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Máquinas que escrevem

há 15 horas
7 min de leitura
Mão mecânica com engrenagens de latão e articulações robóticas escrevendo a frase Mene Mene Tekel seguida de um cursor de terminal em luz verde brilhante sobre uma parede de pedra escura.


Máquinas que escrevem

Do Livro de Daniel, da Bíblia Sagrada, ao ChatGPT, da OpenAI


Luís Carlos Silva Eiras

  

NA LITERATURA


1. Bíblia Sagrada, Daniel, século VI a.C  


Durante um banquete do rei Baltazar, uma mão escreve na parede a mensagem secreta Menê menê tequêl u-parsin. O profeta e criptólogo Daniel é chamado e decifra mensagem: contado, pesado e dividido — a mensagem se refere ao próprio reino de Baltazar. Está na Bíblia Sagrada, no Livro de Daniel, capítulo 5, versículos 5–25, escritos provavelmente no século VI a.C.  

Em 1635, Rembrandt pintou a cena:  


Pintura a óleo de Rembrandt retratando o rei Baltazar atônito durante um banquete, olhando para uma mão misteriosa que escreve caracteres hebraicos luminosos na parede do palácio.
Rembrandt, A Festa de Belsazar (1635)

2. Viagens de Gulliver, Swift, 1726  


Na 3ª parte — Viagem a Laputa, Balnibarbi, Luggnagg, Glubbdubdrib e Japão — , no Capítulo 5, é descrito um invento que “a pessoa mais ignorante poderia, a um preço razoável e com pequeno trabalho corporal, escrever livros de filosofia, poesia, política, direito, matemática e teologia sem a menor assistência do engenho ou estudo”.  


Abaixo a versão do tal invento, conforme o desenho de Guido Crepax na paródia (da paródia!) Les Voyages de Bianca (1983).  


Ilustração em quadrinhos em preto e branco de Guido Crepax mostrando personagens manipulando uma máquina mecânica complexa com alavancas e engrenagens para compor textos, em alusão às Viagens de Gulliver.
Guido Crepax, Les Voyages de Bianca (1983)

3. O escrivão, Pierre e Henri-Louis Jacquet-Droz, Jean-Frédéric Leschot, 1773  


Um jornal em Berlim publicou, em 1775, que o andróide O escrivão podia escrever de modo claro e correto tudo o que é ditado, sem que ninguém o toque. Na verdade, O escrivão, uma máquina com mecanismo de relojoaria, podia escrever uma única frase curta.  


Fotografia do autômato mecânico O Escrivão do século XVIII, em formato de menino com roupas de época sentado a uma escrivaninha de madeira segurando uma pena para escrever.

4. Na colônia penal, Kafka, 1914–1919  


É descrita uma “máquina notável” em três partes. Na parte superior fica o escâner, onde é colocada a sentença. No meio, fica o rastelo com suas agulhas de pontas longas para escrever, e as curtas, que jorram água. E na parte debaixo, fica a cama de algodão, onde é amarrado o condenado. A finalidade da máquina é, obviamente, ler a sentença no escâner e escrevê-la nas costas do condenado com as agulhas do rastelo. Apesar de muita elogiada como projeto, a máquina na demonstração não funciona muito bem.  


Franz Kafka morreu de tuberculose em 1924. Suas irmãs Elli, Valli e Ottla foram assassinadas, de 1941 a 1943, em campos de extermínio. Abaixo a versão da máquina, segundo Crumb, em Kafka (2000).  


Desenho com traço hachurado em preto e branco de Robert Crumb ilustrando a máquina de execução de Na Colônia Penal, com o rastelo de agulhas suspenso sobre o leito de algodão.
Robert Crumb, Kafka (2000)

5. A Biblioteca de Babel, Borges, 1944  


Somente uma máquina ou milhares podem ter escrito os livros da Biblioteca de Babel, de Jorge Luís Borges. A Biblioteca é feita de paredes hexagonais e cada cômodo possui 5 prateleiras, a prateleira 32 livros, o livro 410 páginas, e a página tem 40 linhas, e cada linha 80 letras. As letras são feitas de 25 sinais, e cada livro difere dos que estão ao seu lado em apenas um caractere.  


Assim, a Biblioteca não é infinita. Feita a conta (25 caracteres elevado a 80 letras x 40 linhas x 410 páginas) a Biblioteca de Babel possui 25 elevado a 1312000 livros. Ou todos os livros que foram e que serão escritos. Ou um número de 1.834.098 dígitos.  


É uma biblioteca que só pode ser construída a partir de uma ou muitas máquinas ligadas a impressoras capazes de produzir livros que, começando com aaaaa…etc. e terminando com zzzzz…etc., tivessem um único caractere de diferença. Borges não descreve essas máquinas, mas a Biblioteca só pode existir a partir delas.  


Em tempo: o fichário da Biblioteca é uma cópia idêntica da Biblioteca.  


Desenho arquitetônico em preto e branco com vista aérea em perspectiva isométrica, representando a estrutura modular infinita da Biblioteca de Babel com cômodos e poços de ventilação hexagonais interligados.

