Faça Você Mesmo o Seu Clássico
- LUIS CARLOS EIRAS

- há 18 horas
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Faça Você Mesmo o Seu Clássico
Um jogo combinatório com Rubem Fonseca, Machado de Assis e Guimarães Rosa
Por Luís Carlos Silva Eiras
Nota do editor: A literatura é também um jogo de armar. Abaixo, você encontrará o esqueleto narrativo de três mestres da nossa prosa. Leia o texto-base e, a cada letra sobrescrita, escolha uma das alternativas correspondentes. Ao final da leitura, você terá criado uma narrativa única — com a voz e o ritmo inconfundíveis de cada autor. Luis Carlos Eiras, um grande viajante, convida. Viaje também.

1. Rubem Fonseca
Texto-base:
Ele acordaᵃ encontra uma mulher mortaᵇ no apartamentoᶜ não chama a políciaᵈ pega o dinheiroᵉ telefona para um homem que não conheceᶠ o homem manda que vá a um barᵍ o bar está vazioʰ exceto por uma prostitutaⁱ e um policial aposentadoʲ o policial sabe quem matou a mulherᵏ mas não diz nadaˡ bebe uísqueᵐ fala de cãesⁿ de armasᵒ de mulheresᵖ o protagonista mata o policialq a prostituta desapareceʳ ele procura o assassinoˢ encontra um homem eleganteᵗ que lhe oferece mais dinheiroᵘ para esquecer tudoᵛ ele aceitaᵂ depois muda de ideiaˣ mata o homemʸ pega o dinheiro e vai emboraᶻ.
Alternativas:
(a) Acorda às cinco da manhã. Não sabe onde está. Sabe apenas que tem sangue na camisa.
(b) Uma mulher. Duas mulheres. Uma mulher que ele conheceu ontem. Uma mulher que ele nunca viu. Uma mulher que diz seu nome antes de morrer.
(c) Apartamento de cobertura. Hotel barato. Quarto de pensão. Banheiro de azulejos verdes. Elevador parado entre dois andares.
(d) Chama a polícia. Não chama. Telefona para um amigo. Telefona para ninguém. Lava as mãos.
(e) Dólares. Reais. Diamantes. Um relógio. Uma fotografia. Uma chave.
(f) Um homem que fala baixo. Uma mulher que fala demais. Um advogado. Um traficante. Um delegado que ainda trabalha. Um delegado que já morreu.
(g) Bar de hotel. Boate. Restaurante japonês. Boteco. Clube de tiro. Padaria aberta durante a madrugada.
(h) Está cheio. Está vazio. Há apenas dois homens jogando sinuca. Há uma televisão ligada sem som. Há alguém lendo o jornal.
(i) Uma prostituta. Uma garçonete. Uma estudante. Uma mulher que diz ser jornalista. Uma mulher que diz não ser nada. Um travesti.
(j) Policial aposentado. Ex-policial. Detetive particular. Delegado expulso da corporação. Homem que nunca foi policial, mas conhece todos os policiais.
(k) Sabe o nome. Sabe o endereço. Sabe o motivo. Não sabe quem pagou. Sabe quem pagou, mas não sabe por quê.
(l) Não fala. Fala depois do terceiro uísque. Fala quando vê a fotografia. Fala porque está com medo.
(m) Uísque. Cachaça. Conhaque. Cerveja quente. Café sem açúcar.
(n) Cães de guarda. Cães abandonados. Cães que mordem crianças. Um cachorro que reconhece o assassino.
(o) Revólver. Pistola automática. Faca. Navalha. Uma arma que parece um brinquedo.
(p) Mulheres que ele amou. Mulheres que ele pagou. Mulheres que o enganaram. Mulheres que ele matou. Uma mulher que ainda vai matá-lo.
(q) Atira uma vez. Atira duas vezes. Erra. Não erra. O policial pede para não morrer. Ele responde que também não queria morrer.
(r) Sai pela porta dos fundos. Pega um táxi. Entra num carro roubado. Vai para a rodoviária. Volta para o apartamento.
(s) Procura o assassino. Procura a mulher. Procura o homem que mandou matá-la. Procura a si mesmo, o que é a maneira mais segura de não encontrar ninguém.
(t) Um homem elegante. Um empresário. Um político. Um banqueiro. Um sujeito que usa sapatos caros e nunca suja as mãos.
(u) Dinheiro suficiente para desaparecer. Dinheiro suficiente para matar. Dinheiro suficiente para comprar a polícia. Dinheiro suficiente para comprar o silêncio dele.
