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ADEUS, SIR SEAN

Convém celebrar a memória daqueles que engrandeceram a arte...


Imagem de skeeze por Pixabay


O pior veneno para a vida de um ator é a visceral e definitiva identificação com um personagem. Males terrivelmente destruidores, felizmente, não costumam ser comuns, uma destas compensações da vida para equilibrar as coisas. Poucos são os artistas que sofreram as consequências devastadoras de serem vistos como o personagem. Sean Connery foi um deles. E sobreviveu.


Por muitos anos ele foi 007, agente do serviço secreto inglês, com licença para matar. E inevitavelmente matava, ao longo do filme, mas sempre maus sujeitos, pessoas motivadas com odiosos desígnios, facínoras, russos, pessoas com ambições megalômanas e outros vilões. Até hoje ele é considerado, tanto pelo fãs quanto pelos críticos, o melhor 007. Fez sete filmes protagonizando o célebre agente secreto. Depois do sétimo, que ironicamente intitulava-se 007 - Nunca Mais Outra Vez, que foi um fracasso de bilheteria, parou.


O mundo do cinema imaginou, então, que ele estava acabado. A maldição da identificação com o personagem tomaria conta da sua carreira, anulando seu futuro. Mas este escocês de Edimburgo, nascido em 25 de agosto de 1930, provaria o contrário. Ele não estava condenado a ser eternamente Bond, James Bond. Ao contrário, tinha talento para personificar os mais diversos personagens, atuando de maneira absolutamente talentosa e convincente.


Provou isso em O Nome da Rosa - adaptação para o cinema do clássico de Humberto Eco. Sua interpretação do monge William foi simplesmente maravilhosa, pois ele mergulhou realmente no mosteiro medieval perdido na Europa e no mistério que o cercava. Seguiu com muitos papéis significativos, seja como o mentor do personagem principal em Highlander, Guerreiro Imortal, seja como o pai de Indiana Jones, em A Terceira Cruzada - onde conferiu classe e humor ao roteiro, seja em pequenas participações em inúmeros outros filmes. Fez mais de 90 filmes, sempre como uma presença marcante.


O famoso mosteiro de O Nome da Rosa


O Oscar veio com Os Intocáveis em que personificou o agente Mallone, um policial de rua veterano que se agrega à perigosíssima equipe que enfrentou e prendeu Al Capone. A estatueta era como ator coadjuvante, mas todos que admiram seu trabalho acham que ele poderia ter ganho como principal, desde que lhe oferecessem papel e roteiro à altura de seu talento.


Era tão popular na Grã-Bretanha que a rainha, que depois conferiu-lhe o título de Sir, acompanhava sua aventuras como 007. Ela e milhões de outros britânicos. O homem tinha classe, é preciso reconhecer. Eu gosto de lembrar a cena em que ele escapa da biblioteca do mosteiro, em O Nome da Rosa. Coberto de cinzas, sujo de fuligem, traz abraçado alguns livros que salvou das chamas. Como se acentuasse que é preciso salvar o conhecimento, a memória dos grandes feitos da humanidade. 90 anos bem vividos. Provavelmente o hábito vai levá-lo, diante de São Pedro, a afirmar simplesmente: o nome é Connery, Sean Connery.


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