6. Cem trilhões de poemas, Queneau, 1961  


Os Trilhões de poemas, de Raymond Queneau, é uma máquina muito simples. Um livro com dez páginas. Cada página um poema. Cada poema com 14 versos. E cada verso escrito numa tira que forma a página. Assim o leitor poderá fazer quaisquer combinações entre os poemas e os versos. Ou 10 poemas elevados a 14 versos ou 100 trilhões de poemas.  


Abaixo um poema do Cem trilhões de poemas com os versos traduzidos do francês pelo Google Tradutor:  


O cavalo do Parthenon fica chateado com seu friso  

Para secar nas pontas dos touros  

Ele se inclina e depois para sua surpresa  

E tudo passa a significar o fim dos grãos  

Ainda me lembro dessa hora requintada  

Quem gosta de enganar os pobres provinciais  

Da morte nós enxertamos uma ordem bastarda  

Quando o gin estraga granizo metralhadora os barcos  

Secamos o sargo ou o tamboril  

O gato faz um banquete de cabeças de rede  

Ele vai querer encontrar o germe adúltero  

Você não deveria ter abalado os encantos até agora  

As Índias têm pingentes suficientes sem isso  

Se a Europa quer a Europa ou o seu destino  


Fotografia do livro físico Cem Trilhões de Poemas aberto, exibindo as páginas cortadas horizontalmente em tiras estreitas para possibilitar permutações combinatórias de versos.

7. O jogo da amarelinha, Cortázar, 1963  


Logo no início de O jogo da amarelinha, em Tabuleiro de Direção, Júlio Cortázar sugere como o livro deve ser lido, isto é, a ordem dos 155 capítulos. Assim, deve-se começar pelo capítulo 73 e, em seguida, devem ser lidos os capítulos 1, 2, 116, 3, 84, 4, 71 etc., numerações que também estão no final de cada capítulo. Entretanto, considerando que a ordem dos capítulos pode gerar romances diferentes e caso o leitor não queira obedecer a ordem sugerida por Cortázar, existem — fatorial de 155, 155! — outras combinações possíveis para se ler os 155 capítulos. Por outro lado, como são livres a ordem e a quantidade, o leitor pode ler apenas alguns capítulos e dar o romance como lido.  


Capa do livro O Jogo da Amarelinha de Julio Cortázar, com design tipográfico em destaque e elementos gráficos inspirados na brincadeira de amarelinha.

8. O livro de areia, Borges, 1975  


O livro de areia tem este nome, porque os livros e a areia não têm principio nem fim. Cada vez que se abre o tal livro, se tem uma página diferente, que nunca se repete. É possível que o O livro de areia seja apenas um terminal de boa resolução, já que possui imagens, e acesso aleatório às paginas dos livros da Biblioteca de Babel.  


Em julho de 2026, a web tinha 1.494.915.628 sites em 305.348.459 domínios hospedados em 14.772.048 servidores, conforme o site https://news.netcraft.com.  


9. O negociante de inícios de romance, Visniec, 2015  


No capítulo 51, aparece o programa EASY TELLER (assim mesmo em maiúsculas), que escreve romances. O programa é um chatbot que, depois de conversar os detalhes do futuro romance a ser escrito para o autor (autor?), gera o capítulo 52. E no capítulo 53, o EASY TELLER vende um upgrade, o Patch.  



NA PROGRAMAÇÃO


10. Eliza, Joseph Weizenbaum, 1964–1966  


Foi o primeiro chatbot, um robô que escreve respostas de diálogos com o usuário. O nome é da personagem principal da peça Pigmalião, Eliza Doolittle, de George Bernard Shaw, de 1913. Como na peça, pode-se fazer Eliza responder cada vez melhor, mas nunca se sabe se ela entende os diálogos. Há muitas versões do Eliza, aqui, por exemplo, se assume como um psicoterapeuta rogeriano (em inglês):  


Captura de tela de um terminal de computador antigo exibindo linhas de texto verde monocromático com uma sessão de diálogo interativo entre um usuário e o chatbot ELIZA.

11. Literai, Fiction Written by Computers, O’Neill, Voutas, Lamego, Zou, 2016  


No site Literai (https: /www.literai.com) existiam vários exemplos de ficção escrita por computadores. O site ensinava também como baixar, instalar o modelo project.t7 para gerar uma nova história a partir de um texto, e publicá-la no próprio site. O project.t7 utilizava uma rede neural LSTM. O site está à venda.  


Captura de tela do site literai, onde existem vários exemplos de ficção escrita por computadores.

12. Baterias de íon de lítio. Um resumo gerado por máquina das pesquisas atuais, Springer Nature, 2019  


Henning Schoenenberger (humano), da editora acadêmica Springer Nature, diz, na introdução, que esse é primeiro livro de pesquisa gerado pelo aprendizado de máquina. Como nos últimos 3 anos foram publicados mais de 53 mil artigos sobre o assunto, o que torna impossível seu estudo, o livro traz um resumo automático de 1.086 dessas publicações. Uma redução a níveis humanos de entendimento.  


