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A AUSÊNCIA QUE NOS DESENHA

há 11 minutos
11 min de leitura
Homem parado em uma calçada urbana olhando para o chão onde deveria estar sua sombra, enquanto um vulto escuro ganha corpo e se afasta pela rua movimentada.

A AUSÊNCIA QUE NOS DESENHA


Ao notar a insubordinação de sua própria sombra, um homem descobre que a maturidade começa onde cessa a exigência de controle sobre os próprios mistérios.


Por Caio Brandão



Andava pela rua, em passo distraído, quando percebeu a brusca e silenciosa insubordinação: a própria sombra já não o acompanhava. Parou. Olhou para o asfalto sob o sol e só encontrou o contorno árido dos próprios sapatos.   



O que acontece?, perguntou-se, intrigado. Teria a sombra se cansado dele, decepcionada com a luz parca ou incerta dos caminhos que escolhera trilhar? Ou talvez já não suportasse escutar seus ditos repetitivos, as conversas rasas sobre o tempo, os comentários vazios lançados ao vento, quase sempre sem convicção? O que teria passado a faltar? Inteligência no viver, quem sabe? Sombra exigente esta, pensou, surpreso com o discernimento do próprio vulto. Ela já não aceitava ser a escrava piedosa e resignada de outrora — aquela figura amorfa que apenas segue, se contrai, se estica, engorda, emagrece, avança além do meio-fio e retorna obediente para se alojar no reflexo passageiro da vitrine de uma loja.   



Mas a sombra, quando a despimos de sua mera explicação física, é infinitamente mais do que a obstrução mecânica da luz. Trata-se de uma presença paradoxal: está por toda parte e, ao mesmo tempo, em lugar nenhum, pois sua existência depende do encontro entre um corpo e a claridade. Não se trata apenas da projeção individual de um homem, mas da sombra como fenômeno universal, silencioso e persistente. Ela se projeta das pessoas, dos animais no pasto, das folhagens, da rigidez dos edifícios e até da imobilidade secular das pedras. Há sombras estáticas, que repousam pesadas sobre a terra; há sombras móveis, que dançam com o vento; e há aquelas de diferentes densidades, revelando, à sua maneira, a forma do corpo que as produz. A sombra nos lembra que a matéria visível não esgota aquilo que somos: há em nós zonas que a claridade revela e outras que só se deixam pressentir.   



Existe sombra até daquele que nos ofusca. Ela nos ronda na convivência familiar, no colega proeminente do trabalho, na figura altiva que nos ultrapassa na fila do metrô como se o mundo lhe devesse passagem. Longe de ser inofensiva, a sombra pode adquirir força própria. Carrega, entretanto, uma docilidade quase infantil: pode ser domada, até mesmo pela agilidade das mãos que, entre uma vela e a parede, projetam figuras de pássaros e lobos, compondo o enredo ingênuo de um teatro doméstico. Basta mudar a posição dos dedos para que o lobo se transforme em coelho, e o que parecia ameaçador se torne motivo de riso. Talvez a sombra nos ensine, desde a infância, que nem tudo o que nos assusta corresponde àquilo que imaginamos.   



Na escala humana e social, porém, a sombra assume outras feições. Oculta o que não se quer mostrar, alimenta conflitos velados e interfere em decisões tomadas na penumbra dos julgamentos. Há interesses que preferem a sombra, assim como há verdades que só conseguem sobreviver longe dos holofotes. Não existe sombra colorida, tampouco feita a pincel, pois sua natureza é volátil, insubordinada à tinta e ao registro permanente. Ela existe no instante do encontro entre a forma e a claridade, mas seus efeitos podem permanecer muito depois que a luz se desloca. Algumas sombras passam depressa; outras se instalam na memória e nos acompanham por anos, mesmo quando já não sabemos de onde vieram.   



E agora, a sombra daquele homem sumiu. Por onde andará? Por quais calçadas flanará sem ele, livre do peso e das hesitações de quem a acompanhou durante tantos anos?   



A princípio, observo o episódio como quem assiste a uma cena alheia. Há algo de curioso naquela figura que procura no chão aquilo que sempre esteve aos seus pés. Mas, à medida que o observo, a distância entre nós começa a desaparecer. Reconheço-lhe os gestos, as inquietações, a maneira de olhar para o mundo e até mesmo certas teimosias que preferiria não admitir. Aquele homem, afinal, não é um desconhecido. Sou eu.