(v) Esquece a mulher. Esquece o policial. Esquece a fotografia. Esquece o nome. Esquece tudo.
(w) Não esquece.
(x) Mata o homem elegante. Mata o motorista. Mata o segurança. Não mata a mulher que está atrás da porta.
(y) Foge com o dinheiro. Deixa o dinheiro. Queima o dinheiro. Descobre que o dinheiro estava marcado.
(z) Vai embora. Entra no metrô. Caminha pela avenida. Come um sanduíche. O dia amanhece. Ninguém percebe que ele matou quatro pessoas durante a noite. Ele percebe que ainda está com a camisa ensanguentada.

2. Machado de Assis
Texto-base:
Ele amaᵃ e não é amadoᵇ casa-se com outraᶜ por interesseᵈ recebe uma cartaᵉ que não devia receberᶠ lê a carta duas vezesᵍ nega tê-la lidoʰ conta tudo ao amigoⁱ menos a parte principalʲ o amigo desconfiaᵏ a esposa percebeˡ o marido menteᵐ com tanta elegânciaⁿ que quase convence a si mesmoᵒ aparece um agregadoᵖ que sabe de tudoᑫ e não conta nadaʳ por princípioˢ ou por dinheiroᵗ morre um parenteᵘ deixa uma herançaᵛ muda a situaçãoᵂ ou parece mudá-laˣ o protagonista descobre que a mulher também mentiaʸ perdoa-aᶻ porque afinal não tinha certeza de coisa alguma.
Alternativas:
(a) Um bacharel. Um funcionário público. Um viúvo. Um homem que ama a própria imagem refletida no espelho. Um homem que acredita amar uma mulher porque ela não o ama.
(b) Ela ama outro. Ela não ama ninguém. Ela ama o dinheiro. Ela ama a ideia de ser amada. Ela talvez ame o protagonista, mas Machado não confirma.
(c) Casa-se com uma viúva. Casa-se com uma moça pobre. Casa-se com uma mulher rica. Casa-se porque a família aconselha. Casa-se porque o casamento parece uma boa ideia às dez da manhã e uma péssima ideia às dez da noite.
(d) Por dinheiro. Por vaidade. Por vingança. Por conveniência. Por aquilo que os personagens chamam de amor quando não querem confessar o verdadeiro motivo.
(e) Uma carta perfumada. Uma carta anônima. Uma carta escrita vinte anos antes. Uma carta que começa com “Meu caro” e termina destruindo uma família.
(f) A carta era destinada à esposa. Ao marido. Ao amante. Ao irmão. Ao leitor, que não deveria estar lendo.
(g) Uma vez para compreender. Outra para sofrer. Uma terceira para procurar nas palavras aquilo que gostaria de encontrar.
(h) Diz que não abriu. Diz que abriu por engano. Diz que a carta já estava aberta. Diz que não acredita em cartas, como certos homens dizem não acreditar em fantasmas depois de encontrarem um no quarto.
(i) Um amigo filósofo. Um amigo cínico. Um amigo pobre. Um amigo que dá conselhos porque não tem dinheiro para dar outra coisa.
(j) Não conta o nome. Não conta a data. Não conta que a carta mencionava seu próprio nome.
(k) Desconfia de tudo. Desconfia apenas daquilo que lhe convém. Não desconfia da esposa, porque a confiança também pode ser uma forma de preguiça.
(l) Percebe imediatamente. Percebe depois de três anos. Percebe quando já não importa. Percebe, mas decide fingir que não percebeu.
(m) Mente por necessidade. Mente por hábito. Mente porque a verdade lhe parece grosseira. Mente tão bem que a mentira passa a ser sua única memória.
(n) Elegância de advogado. Elegância de diplomata. Elegância de marido culpado. Elegância suficiente para que o narrador possa dizer que não aprova, embora compreenda perfeitamente.
(o) Convence a esposa. Convence o amigo. Convence o leitor. Não convence a si mesmo, mas isso talvez seja apenas outra mentira.
(p) Um agregado. Um primo. Um sobrinho. Um criado antigo. Um sujeito sem profissão definida, que sabe mais sobre a família do que todos os membros da família juntos.
(q) Sabe porque ouviu. Sabe porque viu. Sabe porque inventou. Sabe porque alguém lhe pagou para saber.
(r) Não conta nada. Conta tudo. Conta uma parte a cada pessoa. Conta ao leitor somente aquilo que o leitor já deveria ter compreendido.
