top of page

A LENDA DE QUE GOMES CARNEIRO FOI TRAÍDO NO CERCO DA LAPA

General Gomes Carneiro, o herói da Lapa.
General Gomes Carneiro, o herói da Lapa.

A LENDA DE QUE GOMES CARNEIRO FOI TRAÍDO NO CERCO DA LAPA

Arthur Virmond de Lacerda Neto

 

 Em 1984 entrou em circulação (em livro) interrogação concernente a se o tiro que alvejou Gomes Carneiro proveio de comandado seu. Milton Vernalha (Pica-paus x maragatos, 1984) e Valério Hoerner Júnior (Maragatos, 2011) suscitam a matéria, o segundo insistentemente; Sedinei Rocha (Lama vermelha, 2014) e Renato Mocellin (Pica-paus x maragatos, 2014) repetem a dúvida.


Formou-se lenda do baleamento à traição de Gomes Carneiro, decorrente da trajetória do tiro, que o alvejou pelas costas. Em batalhas, os inimigos tiroteiam frente a frente e são alvejados de frente, ao passo que balázio que atinge pelas costas tem visos de traição. Daí a suspeita de haver ele sido baleado por comandado seu, por pica-pau, o que implicaria atraicionamento.


Carneiro foi ferido no ataque do dia 7 de fevereiro de 1894, em que os maragatos dispararam das janelas da vivenda de Francisco de Paula Bueno Xavier, federalista que lhes facultou acesso a ela, por sua vez adjacente à trincheira que obstruía a atual rua Desembargador Westphalen, canto da então rua da Boa Vista (atual rua Barão do Rio Branco). De tais janelas eles visavam os pica-paus de flanco.


Desfechado o ataque, Carneiro acudiu ao ponto em que ele transcorria e, em meio movimentos diversos, foi atingido pelas costas.


Na Praça General Carneiro, na Lapa, a estátua do general, por João Turim, o que explica a sua imponência. Turim, um dos nossos maiores escultores, soube perenizar a natureza heróica de um dos nossos maiores heróis. A Lapa vale uma viagem.
Na Praça General Carneiro, na Lapa, a estátua do general, por João Turim, o que explica a sua imponência. Turim, um dos nossos maiores escultores, soube perenizar a natureza heróica de um dos nossos maiores heróis. A Lapa vale uma viagem.

Atente-se nas circunstâncias: os maragatos dispararam das janelas da vivenda de Francisco de Paula, sobre os circunstantes na rua da Boa Vista; tal vivenda estava pegada a uma trincheira; das janelas os tiros davam-se de flanco; na trincheira e na rua da Boa Vista havia movimento de combatentes.


No instante em que Carneiro acudia a outro guerreiro e em que efetuava movimentos vários neste fito, foi baleado; não o foi em instante em que tiroteasse de frente.


Desde 1894 falava-se em traição, dentre os resistentes do sítio; afirmam-na fontes fidedignas, a saber, o mesmo Joaquim Lacerda, Clemente Argolo Mendes, Bormann, Domingos Nascimento, Emílio Batista Gomes, e gazetas diversas: os maragatos haviam penetrado traiçoeiramente na vivenda de Francisco de Paula, a traição consistira na conviência deste em favor daqueles. Francisco de Paula comprometera-se com o chefe da trincheira (tenente Henrique dos Santos), a avisá-lo caso se desse alguma anormalidade; deu-se anormalidade: a de que os maragatos adentraram-lhe a vivenda, graças à sua cumplicidade, e dela atacaram, sem que ele de nada avisasse Henrique dos Santos.


Neste sentido específico e preciso é que se falou em traição em 1894 e nos anos subseqüentes. Jamais se atribuiu, sequer especulativamente, atraiçionamento a algum resistente, posto fossem perfeitamente conhecidas as circunstâncias em que Gomes Carneiro fora baleado.


Pintura de Theodoro de Bona abordando a morte do General Carneiro, exposta no Museu da Lapa. A pintura está exposta na mesma sala em que morreu o general Carneiro.
Pintura de Theodoro de Bona abordando a morte do General Carneiro, exposta no Museu da Lapa. A pintura está exposta na mesma sala em que morreu o general Carneiro.

Em 1969, um dos ex-combatentes da resistência, Emílio Batista Gomes, declarou por escrito, em carta publicada em Boletim do Instituto Histórico: parte do 17º batalhão de infantaria (pica-pau) da Lapa fora remetido para Tijucas, em que resistira aos maragatos; dada a rendição desta, ela foi adjudicada à coorte maragata de Aparício Saraiva e regressou à Lapa, como cercadora. Um seu integrante, de nome Amando, conhecia Carneiro (pois anteriormente servira às suas ordens na Lapa), reconheceu-o no ataque do dia 7 de fevereiro e fez-lhe tiro de pontaria de uma das janelas da vivenda de Francisco de Paula.


Amando servira como pica-pau na Lapa e em Tijucas; nesta fora incorporado à força maragata; a ela incorporado tornou à Lapa, em que baleou Carneiro. Amando fê-lo como maragato e ex-pica-pau.


No dia 10 de fevereiro, por tal feito d´armas, Amando foi promovido a alferes, na infantaria de Aparício Saraiva.


A traição foi factual, porém tornou-se lendária: factualmente, ocorreu da parte de Francisco de Paula, que facultou aos maragatos acesso à sua vivenda, o que se sabia perfeitamente em 1894. Dos anos 1980 a esta parte alguns autores, sem pesquisa, sem examinar os factos em profundidade, sem apurar as circunstâncias, especulativamente, lançaram a hipótese de que o tiro fatídico fora pica-pau; outros repetiram-na, em tom de dúvida. Um autor especulou; outro especulou ainda mais; outros reproduziram a especulação; os quatro publicaram livros para cuja produção nenhum deles investigou tal ponto. Eis como se formou a lenda de que o general Carneiro foi abatido traiçoeiramente por comandado seu, integrante pica-pau da força resistente.


Os leitores, que tomam instintivamente os autores de livros por autoridades, na suposição, aliás natural, de que estes sabem o que dizem (o que não é intrinsecamente verdadeiro) e que dizem com propriedade (o que tampouco é sempre exato), deixam-se inculcar quando menos a dúvida: Gomes Carneiro foi traído por comandado seu ? Quem disparou sobre ele era pica-pau da guarnição da Lapa ?


Não, e não taxativo, para ambas interrogações. Cesse definitivamente a lenda.


Tal ponto acha-se cabalmente explicado em meu livro Revelações do cerco da Lapa. A Revolução Federalista em Joinville.


Arthur Virmond de Lacerda Neto é um implacável perseguidor da factualidade histórica.

Arthur Virmond de Lacerda Neto é um implacável perseguidor da factualidade histórica.

Comentários


bottom of page