E agora, a minha sombra sumiu.   


Paro, olho para o chão e sinto-me subtraído, incompleto — como um corpo sem peso ou uma história sem contorno. O sol continua a cumprir sua tarefa, indiferente à minha aflição. Os outros passam acompanhados de suas sombras, sem perceber o privilégio que carregam. Talvez seja essa a nossa condição: só damos valor àquilo que nos acompanha quando, por alguma razão, deixa de estar ao nosso lado.   


Vou procurá-la. Ela me faz falta. Deixar partir essa companheira de todas as horas é aceitar viver pela metade. Sinto-me em dívida comigo mesmo, como se tivesse negligenciado a parte mais sincera e desarmada do meu próprio ser. Durante anos, aceitei sua presença como se fosse uma obrigação da natureza, sem jamais lhe dirigir uma palavra ou perguntar se estava satisfeita com o papel que lhe coubera. Nunca me ocorreu que a fidelidade também pudesse cansar, sobretudo quando não encontra reconhecimento. Talvez eu tenha confundido companhia com servidão, permanência com consentimento.   



“Talvez eu tenha confundido companhia com servidão, permanência com consentimento.”   

Se não a encontro no chão de concreto nem sob a luz direta do sol, posso procurá-la nos meus pensamentos. Afinal, pensamento tem sombra?   


A rigor, a mente é uma câmara de luzes e penumbras, um palco em que as ideias projetam vultos e os desejos desenham relevos. Pensamentos também se escondem, desviam-se, contornam obstáculos e, às vezes, se recusam a comparecer quando mais precisamos deles. Talvez a sombra seja a parte do pensamento que não conseguimos organizar em palavras, aquilo que permanece à margem da consciência, mas continua agindo sobre nossas escolhas. O pensamento talvez seja o único lugar em que ela pode experimentar uma liberdade quase absoluta: ali, sem as rédeas da gravidade ou as limitações da física, pode ter encontrado abrigo para explorar o invisível.   



Quem sabe esteja por lá, vivendo novas fronteiras, tateando memórias esquecidas e experimentando sensações que a vida cotidiana, apressada e superficial, jamais lhe permitiu conhecer. Talvez tenha se cansado de acompanhar meus passos previsíveis e resolvido percorrer os caminhos que abandonei, visitar as perguntas que deixei sem resposta, reencontrar pessoas que a pressa apagou do meu convívio. Afinal, quantas vezes seguimos adiante sem perceber que deixamos para trás não apenas lugares e pessoas, mas também versões de nós mesmos que mereciam uma despedida?   



Talvez minha sombra tenha se refugiado na arquitetura interna das minhas dúvidas, cansada do peso de ser apenas um reflexo exterior. Ou quem sabe esteja caminhando entre os escombros das lembranças que abandonei, buscando a densidade que minha rotina perdeu. Se o pensamento tem sombra, ela é o inconformismo: aquilo que não dizemos, mas que nos molda; o lado oculto das certezas que ostentamos; a pergunta que insiste em permanecer quando já nos julgamos donos da resposta. Procurá-la no território da mente é reconciliar-se com o mistério de existir, sem a pretensão de encontrar uma explicação para cada recanto da alma.   



Há também a possibilidade, menos confortável, de que minha sombra não tenha ido a lugar algum. Talvez eu é que tenha deixado de percebê-la. A luz pode mudar sem que nos demos conta, e o olhar, acostumado a procurar sempre no mesmo lugar, nem sequer considera a hipótese de que o objeto procurado tenha mudado de posição. Quantas ausências não nascem dessa distração? Quantas vezes declaramos perdido aquilo que apenas deixou de corresponder à imagem que guardávamos dele? A sombra, afinal, pode ter se afastado de meus pés sem que eu tenha aprendido a procurá-la de outra maneira.   



Vou tentar um acordo com ela. Afinal, ao longo de toda uma vida, nunca conversamos; apenas interagimos em silêncio, numa convivência tácita e mecânica em que eu caminhava e ela me servia de moldura. Nunca lhe perguntei se gostava dos lugares aonde a levava, se suportava as minhas indecisões ou se não se sentia humilhada ao ser deformada pela perspectiva das calçadas, dos degraus e das vitrines. Eu me julgava o protagonista da caminhada, sem perceber que havia outra figura envolvida, condenada a repetir meus movimentos sem jamais participar das decisões.   



