro que te prende.
Continuadamente te escrevo
esperança sobre estradas bloqueadas.
Te chego pensar nua
dentro do povo do continente.
Enquanto te espero,
estendo a mão a outro companheiro.
Em teu fio solidário unimos nossos corpos,
agasalhados pelo fogo grande,
estas estas labaredas tão acesas em nosso peito.
ASSIM
bem mais duro e forte, aqui dentro
há um monstro
bem mais duro e forte
que se contenta com rosa
e já cedo é guindaste de ferro e aço,
que a cada metro engolindo vai
todos os operários vai
deixar à vista reluzente novo edifício fumê:
esse monstro realiza o fim dessa fome,
enganosamente,
e muito tempo depois, sei,
vai me largar contando histórias
de futebol, mulheres e guerras,
nos bancos da praça Osório,
só e vazio, assim
SEM TÍTULO
No poema passo possível a dor,
interessada marcha de amor apertado num mundo varrido
pelos manuais de aço e malhas vis.
Com o marasmo solitário do tempo,
o silêncio povo o espaço, e tinge de sangue a felicidade do homem
cortado
abatido
que engole entre paredes, cigarros e farinha.
No poema deposito o que não tenho explicado nas mãos da lógica,
e o que tenho contido
suspenso
semivivo
à procura à procura uma qualquer Clarice no fundo escuro.

Hatsuo Fukuda é um poeta nas horas vagas, e acredita que Bartolo da Sassoferrato tem razão: os meros juristas não passam de asnos.










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