A FORÇA DO SILÊNCIO CONTRA A DITADURA DO RUÍDO
- Valéria Prochmann
- 22 de jun.
- 3 min de leitura
Reflexões sobre Corpus Christi no Centro Cívico de Curitiba

Imagem de Prefeitura de Curitiba
“Para ouvir a voz de Deus tem que fazer silêncio. Jesus amava o silêncio para ouvir a voz do Pai. Mas vivemos em um mundo muito barulhento. (...) Uma pessoa que não faz silêncio não consegue rezar, nem falar com Deus. Portanto, busque dentro de você a paz interior.” (Frei Gilson)
Indicado por Frei Gilson para a Quaresma de 2025, o livro “A Força do Silêncio – Contra a Ditadura do Ruído” (Cardeal Robert Sarah em diálogo com Nicolas Diat – Editora Mensageiros do Espírito Santo) apresenta reflexões profundas sobre o valor do silêncio e da oração. Condição ideal para fortalecer a vida espiritual num mundo dominado pelo barulho e pelas distrações, encontrar momentos de silêncio tornou-se um desafio. Os autores enfatizam ser o silêncio essencial para o crescimento espiritual, para o autoconhecimento e para viver a verdadeira paz interior. Fazem um convite a encontrar Deus no silêncio do coração.
Religião não deve ser imposta. Deve ser escolha do indivíduo no exercício de seu livre arbítrio.
Infelizmente a celebração de Corpus Christi no Centro Cívico de Curitiba em 19/6/25 foi mais um espetáculo de perturbação do sossego oficializado desde as 7h30 até as 19h30.
Mesmo com todas as janelas fechadas, o barulho invadiu o interior das residências de forma totalitária e impositiva, reverberando por meio de potentes alto-falantes.
É profundamente decepcionante ver uma denominação religiosa impor o seu proselitismo fazendo barulho em alto volume, por horas a fio, além de obstruir calçadas e transtornar a mobilidade, demonstrando insensibilidade e indiferença aos apelos da comunidade. Lamentável conduta logo de quem se espera o bom exemplo de respeito às pessoas e ao patrimônio público.
A tortura sonora tira o sono de bebês e atormenta autistas, enfermos, idosos, animais domésticos e a fauna do Bosque do Papa. Pessoas em pleno trabalho – como porteiros, vigilantes e serventes – também são impactados.
É impossível compreender as palavras dos que gritam ao microfone.
Adeptos de outras religiões são compelidos a ouvirem o barulho religioso imposto.
Além da poluição sonora, a mobilidade foi transtornada, prejudicando o trânsito. Aliás, os apitos emitidos por agentes de forma prolongada agravaram a agonia. O percurso das linhas de ônibus foi desviado. Carros foram impedidos de circular, afetando o direito de sair e chegar em casa. A calçada ficou obstruída por palanque, prejudicando o direito de ir e vir de pedestres em direção às suas residências.
Considerando ser a perturbação do sossego por abuso de instrumentos sonoros e sinais acústicos uma contravenção penal, é de se perguntar por que motivo uma igreja deseja licença para praticar um malefício. Infelizmente o que se vê é um verdadeiro campeonato para ver quem grita mais no Centro Cívico de Curitiba.
Por onde anda o ecumenismo, que promovia a união e a cooperação interdenominacional?
A Teologia do Silêncio enfatiza a importância do silêncio na liturgia e na vida pessoal do cristão. Seja através da oração silenciosa, da adoração contemplativa ou da simples quietude, o silêncio permite ao fiel transcender as limitações da linguagem e entrar em contato com o mistério divino.
“O silêncio é necessário para que possamos penetrar na grandeza incomensurável do Ser Supremo. (...) É que os momentos de silêncio se convertem em instantes felizes nos quais a alma como que, inefavelmente, toca o infinito”, afirma o Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho no artigo "A mística do silêncio". Segundo ele, "o bulício é empecilho a um diálogo com Deus, pois o Senhor não está na agitação". E mais: "Aquele que se entrega a momentos de uma oração silenciosa coloca em ordem seu interior e quer, depois, irradiar paz, serenidade, tranquilidade, imperturbabilidade em seu derredor, fazendo bem tudo que deve fazer a bem dos outros. Apenas assim chega-se à sabedoria e à inteligência espiritual de que fala São Paulo aos colossenses. É assim que a vida do cristão produz, de fato, frutos abundantes."

Imagem de XV Curitiba
Saudade dos bons tempos em que Corpus Christi em Curitiba significava um belo tapete artesanal numa procissão praticamente silenciosa e respeitosa!
Que seja resgatado o valor do silêncio na prática religiosa e nos atos políticos, em contraposição à vaidade e à ditadura do ruído, seguindo-se o bom exemplo de Frei Gilson.
Agradeço à minha irmã Vanessa por me sugerir a obra de Frei Gilson.
*Jornalista, microempreendedora, presidente do Conselho Comunitário de Segurança do Centro Cívico,
colíder do CONSEG Mulher e integrante do Movimento Contra a Perturbação do Sossego
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