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OS TRILHOS E O POETA

há 9 horas
5 min de leitura

   

Ilustração de estilo clássico em aquarela e traço de quadrinho mostrando um poeta desorientado na estação ferroviária de um vilarejo diante de outro viajante, com uma locomotiva ao lado e o pensamento da mochila furtada.


OS TRILHOS E O POETA


Por Caio Brandão


   

Por que a atração pelos trilhos da linha do trem? Não importa de onde vêm, tampouco para onde vão. Os trilhos exercem uma força magnética: chamam para perto de si os viajantes do imaginário, os aventureiros, os desapontados, os arrependidos, aqueles que querem seguir em frente e aqueles que sonham em retornar. Atraem também os felizes e os esperançosos, gente nova e até idosos, que não se contentam em contemplá-los: fotografam-nos e neles tocam, num gesto de respeito e carinho, como se o aço guardasse alguma coisa de suas próprias vidas.   


São calmos, os trilhos, mas têm energia própria. Acolhem também o perigo, capaz de impor seu peso e sua força contra a imprudência de quem se esquece de que a inércia, quando posta em movimento, não costuma perdoar.   


Os trilhos acenam para o horizonte distante, desaparecem nas curvas e reaparecem adiante. Trazem consigo uma música peculiar, feita do atrito das rodas, do estalar da brita, do compasso dos dormentes e do rumor metálico da composição. Uma orquestra sem maestro aparente, regida pelo movimento, com o leito ferroviário sustentando, em silêncio, a energia do aço.   


Talvez resida aí, no paralelismo dessas duas lâminas de ferro, um dos grandes mistérios do peito humano. Os trilhos representam o destino e o desejo: duas linhas que caminham lado a lado, condenadas a jamais se tocarem no chão, mas que, sob a ilusão esperançosa do olhar, se abraçam e se tornam uma só no horizonte.   


São o altar dos reencontros e o confessionário dos adeuses silenciosos. Quem pisa nos dormentes parece sentir a pulsação de uma memória acumulada. Cada pedaço de madeira curtida pelo tempo guarda o eco de um riso de despedida, a lembrança de uma lágrima contida à janela do vagão, a promessa sussurrada ao vento por alguém que jurou voltar. O dormente é a pausa; o aço, a continuidade.   


Há também uma lição de liberdade na rigidez da via férrea. O trem não pode abandonar o leito que lhe foi traçado e, no entanto, é justamente essa limitação que lhe permite cortar montanhas, atravessar abismos e alcançar lugares distantes. Talvez a liberdade nem sempre consista em escolher todos os caminhos, mas em encontrar coragem para percorrer aquele que se apresenta.   


Do ferro brota um lirismo grave. A ferrugem que salpica o aço nas margens esquecidas não é apenas sinal de abandono: é a caligrafia com que o tempo assina sua passagem. O metal absorve o calor do sol da tarde e enfrenta a friagem da madrugada, como se guardasse em suas entranhas a alternância inevitável dos afetos humanos.   


E há, sobretudo, o mistério da curva. Quando a linha dobra a serra ou desaparece na vegetação, o destino deixa de parecer uma reta e se transforma em pergunta. A próxima estação poderá ser uma aldeia adormecida, uma plataforma abandonada ou apenas mais um pedaço de paisagem. O viajante não sabe. Confia apenas em que os trilhos continuam, mesmo quando os olhos já não conseguem alcançá-los.   


É nesse território de incertezas, entre a poesia e o movimento, que entra Euzébio, o poeta sem compromissos, como convém a um sonhador. Embarcou sem propósito específico. Embarcou, simplesmente. Queria sentir o balanço do vagão, embalar as ideias no ritmo das rodas e deixar que a inspiração o conduzisse aonde a vida, ou alguma outra força menos confessável, resolvesse levá-lo.   


Acomodou-se junto à janela, onde o vento trazia o cheiro da fuligem misturado ao aroma de terra molhada e mato cortado. Para Euzébio, a poltrona não era mero assento, mas camarote privilegiado diante do espetáculo fugaz da existência. As paisagens desfilavam como versos inacabados: a casa de sapé na curva do morro, o cão que latia sem convicção para as rodas gigantes de aço, a lavadeira que interrompia o gesto para acenar a passageiros que jamais voltaria a ver.   


Havia no balanço da composição uma cadência hipnótica, um click-clack que funcionava como metrônomo de seus pensamentos. A cada solavanco, uma ideia se desprendia do mundo exterior e ganhava liberdade dentro de sua cabeça. Ali, suspenso entre o ponto de partida e uma estação incerta, Euzébio sentia-se invulnerável. O mundo podia esperar. A poesia, não.   


