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PEDERCINI, VELHO ESTELIONATÁRIO, ENTRE A PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA E O CINEMA, FICA COM A MALA

Pedercini, estelionatário da velha guarda, quer reencarnar como produtor de cinema ou candidato a presidente da República. (Imagem: Gemini)
Pedercini, estelionatário da velha guarda, quer reencarnar como produtor de cinema ou presidente da República. (Imagem: Gemini)

PEDERCINI, VELHO ESTELIONATÁRIO, ENTRE A PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA E O CINEMA, FICA COM A MALA


Caio Brandão


Vovó Serena ainda mora em uma travessa próxima à Rua das Pedrinhas, em Salvador, onde mantém, ativa e discretamente, um centro quimbandista voltado ao culto às entidades das encruzilhadas, das matas e dos cemitérios, dentre outras devoções. Apreciadora do Reino das Almas, recebe no terreiro, além das entidades afins, empresários, políticos, cantores pop e sertanejos, clérigos e cineastas. Prostitutas também passam por lá em busca de casamento, fazendo promessas aos santos com queimação de velas, despachos em encruzilhadas e entrevistas divulgadas em sites da moda.


Serena, a Vovó, mantém a austeridade e raramente sorri. Mulata de seios avantajados escondidos sob trajes brancos e longos, característicos das mães-de-santo e ornados com colares multicores de pequenas pedras e miçangas, Vovó vem sendo incomodada por espírito inquieto, velho conhecido em plagas mineiras, que quer reencarnar, mas só se for em Brasília.


Pedercini, o espírito, era um homem de bem, ainda que afeito aos pequenos golpes necessários à sobrevivência de uma família de oito irmãos, da qual era o mais velho da trupe. O pai, boêmio e jogador de baralho, não levava a vida a sério e apenas seguia em frente, sem propósito. Era uma luta: um cheque sem fundos aqui, um empréstimo não pago ali, um lote vendido quatro vezes sob registro cartorial fraudado, um carro financiado com apenas uma prestação paga e placa adulterada — tudo muito normal para a época. Afora os negócios, Pedercini era ótimo. Bom companheiro, inteligente, ágil no raciocínio, delicado no tratar e impecável no trajar, fazia o tipo clássico do estelionatário cortês... um lorde.


Mas Pedercini, no plano astral, está inconformado por ter nascido em época errada. Vê, surpreso, a evolução dos golpes coroados de impunidade e alguns até aplaudidos. É bilhão pra cá, bilhão pra lá, com tetas generosas disponíveis e até mesadas polpudas, pagas a quem pode retribuir de uma ou de outra forma; todos mamando e multiplicando à exaustão.


Isto sem falar na distribuição de imóveis de alto valor, pagamentos duvidosos a assessores jurídicos e a intimidade com os austeros de longos e negros trajes e seus longa manus — que delícia! Intimidade é o que não falta quando se trata de uma figura nova e prestigiada: a tal 'sugar baby', termo floral para designar as acompanhantes de luxo que, aliás, agora sabem luxar muito mais do que antes. Pedercini, pasmo e maravilhado com esse novo e auspicioso mundo, sente algo inabitual, mas não impossível no Além: uma ereção.


A par da ereção frapê, típica das armadilhas do Além, Pedercini quer reencarnar. Está disposto a vender de novo, pela décima vez, a sua alma sofrida — sempre empenhada perante entidades malignas descuidadas. Mas impõe uma condição: tem que ser em Brasília, nascendo em berço de político de prestígio, um senador, por exemplo.


Quer ser, desde tenra idade, dotado de múltiplos talentos voltados à oratória, à linguagem corporal, à dialética escorreita e até à produção de filmes e documentários envolvendo criaturas notórias e sensíveis.


— Ah! — exclama Vovó Serena. — Posso ajudar, mas vai custar mais caro. Esse negócio de filme — diz a Vovó — está cercado de muitas emoções, principalmente aquelas provocadas pelo tilintar de moedas, capazes de rolar daqui para ali, livres, leves e soltas. Maravilhosas criaturas, as moedas, com poder de cura da depressão e ativação da libido... um fenômeno!


Vovó é esperta e coloca preço alto no trabalho. Diz que terá de envolver o Exu Caveira, figura temerária e de trato complicado. Mas acrescenta a opção de presidência de alguma coisa, até da República, para o Pedercini que jamais administrou algo além da padaria de um sobrinho que cumpria pena na Papuda.


Pedercini recua, medita, se acautela. Acha que não vai dar conta, mas Vovó Serena é convincente:


— Vamos nessa, meu querido! Para ser presidente, só precisa do voto e de saber ler e escrever. Se não chegar lá, pode comprar um pequeno banco quebrado, fiado, conseguir ajuda de gente importante, dar boas mesadas, distribuir imóveis, falar a língua dos caras de longas e tradicionais becas e lesar os fundos de pensão que alimentam os aposentados. Depois, se a bronca for muito grande, faça uma tal de delação premiada, ponha na cadeia a turma do gargarejo — que clama perseguição e inocência na televisão — e volte para casa para gastar o dinheiro que conseguir esconder.


Mas não se esqueça de botar para fora o roteiro do filme, com os nomes de todos os atores, principalmente os mais bem pagos, e de mostrar os comprovantes que guardou das remessas dinheiro. Por fim, um toque de tempero na história sempre cai bem: a divulgação de vídeos de confraternizações descontraídas... porque o Exu vai gostar!


Caio Brandão, sábio cronista mineiro, sabe das coisas terrenas e extraterrenas.

Caio Brandão, sábio cronista mineiro, conhece as coisas terrenas e extraterrenas.

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