Darei a ela a liberdade que reclama. Que possa, de vez em quando, passear livre, leve e solta, como melhor lhe aprouver — flutuando sob maior ou menor claridade, sem a obrigação de permanecer presa aos meus passos. Poderá até se juntar a outras sombras na penumbra das tardes, fundir-se ao vulto das árvores, desmembrar-se nas encruzilhadas da cidade e experimentar o anonimato de não pertencer a ninguém. Não lhe pedirei explicações sobre suas andanças, nem exigirei que volte no horário habitual. Se um dia regressar, quero que seja por vontade própria, e não por força de uma lei física que jamais lhe concedeu o direito de escolha.   



Talvez o acordo comece por uma concessão aparentemente insignificante: permitir que ela não me obedeça em tudo. Há em nós uma tendência antiga a confundir ordem com harmonia, controle com segurança, previsibilidade com felicidade. Queremos que as pessoas permaneçam onde as colocamos, que os sentimentos obedeçam ao calendário e que as lembranças se apresentem apenas quando autorizadas. Até de nós mesmos exigimos uma coerência que a vida raramente oferece. Minha sombra, rebelando-se contra essa disciplina, talvez esteja apenas reivindicando aquilo que nunca lhe concedi: o direito de existir sem cumprir uma função.   



Propor uma trégua à própria sombra é reconhecer que nem tudo em nós nasceu para ser subjugado. Ela exige seu próprio espaço de respirar, ainda que respirar, no seu caso, seja apenas uma maneira de dizer. Se a luz expõe, a sombra resguarda; se o corpo se cansa, ela se esgueira. Ao oferecer-lhe esse pacto de emancipação, percebo que o acordo, na verdade, é comigo mesmo. Dar alforria à minha sombra é aceitar que não preciso ter o controle absoluto de tudo o que sou ou projeto. É consentir que existam em mim recantos inacessíveis, perguntas sem resposta e instantes de pura leveza, em que a vida não precisa de justificativa nem de forma fixa — apenas do direito de existir entre o claro e o escuro.   



“Dar alforria à minha sombra é aceitar que não preciso ter o controle absoluto de tudo o que sou ou projeto.”   

Talvez a maturidade consista, em parte, em deixar de exigir que todas as nossas contradições se resolvam. Há dias em que somos generosos e outros em que mal toleramos a presença alheia; momentos em que defendemos convicções com fervor e outros em que já não sabemos explicar por que acreditamos nelas. Não somos necessariamente falsos por isso. Somos seres em movimento, atravessados por experiências que nem sempre conseguimos conciliar. A sombra talvez conheça melhor essas descontinuidades, pois nunca exigiu de mim uma unidade que eu próprio não consigo sustentar.   



Olho para a minha sombra com respeito e procuro compreender os recados que a luz e a escuridão deixam pelo caminho. Já não quero apenas recuperá-la: quero aprender a conviver com ela, mesmo quando não compreendo seus silêncios. Afinal, a presença de alguém não se mede apenas pela proximidade, mas também pela capacidade de reconhecer sua diferença. O mesmo vale para essa companheira improvável, que durante tanto tempo considerei uma extensão de mim, quando talvez devesse tê-la reconhecido como uma dimensão que me escapa.   



Aprender a ouvi-la é um exercício de maturidade e humildade. Não porque a sombra detenha todas as verdades, mas porque nos obriga a desconfiar daquilo que julgamos conhecer por inteiro. Ela não precisa vestir as máscaras que o rosto cria para o mundo, embora tampouco esteja livre de seus próprios enigmas. O que se esconde nem sempre é mais verdadeiro do que aquilo que se mostra; às vezes, é apenas mais difícil de compreender. É nesse reconhecimento que a sombra deixa de ser uma suposta guardiã de respostas e passa a ser uma companheira de perguntas.   



Quando a luz é intensa demais, ela nos alerta para o risco do ofuscamento, lembrando-nos de que a soberba da certeza pode cegar tanto quanto a noite. Quando a escuridão avança, ensina-nos que nem todo escuro representa o fim: há coisas que precisam repousar na penumbra antes de encontrar uma nova forma. É na fronteira entre esses territórios que a vida ganha profundidade, textura e relevo. A luz revela os contornos, mas é a sombra que nos faz perceber a distância entre eles; uma dá visibilidade, a outra confere volume. Talvez seja por isso que nenhuma das duas, isoladamente, consiga nos oferecer uma imagem completa do mundo.   