Ou quase.   


O sono começou a vencê-lo. De vez em quando, a cabeça batia no vidro da janela, trazendo-o de volta à realidade. Havia, porém, um incômodo adicional: o passageiro ao lado, abusado e espaçoso, mantinha as pernas abertas num V generoso, invadindo com os joelhos o território que cabia ao poeta. Euzébio recolhia as coxas, ajeitava o ombro contra o estofado gasto e tentava preservar a dignidade poética, cada vez mais comprimida entre a janela e a inconveniência alheia.   


O vizinho, alheio à melindrosa geografia dos assentos, ressonava tranquilamente. Parecia ter estabelecido com a gravidade do trem uma cumplicidade que lhe permitia ampliar o próprio território sem precisar despertar para defendê-lo.   


Euzébio suportou. Afinal, a tolerância também é uma virtude, embora nem sempre combine com o desconforto alheio. Fechou os olhos e voltou a viajar por dentro, onde não havia joelhos invasores, cotovelos indiscretos nem fronteiras a defender.   


Quando o trem chegou à estação de um vilarejo sem nome, destino de um poeta sem rumo, Euzébio despertou. Estava feliz. Chegara a um lugar que desejava conhecer, embora nada soubesse a respeito dele. Essa era a magia: chegar antes de saber por quê.   


Levantou-se devagar, olhou para os lados e não encontrou o passageiro abusado.   


— Que bom! — pensou. — Um chato a menos.   


Estendeu a mão para apanhar a mochila. Não a encontrou. Procurou sob a poltrona, examinou o espaço junto à janela e olhou pelo corredor. Nada. O vizinho levara consigo a bagagem e, para completar o serviço, a caixinha de baseados que, segundo Euzébio, não constituía um vício, mas um modesto instrumento de trabalho.   


A inspiração, ao que tudo indicava, viajara com o ladrão.   


O poeta não se conteve. Diante do choque de realidade, a poesia recolheu-se, a filosofia pediu licença e a linguagem abandonou qualquer pretensão de elegância:   


— PQP!   


O palavrão ecoou no teto baixo do vagão quase vazio. Euzébio permaneceu parado no corredor, com a mão suspensa no lugar em que deveria estar a bagagem. Por um instante, teve a impressão de que a própria musa, ofendida com o tratamento que lhe era dispensado, dera meia-volta e desaparecera na fumaça da locomotiva.   


Só então compreendeu que o V das pernas do vizinho talvez não fosse mero desleixo anatômico. Poderia ter sido uma cortina de fumaça, uma manobra diversionista cuidadosamente executada por um especialista em subtrair pertences alheios. O homem ocupara o espaço de Euzébio com tamanha desenvoltura que o poeta, empenhado em defender as próprias coxas, não percebera que deveria ter defendido também a mochila.   


A geografia dos assentos acabara de lhe ministrar uma aula prática de segurança pessoal.   


Desceu os degraus de ferro e pisou na plataforma de brita e madeira. Olhou para a plaqueta desbotada da estação, depois para os trilhos que desapareciam ao longe. Estava sem mochila, sem dinheiro e, pior, sem o santo remédio que, em sua opinião, refinava os pensamentos e abria as portas da percepção.   


Diante dele, o vilarejo desconhecido. Atrás, o trem que se preparava para partir. Dentro dele, uma indignação que não encontrava palavras suficientemente poéticas para se expressar.   


A poesia, afinal, acabava de mudar de gênero: saía do lirismo contemplativo e entrava diretamente na crônica policial da vida como ela é.   


Euzébio respirou fundo. Não adiantava lamentar o que já fora levado. Os trilhos continuavam ali, indiferentes ao seu infortúnio, apontando para destinos que ele desconhecia. A vida, essa velha brincalhona, acabara de lhe demonstrar que nem toda viagem interior dispensa a vigilância exterior.   


Sem dinheiro, sem bagagem e sem inspiração química, restava-lhe recorrer à convivência humana, essa fonte inesgotável de surpresas, nem sempre agradáveis.   


Foi quando avistou outro passageiro, recém-chegado àquele lugar que não constava de seus planos porque, a rigor, planos nunca tivera.   


Aproximou-se. O homem parecia tão perdido quanto ele.   


Euzébio pigarreou, recompôs como pôde a dignidade do poeta e fez a pergunta mais urgente que lhe ocorreu:


— Que horas são?   




foto colorida do articulista Caio Brandão, de óculos escuros.

Caio Brandão é advogado, empresário, viajante contumaz e jornalista. Entre uma taça e outra, é cronista.

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