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CHORANDO NA RUA


Em pleno inverno, o choro desabado alegra os passantes.


Foto de Hatsuo Fukuda

Depois de alguns dias de frio e chuva, o sábado abriu ensolarado e com temperatura amena. A turma saiu da toca, e o Largo da Ordem estava agitado. No Bar Janaino Vegan, na Rua São Francisco, um grupo de chorões, o @chorodesabado, reuniu uma dúzia de músicos para uma tarde de improviso. O ambiente tranquilo de amantes do choro – os amantes de choro são sempre amigáveis ou é impressão minha? – ornava com a tarde de sol. Acima, em frente ao Cavalo Babão, uma dupla animava um dos bares. Abaixo, jovens sedentos abriam as torneiras de chope; mas os chorões, compenetrados, não estavam nem aí. Pena que não havia entre os músicos um cantor ou cantora. Quando cheguei, eles se preparavam para iniciar a Flor Amorosa:



Oh, por que juras mil torturas/Mil agruras, por que juras?/ Meu coração delito algum por te beijar não vê, não vê/Só por um beijo, um gracejo, tanto pejo/Mas por quê?



A letra de Catulo da Paixão Cearense, sobre a música de Antonio Callado, está recheada de preciosidades: o odor de resedá paira no ar, e o amante apaixonado anseia por oscular os pés da amada. Tanto pejo faz sorrir nossa mentalidade exausta de tanta modernidade.


Advirto uma garota de sua bolsa escancarada, expondo-a à sanha dos amigos do alheio. Ela me agradece, sorridente. Aos poucos junta-se um grupo de amantes da música, enternecidos pelo show inesperado em plena rua. Curitiba, onde às vezes o céu azul é mais azul. Encostado na parede do bar, por um momento me deixo envolver pela ternura de um passado cheio de delicadezas que a música evoca. Ver o sol, do outro lado da rua, aquece o coração.


Fotos de Hatsuo Fukuda



O grupo continua a tocar. Poucas palavras, sussurradas, são suficientes para dar início à magia. Naquele Tempo, de Pixinguinha, com letra de Benedito Lacerda:



Lembranças tão distantes vêm então me visitar/Meu pensamento voa a outro tempo, outro lugar/Onde criança um dia fui/como esse meu guri/correndo atrás da pipa/revivendo o que eu vivi.



Depois desta, continuei meu caminho, por um momento, feliz.



Na Apple Music encontro uma versão de Flor Amorosa da cantora Cristina Clara, e o seu delicioso sotaque português faz um contraponto perfeito à linguagem castiça de Catulo. Mas é claro, ambas as canções foram gravadas por dezenas de cantores, e você as encontra nas plataformas de streaming ou no Youtube. Mas o melhor é sair da toca e ouvir ao vivo o grupo de chorões @chorodesabado, na Rua São Francisco. Se você não os encontrar, no sábado à tarde, tome um chope e aproveite o dia. Ser feliz não custa nada. Como dizia o poeta, é melhor ser alegre do que ser triste.

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