Os recônditos da magia e a transformação do Brasil
- CAIO BRANDÃO

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Os recônditos da magia e a transformação do Brasil
Caio Brandão
Quem desce a Rua XV de Novembro sob o cinza implacável do céu de Curitiba, tiritando com o vento que se canaliza pelas frestas dos prédios históricos, não imagina o que se esconde sob o calçadão de petit-pavé. Pouco antes de o burburinho do centro se dissipar, espreita uma porta estreita, encimada por um letreiro de neon cego onde se lê, a custo: Açougue e Fiambreria Aliança. Ali dentro, o cheiro de sebo frio e carne passada dita o tom da decadência, sob a luz tênue que apenas os iniciados conseguem encontrar.
Celeste Maria — a Irmã Celeste — ainda habita o lugar, mesmo sem pagar aluguel. O proprietário, um senhor de idade avançada e passado nebuloso, não se arrisca a virar alvo daquela devota recatada. Os moradores antigos sabem que ela é, na verdade, Madame Celeste: a implacável cafetina do alto meretrício que outrora atendia políticos, empresários e homens de batina.
Ao contrário dos tempos de boemia na Rua Cruz Machado, Celeste ainda explora segredos que não prescreveram. Pelo contrário: eles envelheceram como carne curada naquele açougue. Os jovens bacharéis e empresários emergentes que frequentavam seus salões discretos hoje são os homens de cabelos brancos que dão as cartas em Brasília, decidem o rumo de estatais, vestem togas ou sobem ao púlpito para clamar pela moralidade pública e a preservação da família.
Celeste envelheceu como um vinho de guarda — não azedou. Bebeu nos escritos da The Hermetic Order of the Golden Dawn, a famosa sociedade secreta de Londres do século XIX, e aperfeiçoou-se na magia cerimonial e na alquimia das ambições humanas.
Ontem foi uma noite atípica no açougue. Vários discípulos compareceram vestidos de preto, ostentando capuzes com ornamentos dourados, buscando previsões de poder e a certeza de ganhos pecuniários, quer em moedas físicas ou cósmicas. Sob o disfarce, podia estar um bispo, um senador ou um candidato a governador. Requião, que comandou o Paraná por três vezes e, inconformado por não ter sido convidado, destacou um olheiro espião para o lugar, que foi devidamente espancado e posto a correr.
Apesar do rigor e da disciplina, três observadores tiveram a entrada permitida, desde que desarmados de celulares, canetas ou papel: Ronei Resende, egresso de uma grande empreiteira e com livre trânsito desde o governo Figueiredo; Itamar de Oliveira, jornalista e biógrafo de Hélio Garcia; e Paulo Raposo, empresário que hoje vive recluso em uma estância paulista, dedicando-se a escrever memórias e a degustar vinhos raros amealhados ao longo da vida.
Os presentes estavam indóceis. O tema da noite era delicado: a sucessão presidencial. Os nomes de Flávio e Jair Bolsonaro sequer eram levados a sério; o primeiro, visto como um trapalhão que deixa pegadas; o segundo, um homem politicamente apenado que já não domina sequer as gotas de adoçante que a esposa, Michelle, pinga no café amargo.
Itamar de Oliveira, em uma exceção aberta por Madame Celeste, de quem beijou as mãos de unhas pintadas de negro-rubro, levantou a questão:
— Será Lula capaz de promover a transição para um país moderno, simplificado e sob o domínio do verdadeiro espírito público?
Madame aprumou-se e se postou no centro da sala. Teve um formigamento na espinha, seguido de frenesi e contorções dos músculos da face, e começou a falar com uma voz rouca, vinda do estômago:
— O nome das grandes mudanças não é Lula. É Alckmin.
Ela fez uma pausa, os olhos fixos no vazio, e disse:
— Lula começa a perceber o outono da existência. Enxerga agora a pátina que o tempo depositou sobre sua trajetória, humanizando as marcas de suas vitórias e de seus infortúnios. O peso da idade, os sonhos realizados e tantos outros perdidos fora da política parecem conduzi-lo à postura do desprendimento — aquele estado de consciência altiva em relação às coisas, às pessoas e aos resultados. E isso pode ser o sinal cósmico da perspectiva de incursões em outras paragens e em outras dimensões.

Os homens na sala prenderam a respiração. Madame Celeste tomou um gole de um líquido ocre e de odor desagradável. Com um gesto teatral, lançou ao ar centenas de pétalas de rosas de um azul profundo, e continuou:

— Já o vice, Alckmin, do alto de sua experiência de três mandatos de governador em São Paulo e de uma vida regrada e de cuidados meticulosos — até pelo fato de ser médico —, ostenta jovialidade física e mental notável. Mais novo do que o titular e, dentre as qualidades que possui, ainda não tem que lidar com uma esposa jovem, bonita e impetuosa, que se posiciona sempre mais próxima dos problemas do que das soluções. Ele sabe que o chamado está próximo, e estará pronto a atendê-lo e a seguir como protagonista.
Dito isto, Madame ergueu as mãos e profetizou:
— O vice tem o perfil exato para a transição. Equilibrado, culto e experiente, saberá conter os ímpetos da Câmara, a inércia do Senado e a ânsia de poder do Supremo. Aos militares, dará o trato constitucional e o orçamento necessários para a modernização, sem revanchismos.
Dito isto, Madame Celeste convulsionou e caiu de costas, desacordada. Foi amparada por Ronei Resende, que, agitado, tateava o bolso atrás de um baseado para acalmar os nervos.

A reunião terminou em silêncio protocolar, nas altas horas da madrugada curitibana. Sem táxi ou Uber disponíveis nas redondezas do mercado decrépito, a secretária de Madame, uma mulher de traços exóticos e profundas olheiras, ligou para José Mendes, velho benfeitor da casa, implorando por socorro. Entre mortos e feridos, salvaram-se todos.

Caio Brandão é articulista e consultor místico informal. Não se responsabiliza por profecias não concretizadas, mas recomenda manter os olhos abertos e os celulares desligados.










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