(s) Por princípio. Por prudência. Por preguiça. Por dinheiro. Por não ter princípio algum, o que também constitui uma espécie de princípio.
(t) Cem mil-réis. Uma apólice. Uma fazenda. Um sobrado. Uma herança que chega tarde demais para ser útil e cedo demais para deixar todos em paz.
(u) Morre um tio. Morre uma tia. Morre o sogro. Morre o amante. Morre alguém que, até então, parecia destinado a morrer apenas no último capítulo.
(v) Deixa dinheiro. Deixa dívidas. Deixa uma casa. Deixa uma carta. Deixa um segredo que ninguém desejava conhecer.
(w) Muda tudo. Não muda nada. Muda apenas o preço das coisas. Muda a disposição dos personagens, que é uma maneira mais precisa de dizer que muda a história.
(x) A situação parece resolvida. O leitor acredita nisso. O narrador deixa que ele acredite por alguns parágrafos.
(y) A mulher mentia. O marido mentia. O amigo mentia. O agregado mentia. Talvez ninguém mentisse, e essa hipótese, naturalmente, seria a mais ofensiva para o leitor.
(z) Perdoa-a. Não a perdoa. Diz que perdoou. Descobre que foi perdoado sem ter pedido perdão. Ou simplesmente conclui que, entre a verdade e a mentira, há uma terceira coisa muito mais cômoda: a versão que cada um conserva de si mesmo.

3. Guimarães Rosa
Texto-base:
Ele parteᵃ de manhã cedo, desmadrugado, sem saber pra ondeᵇ vai atrás de um homem que matou outroᶜ ou talvez tenha se desvivido de si mesmoᵈ leva um cavalo amareloᵉ amarelume, uma faca sem caboᶠ e uma palavra que não consegue dizerᵍ atravessa o sertãoʰ, sertanoso, onde o sol parece coisa vivaⁱ encontra um velho sabedouro que fala por parábolasʲ uma mulher que destina seu destinoᵏ e um jagunço medroso-bravo que tem medo de morrerˡ dorme sob uma árvoreᵐ sonha com água aguadeiraⁿ acorda ouvindo tirosᵒ segue o rio sumidoiroᵖ que não aparece nos mapasᑫ chega a um povoado onde todos sabem seu nomeʳ menos ele mesmoˢ descobre que o homem procurado é seu paiᵗ ou seu filhoᵘ ou ele próprioᵛ volta pelo mesmo caminhoᵂ mas o caminho já está descaminhadoˣ encontra a morte morrerenta no lugar onde esperava encontrar Deusᶻ.
Alternativas:
(a) Sai antes do sol. Sai depois da chuva. Sai porque mandaram. Sai porque ficar seria pior. Sai desmadrugado, sem despedida, que despedida é luxo de quem sabe voltar.
(b) Vai para o norte. Vai para o sul. Vai atrás de uma notícia. Vai atrás de um nome. Vai sem rumo, mas o sertão sabe sempre para onde leva quem nele entra.
(c) Um jagunço. Um vaqueiro. Um homem de fala mansa. Um homem de mão ligeira. Um morto que talvez esteja vivo, vivomorto, como certas coisas que o sertão não se decide a terminar.
(d) Matou o outro. O outro matou primeiro. Ninguém matou ninguém. A morte aconteceu sozinha, como certas desgraças que depois precisam de um culpado. Ele diz que foi assim, mas sua lembrança é deslembradiça.
(e) Cavalo amarelo. Cavalo baio. Cavalo sem nome. Cavalo que entende a fala do dono. Cavalo que sabe mais do caminho do que o homem. O amarelo do bicho é um amarelume que se vê de longe, antes mesmo do cavalo.
(f) Faca de ponta. Faca cega. Faca herdada do avô. Faca que nunca foi usada. Faca que todos acreditam ter sido usada. A lâmina é cortanteira, mesmo quando permanece quieta na bainha.
(g) A palavra é “mãe”. Ou “Deus”. Ou “perdão”. Ou o nome de uma mulher. Ele sabe a palavra, mas não consegue pronunciá-la. A palavra fica dentro dele, engolifixa, atravessada na garganta.
(h) Sertão seco. Sertão de veredas. Sertão de poeira. Sertão de buritis. Sertão onde o longe fica perto quando a morte vem atrás. É um lugar sertanoso, feito de distância, silêncio e coisa nenhuma que seja somente coisa nenhuma.
