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CURITIBANICES: TIPOS BIZARROS

Hoje estamos quase órfãos destas figuras tão curitibanas…


Curitiba sempre teve figuras folclóricas, populares, amadas ou execradas. Aquela figura que todo cidadão curitibano já viu, ou pelos menos já ouviu falar. Desfilam pela urbe impunemente, em geral no centro da cidade, como se representassem um espetáculo diário. Por alguma razão inexplicável ( ou talvez explicável por algum profundo conhecedor destas plagas ) elas sempre existiram, estranhas, psicodélicas, patéticas mesmo. Por anos partilharam espaço com sombras, estátuas e outros performances do calçadão da Quinze. Hoje, permito lembrar apenas três delas, entre as mais marcantes:


GILDA - Um primo me contou que, certa vez, Gilda acercou-se dele e disse na lata: me dá um real ou te dou um beijo na boca! Ele não hesitou um segundo para entregar o dinheiro. A razão é simples: Gilda era um travesti barbado, que usava saias e saía pregando beijos nos transeuntes. Os tempos eram outros, a década era 70, não havia o horror da pandemia, sequer da AIDS. E é claro, a moeda cobrada do meu primo não era o Real, usei de exemplo apenas por não lembrar qual a moeda da época ( cruzeiro, cruzado, cruzado novo, sei lá…)


Dizem que Gilda abandonou um circo e ficou como travesti mendigo no centro de Curitiba. E foi vivendo, como vivem os mendigos. Só que Gilda não pedia, intimava sob a ameaça de um beijo na boca. Curitiba dos anos 70 era muito, mais muito mais provinciana do que é hoje. Então, óbvio, Gilda provocou alvoroço na cidade e foi, de certo modo, precursora dos movimentos LBGT.


INRI CRISTO - Imaginem Jesus Cristo, novamente descido à terra para pregar sobre o fim dos tempos, cercado por uma dezena de acólitos, todos em vestes brancas, desfilando pela Rua das Flores. Assim Inri Cristo - como ele mesmo se intitulava - fazia suas aparições. Pregava com forte e porque não dizê-lo, ridículo sotaque americanizado, às vezes brandamente, às vezes furiosamente como Cristo expulsando vendilhões do templo. Desfilou por Curitiba nas décadas de 80 e 90.


Inri Cristo era um astrólogo, conhecido como Yuri de Nostradamus, que um belo dia encasquetou que era Cristo reencarnado. Daí pra frente seguiu montando sua igreja e desfilando pelo centro de Curitiba com seus sermões. Eu mesmo presenciei, certa vez, cena impagável. Inri Cristo pregava na Rua Quinze, cercado por seu acólitos. Mas enquanto pregava, seus acólitos conversavam entre si, atrapalhando o sermão. Até que ele explodiu em três sonoros CALEM A BOCA! Então fêz-se silêncio e ele prosseguiu com a voz mansa de bispo em quaresma. Atualmente ele está em Brasília, para onde se mudou em 2006 com sua igreja.


OIL MAN - Uma visão que muitos preferiam não ter é a do cidadão moreno, alto e corpulento, trajando apenas uma sunga colorida, completamente besuntado de óleo, desfilando de bicicleta pelas ruas de Curitiba. Calor, frio ou mesmo chuva, lá estava Oil Man dando suas pedaladas. Para muitos era um vergonha o desfilar em trajes de banho, mesmo que em cima de uma magrela. Para outros era engraçado, para outros tantos apenas bizarro. Oil Man dizia, conforme atestado em entrevistas, que cumpria uma missão estética. Que missão era essa, jamais cheguei a entender.


Oil Man é na verdade um professor aposentado. Por algum tempo desfilou acompanhado por um Oil Boy, mas parece que o guri se deu conta de alguma coisa, pois desistiu. Ele andava bem desaparecido, mas recentemente apareceu desfilando com máscara, o que prova que Oil Man também defende as boas causas.



Hoje estamos carentes destas figuras, embora o Oil Man tenha reaparecido. Ainda temos a vendedora de loteria da Monsenhor Celso, mas cada vez os personagens bizarros escasseiam. Dizem que Curitiba está perdendo sua identidade e talvez, com ela, vão embora também suas bizarrices, algo único e original.


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