“A luz revela os contornos, mas é a sombra que nos faz perceber a distância entre eles; uma dá visibilidade, a outra confere volume.”   


Agora que firmamos nosso pacto — não de servidão, mas de cúmplice liberdade —, compreendo que ter uma sombra não é carregar um fardo, mas portar uma espécie de bússola. Ela é a testemunha silenciosa das minhas metamorfoses, a parte de mim que conhece os abismos sem necessariamente me impedir de chegar à beira deles, e que me ajuda a valorizar o sol sem me deixar acreditar que posso encará-lo indefinidamente. Não me oferece mapas nem promessas de segurança. Limita-se a acompanhar minhas mudanças, recordando-me de que todo caminho tem zonas de claridade e trechos em que é preciso avançar com cautela.   



Estamos bem e seguimos em frente. Ou, pelo menos, assim imagino. No limiar dessa nova convivência, porém, a sombra avistou a sua própria sombra — e isso me amedronta.   



A sombra da sombra é como o reflexo de um espelho diante de outro, um espaço infinito que não me atrevo a perscrutar. A visão me lança de súbito numa vertigem: um corredor de ecos e penumbras em que a forma se desdobra até perder qualquer contorno inteligível. Se minha sombra já representa aquilo que não alcanço compreender inteiramente em mim, o que poderá significar a sombra que nasce dela? Uma segunda ausência? Um segredo dentro do segredo? Ou apenas o limite a partir do qual a linguagem começa a falhar e a imaginação, incapaz de encontrar chão, passa a girar sobre si mesma?   



Por um instante, sinto vontade de perseguir essa nova descoberta. Quero saber se a sombra da sombra também se rebela, se possui pensamentos próprios, se guarda uma terceira sombra que, por sua vez, reclama o direito de existir. Mas a curiosidade logo se mistura ao receio. O jogo dos reflexos parece não ter fim, e cada resposta possível abre espaço para outra pergunta. O que começou como a procura de uma companheira perdida ameaça transformar-se numa investigação sem fronteiras, na qual já não sei se caminho em direção ao conhecimento ou se me afasto cada vez mais de mim mesmo.   



Reconheço, porém, que nem tudo o que se insinua diante dos olhos precisa ser desvendado. Há um limite em que a prudência da razão nos aconselha a recuar. Deixo que esse desdobramento pertença à física da luz e às leis do invisível, sem trazer para o peito o peso de decifrá-lo. Talvez não seja necessário compreender todas as sombras para aprender a respeitá-las. Há mistérios que existem justamente para nos lembrar de que somos finitos — e de que a sabedoria também consiste em reconhecer o momento de parar de olhar.   



Afinal, conhecer-se não é iluminar cada canto de si até eliminar toda penumbra. É aprender a caminhar sem exigir que tudo se torne transparente, aceitando que algumas perguntas nos acompanhem sem jamais se resolver. A sombra da sombra permanecerá onde está, fora do alcance das minhas explicações. Não a tomarei por ameaça, tampouco a transformarei em mais uma tarefa a cumprir. Basta-me saber que existe, mesmo que eu não saiba o que ela guarda.   



Passo, então, a andar não mais à frente ou acima da minha sombra, mas ao seu lado. Já não lhe exijo submissão, nem me assusto quando sua forma se altera ao sabor da luz. Sei que, seja na calçada ensolarada ou no recolhimento da penumbra, é a convivência entre o que mostramos, o que resguardamos e aquilo que jamais chegaremos a conhecer por inteiro que nos mantém humanos.   



E, se amanhã minha sombra tornar a desaparecer, talvez eu não me apresse em procurá-la. Olharei primeiro para o chão, depois para o céu e, por fim, para dentro de mim. Quem sabe ela esteja apenas tomando distância para contemplar, sem a minha interferência, o homem que aprendeu tarde a caminhar com ela.   



Ou quem sabe tenha ido descobrir, em algum lugar que não alcanço, o que significa ser sombra sem precisar pertencer a alguém.   


Desta vez, se voltar, não lhe perguntarei por onde andou. Caminharemos juntos, se assim desejar. E, se preferir seguir por outra direção, tentarei compreender que até a ausência pode ter seus motivos — e que nem tudo o que nos deixa nos abandona.   


Fotografia colorida do autor, Caio Brandão, de óculos escuros.

Caio Brandão é jornalista e cronista, colaborador assíduo do dialeticos.com.

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