(i) O sol racha a terra. O sol racha o pensamento. O sol parece uma moeda de fogo que alguém esqueceu no céu. Tudo fica solzento, até a sombra.
(j) Um velho. Um ermitão. Um antigo jagunço. Um homem que nunca saiu do lugar e, por isso mesmo, conhece todos os caminhos. É um sabedouro, desses que sabem até o que ainda não aconteceu.
(k) Sabe quem ele é. Sabe de onde veio. Sabe para onde vai. Sabe que ele morrerá. Não sabe dizer quando, porque até o destino tem seus modos de fazer suspense. A mulher parece destinadeira, como se carregasse nas mãos o fio da vida alheia.
(l) Tem medo da morte. Tem medo do morto. Tem medo de matar. Tem medo de continuar vivo. Diz que não tem medo de nada. É medroso-bravo, espécie comum de homem que enfrenta o perigo justamente porque treme diante dele.
(m) Dorme debaixo de um jatobá. De um buriti. De uma árvore que não sabe nomear. Sonha que a árvore caminha durante a noite, andarilha, arrancando as raízes e procurando água.
(n) Água barrenta. Água clara. Água de chuva. Água debaixo da terra. Água que ele ouve, mas não encontra. Água aguadeira, prometendo matar a sede e aumentando a sede.
(o) Tiros. Um tiro. Dois tiros. Tiros longe. Tiros tão perto que parecem dentro do peito. Depois, somente o silêncio, silencioso demais, como se o mundo tivesse levado um tiro também.
(p) Rio São Francisco. Rio sem nome. Riacho seco. Vereda alagada. Um curso d’água que aparece onde ontem havia somente areia. Um sumidoiro de águas e caminhos, que some quando o homem pensa ter chegado.
(q) Um povoado. Uma fazenda. Uma venda. Uma capela. Sete casas e uma igreja, onde o padre sabe que todos pecam e ninguém confessa o mesmo pecado. O povoado parece quietoso, mas cada janela guarda um movimento.
(r) Sabem seu nome. Sabem o nome do pai. Sabem o nome da mulher. Sabem o crime. Sabem tudo, menos aquilo que ele veio perguntar. O sertão é falatórioso quando quer esconder alguma coisa.
(s) Não sabe quem é. Sabe demais quem é. Pensa que sabe. Descobre que o nome que recebeu ao nascer era apenas uma maneira provisória de chamá-lo. O homem está desnomeado.
(t) O homem procurado é seu pai. O pai foi seu inimigo. O pai nunca o conheceu. O pai está enterrado. O pai está sentado na venda, esperando por ele. Há parentesco que nasce parentescoado antes de qualquer sangue.
(u) É seu filho. É seu irmão. É seu pai. É ele mesmo, mais velho, vindo de um futuro que ninguém entende. O tempo, ali, é tempotorto.
(v) O homem procurado não existe. Existe em todos. Existe somente na memória. Existe como existem certas culpas: sem corpo, mas com peso. E a culpa, quando cresce demais, fica culposa, como se tivesse vontade própria.
(w) Volta pelo caminho. Volta pela vereda. Volta pelo rio. Volta porque não encontrou nada. Volta porque encontrou tudo. Só que volta desvoltado, trazendo consigo aquilo que pretendia deixar para trás.
(x) O caminho mudou. O homem mudou. O sertão mudou. Ou mudou somente o olhar daquele que atravessou o sertão. O caminho está descaminhado, como se também tivesse perdido sua direção.
(y) Encontra a morte. Encontra um homem morto. Encontra uma mulher. Encontra Deus. Encontra ninguém. No sertão, às vezes, encontrar ninguém é a maneira mais certa de encontrar alguma coisa. A morte está morrerenta, espalhada pelo chão, pelas árvores e pelo silêncio.
(z) A morte estava ali. Deus também. O pai também. O filho também. E ele compreende, tarde demais, que o sertão não era o lugar que atravessava: era ele que estava sendo atravessado pelo sertão. E então entende a última palavra, aquela que passou a viagem inteira tentando dizer: desviver.
* Inspirado no exercício "Do your movie yourself", de Umberto Eco (Diário Mínimo).

Sobre o autor:
Luís Carlos Silva Eiras é escritor e pesquisador. Nascido em Cambuí, sul de Minas, em 1950. Mestre em Ciência da Informação pela UFMG. Escreve na revista Medium (medium.com) sobre tecnologia. Seus livros O moto contínuo, O Teste de Turing e Viagem ao País de Tropicana estão à venda na Amazon.










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