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Candidato blended, se surgir, ganha a eleição no Paraná

Caio Brandão, jornalista arguto, prepara o blend ideal para os eleitores do Paraná.
Caio Brandão, jornalista arguto, prepara o blend ideal para os eleitores do Paraná.

Candidato blended, se surgir, ganha a eleição no Paraná


Sérgio Moro, o ex-magistrado, segue faceiro, com vantagem sobre Maurício, o Requião Filho, logo atrás nas pesquisas. Rafael Greca é o tiozão que eu gostaria de ter na família. Gosto de sua presença nas redes sociais. Sandro Alex é o candidato do poder, ungido por Ratinho Júnior.


Caio Brandão


Gosto de vinhos de corte, os blended, também chamados assemblage: misturas de duas ou mais uvas, por vezes de safras diferentes. Em casa, viro enólogo e crio minhas próprias combinações, quando a primeira garrafa não atende aos meus caprichos. Se a vinícola pode, eu também posso. Abro duas, até três garrafas, e vou equilibrando a mistura na taça, até achar o vinho que me apetece. Touché! Sempre encontro o que procuro. Afinal, o que manda aqui é o meu paladar frugal e o meu bolso crematofóbico.


Na política a alquimia não é diferente. Aos candidatos sempre sobra ou falta algo: no perfil, na presença cênica, no passado, no discurso, nas propostas — quando existem — ou no timbre de voz. Como ninguém é perfeito, o eleitor acaba votando no menos ruim, sobretudo nas eleições majoritárias. Já nas proporcionais, onde o rigor evapora, o voto vai para qualquer um, até para um decote generoso ou para um candidato sem currículo, mas com folha corrida invejável. Ademais, com a banalização da corrupção na esfera pública, uma folha corrida sinistra agora se traduz em prestígio e demonstração de força e poder. Quanto mais bilhões desviados, melhor.


No Paraná sou observador contumaz. Gosto daquela gente com a qual convivi por anos na iniciativa privada e na vida pública. Ademais, são longevos. Em Minas os amigos partem de repente, malagradecidos. Os paranaenses, educados, conhecem o próprio entorno e dominam as trilhas do bem-viver. Apreciam boa gastronomia, bebidas finas e uma conversa inteligente. São empreendedores, gostam da política e admitem o enfrentamento, quando preciso. Têm até um parlatório a céu aberto: a Boca Maldita, onde as frases correm soltas, mas lançadas com elegância capaz de manter à distância as vias de fato. Estado paroquial, mas confortável.


Agora, paira no ar o cheiro de subsidência, que limpa o céu em prenúncio da tempestade que se aproxima: as eleições de outubro. Fico por aqui, de camarote, acompanhando os movimentos de uns e de outros na busca de espaço e na conquista de votos. Não diria do eleitor, exatamente; o normal ali é valorizar o voto, enquanto o votante fica para depois — sempre para depois. É o pessoal anônimo que pavimenta o caminho do poder, sem rosto e sem nome. E para por aí.


Moro, o ex-magistrado, segue faceiro, com vantagem sobre Maurício, o Requião Filho, logo atrás nas pesquisas. Um fenômeno, o agora senador Sérgio, que se acomodou no prestígio da Lava Jato e faz pose de estadista — parte do jogo. Não fala e, quando abre a boca, o timbre de voz não ajuda. Glorinha Beuttenmüller, a fonoaudióloga dos famosos da Rede Globo, poderia dar um jeito, se não tivesse nos deixado no ano passado, aos 89 anos. O dilema de Moro é atroz. Permanecer em silêncio não compromete, mas abre espaço para os concorrentes. Falar — e ele não tem o traquejo das manhas da política — pode abrir contradições perigosas, e os adversários não perdoam. Moro precisa ler a minha crônica "Promova os delegados e reabra o puteiro" para aprender o jogo das concessões e da negociação, se quiser se manter à frente e continuar a avançar.


Maurício, o Requião Filho, saiu ao pai, Roberto Requião. Moço correto, de trajetória limpa, tem passado e presente transparentes, mas exagera na dose do combate. Duro nas palavras e cirúrgico nas ações, precisa moderar o temperamento. O eleitor não gosta de muitas caneladas e costuma ser complacente com eventuais denunciados. O eleitor jovem, então, não está nem aí para contendas cabeludas e vai se divertindo nas redes sociais. Vota porque é obrigado, mas pode atender ao chamado certo, na hora certa, ouvindo o canto da sereia. Maurício pode achar esse canto e, do palanque, fazê-lo chegar aos corações e às mentes de indecisos claudicantes. Mas precisa moderar os ataques e mostrar caminhos e luzes em meio à escuridão da política.


Rafael Greca é o tiozão que eu gostaria de ter na família. Gosto de sua presença nas redes sociais: alegre, bonachão, sempre jovial e até cantante de melodias italianas, o que faz com pequeno alcance de voz, mas performance cênica adorável. Muito reconhecido em Curitiba, ele enfrenta dificuldades nos grotões, mas vem crescendo e cooptando apoios. Falta-lhe, creio eu, caixa suficiente para acelerar o passo e demonstrar sua capacidade de gestor. Inteligente, dono de cultura invejável e ótima presença, Greca sabe se articular e pode até surpreender. Mas acho improvável.


Sandro Alex é o candidato do poder, ungido por Ratinho Júnior, este ora acossado por respingos do Master e por um balde de alguns milhões aparados por empresas da família. Bem avaliado no governo, em que pesem as denúncias do jornalista Formighieri — que conheci e cujo estilo aprecio, em parte —, Ratinho soltou um afilhado, para alguns um flato, que ainda não aparenta condições de enfrentar adversários de musculatura política consolidada. Dinheiro não lhe faltará, e sequer tinta na caneta do governador. Mas Andreazza, com carretas de dinheiro disponíveis, não conseguiu ganhar a eleição para presidente da República, e sequer Eliseu Resende, em Minas, ex-ministro, com apoio federal e os cofres de banqueiros e empreiteiros.


Tony Garcia vem a reboque e com uma mala repleta de denúncias peçonhentas para tumultuar o jogo e tentar o nocaute de um ou de outro no meio do caminho. Não chegará a lugar algum, mas cumprirá o seu papel mediante as vaias de uns e os aplausos de outros tantos.


Álvaro Dias, fadado a ganhar para o Senado, não precisa de propostas. Se fingir uma hepatite e se recolher ao leito, ganha a eleição sem gastar. Francelino Pereira fez isto em Minas e deu certo. Flávio Bolsonaro quer tirá-lo do jogo e lhe ofereceu em troca um ministério, que não tem para entregar, e o futuro ao eleitor pertence. Álvaro é velho de guerra e vai dar corda para o enrolado, que se perde a cada dia em meio à história e histórias.


Requião, o Roberto, também quer se divertir. Tem eleição garantida para a Câmara dos Deputados e vai dar um show de votos, ao contrário de suas tentativas mais recentes.


Enfim, ganhará a eleição o candidato blended: silencioso como Moro, audaz como Maurício, alegre e gentil como Greca, enrustido como Sandro, resiliente como o Roberto Requião e ardiloso como Tony Garcia. Quem se der conta disso e aplicar a fórmula com delicadeza e maestria ganhará a eleição para governador do meu amado Paraná.


Caio Brandão, jornalista mineiro, conhecedor das coisas do Paraná, observa as eleições no Estado.

Caio Brandão, jornalista mineiro, conhecedor das coisas do Paraná, observa as eleições no Estado.

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