Na introdução, Schoenenberger explica ainda as várias etapas do processamento de linguagem natural, que tornaram o livro possível. O livro pode ser copiado gratuitamente em https: /link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-16800-1. O site está funcionando.  


Capa do livro Lithium-Ion Batteries, gerado pelo aprendizado de máquinas, com um resumo automático de 1086 publicações sobre o tema.

13. GPT-2, OpenAI. Talk to Transformer, Adam Daniel King, 2019  


Em novembro de 2019, o site OpenAI, de Elon Musk, divulgou o GPT-2, um gerador de texto capaz de prever a próxima palavra a partir de 40 gigabytes de textos copiados de 8 milhões de sites e processados com 1,5 bilhão de parâmetros. Essa máquina foge, assim, da análise combinatória das máquinas anteriores. O modelo divulgado é uma amostra do modelo original, ainda sob os pudores da OpenAI, que teme seu uso indevido ao mesmo tempo que faz um autoelogio sobre a qualidade do GPT-2.  


O GPT-2 foi entrevistado sobre o futuro da inteligência artificial na edição World in 2020 da revista The Economist. A partir de uma frase ou palavras em inglês, o programa mostra um texto curto e incompleto. Abaixo, um exemplo obtido em fevereiro de 2020:  


Prompt:

Máquinas que escrevem de maneira automática são baseadas na miséria da teoria combinatória  


Resultado:


Máquinas que escrevem automaticamente são baseadas na miséria da teoria combinatória. Minha própria teoria da escrita automática está centrada na idéia de que (a) todas as linguagens naturais podem ser representadas sintaticamente pelas relações de recorrência mais simples, (b) essa relação de recorrência não possui estrutura lógica ou gramatical, © combinadores podem expressar regras de análise o idioma e (d) as regras exatas para analisar o idioma podem ser matematicamente escritas.  


O processo de escrever programas automáticos não é muito diferente desse processo: começamos analisando as linguagens naturais e descobrindo como representá-las por simples combinações de regras sintáticas, semânticas e gramaticais. Descobrimos que os idiomas estão aninhados em outros idiomas, o que significa que precisamos traduzir de (...)  


14. O ChatGPT  


Em novembro de 2022, foi lançado o ChatGPT, uma maneira mais fácil de se usar a tecnologia GPT.  


Captura de tela do Chat GPT mostrando ao usuário exemplos de como pode ser usado para escrever textos.

15 - Máquinas que escrevem hoje  


O site Hugging Face, recém-comprado pela Nvidia, possuía em setembro de 2026 mais de 3 milhões de máquinas que escrevem para serem testadas pelos usuários.  


captura de tela do site Hugging Face destacando o número de modelos disponíveis para uso.


Referências  


A biblioteca de Babel, Jorge Luís Borges. Obras Completas I, Ficções. Editora Globo. São Paulo. 1998.  

An artificial intelligence predicts the future, The Economist,https: /worldin.economist.com/edition/2020/article/17521/artificial-intelligence-predicts-future, em 23/02/20.  

Viagens de Gulliver, Jonathan Swift. Penguin Companhia das Letras. São Paulo. 2010.  

Baterias de íons de lítio, Springer Nature, https: /link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-16800-1, em 23/02/20.  

Bíblia Sagrada. Livros Proféticos. Daniel, 5, 5–25. Vozes. Petrópolis. 1983.

 GPT-2, OpenAI. https: /openai.com/blog/better-language-models/, em 26/02/20.  

Histórias de autômatos, Mario G. Losano. Companhia das Letras. São Paulo. 1990.  

Kafka de Crumb, Robert Crumb. Delume Dumará. Rio de Janeiro. 2006.  

Les voyages de Bianca, d’apres les voyages de Gulliver de J. Swift, Guido Grepax. Editions Glénat. France, 1983.  

Cem trilhões de poemas on-line, Raymond Queneau: https://x42.com/active/queneau.html, em 06/09/2026.  

Talk to transformer, Adam Daniel King. https: /talktotransformer.com, em 24/02/20.  

Literai, Fiction Written by Computers, Myles O’Neill, Anthony Voutas, Isadora Lamego, Annette Zou, https: /www.literai.com/, em 24/02/20.  

Na colonia penal, Franz Kafka. Essencial Franz Kafka. Penguin Companhia das Letras. São Paulo. 2011.  

O jogo da amarelinha, Julio Cortázar. Companhia das Letras. São Paulo. 2019.  

O livro de areia, Jorge Luís Borges. Obras Completas III, O livro de areia. Editora Globo. São Paulo. 1999.  

O negociante de inícios de romance, Matéi Visniec. É Realizações Editora. São Paulo. 2015.  



Foto colorida do escritor Luis Carlos Eiras.

Luis Carlos Eiras, nascido em Cambuí, sul de Minas, em 1950. Mestre em Ciência da Informação pela UFMG. Escreve na revista Medium (medium.com) sobre tecnologia. Seus livros O moto contínuo, O Teste de Turing e Viagem ao País de Tropicana estão à venda na Amazon.

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