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CUSPINDO FOGO

Em House of Dragon, o último ato de amor é cuspir fogo.

Imagem de jw432 por Pixabay


Agora que a primeira temporada de House of Dragon nos deixou órfãos – até a próxima temporada, no ano que vem - só nos resta assistir novamente os episódios, um a um (não vale pular ou assistir só as melhores partes). O deslumbramento inicial com a série, nesta revisão, se confirma e realça a fina artesania com que o showrunner Miguel Sapochnick se houve; o texto enxuto com cada palavra em seu lugar (e se conectando com as próximas etapas), os atores, passado o impacto da primeira audição, se mostram em todas as suas sutilezas; a fotografia e edição, como tudo, maravilhosas. E os dragões? São mostrados como personagens, com idiossincrasias próprias, em um espetacular tour de force de técnica e arte. E, claro, cuspindo fogo para alegria dos espectadores infantilizados como eu.


Ryan Condal, o outro showrunner da série, conta que eles construíram os dragões com um senso de personalidade e os colocaram em um lugar na história. Eles não são apenas monstros, são personagens, com idades, cores, formatos e silhuetas distintas. Se eles aparecerem juntos, eles serão reconhecíveis: aquele é Caraxes, o outro é Vhagar, o outro é Seasmoske. Vários detalhes foram criados para dar verossimilhança à dança dos dragões: moscas, por exemplo, supondo que criaturas fedorentas atraem moscas; todo um universo foi construído para os dragões, com suas cavernas, seus cuidadores – alguém tem de limpar os dejetos dos dragões – suas idas e vindas da caverna onde vivem. Eles são deuses que fazem parte da paisagem quotidiana de Kings Landing.


Meu amigo Paixão, o cartunista, certa vez me disse que o segredo (um deles) de sua arte eram os olhos. Uma boa caricatura exige a verdade dos olhos. Pois é. Não olhem muito para os olhos dos dragões na série. A malignidade com que observam o mundo e as pessoas não vai deixar você dormir à noite. Todo cuidado é pouco. E no entanto, desde que você tenha a coragem de um Targaryen e saiba falar dragonês, como os Targaryen, descobrirá que no fundo de um dragão pulsa um coração cheio de amor para dar. E o fogo é a última declaração de amor que um dragão amigo dará ao seu parceiro. O dragão maligno é um cãozinho amigo, um fiel companheiro de todas as horas, boas e más, verdade que toda criança que assiste embevecida filmes de monstros sabe sem que ninguém a ensine.


Eu, como só me importo com detalhes inúteis, fiquei abismado com o personagem Otto Hightower, interpretado por Rhys Ifan. Eu ainda guardo na memória o adorável Spike, de Notting Hill. O grau de repugnância que um inspira somente se iguala à empatia que Spike transpira, com seu jeitão abobado. Que grande ator ele é. Grandes atores em todos os episódios.

Uma das grandes alegrias do cinema sempre foi a crítica cinematográfica. Um bom crítico, para mim, sempre foi parte da experiência do cinema. Ler ou ouvir uma crítica bem informada, muitas vezes, é melhor do que assistir o filme. Maus filmes se transformam em uma agradável experiência; filmes bons tornam-se melhores; personagens anódinos ganham vida; e personagens execráveis se tornam compreensíveis. Nada como um bom crítico para nos abrir os olhos. No caso de House of Dragon, isto se confirma. Agora que não precisamos assinar a revista Veja, e podemos ter Isabela Boscov grátis no Twitter, Youtube e outros canais, assistir cada episódio e depois o comentário da Boscov é como ganhar presente de Natal duas vezes. E que presente. Talvez fosse melhor assistir a Boscov e simultaneamente assistir o episódio, para melhor poder usufruir de sua perspicácia, mas acho que a dose dupla de inteligência e arte seriam demais para meus dois neurônios ainda intactos.

Portanto, revejo agora, devagar, os episódios. Boscov lamentou a falta de mais dois ou três episódios para fechar a temporada. Concordo. Mas, pensando bem, no meu caso, é desespero de adicto, ao se ver privado de sua droga.


Se você não assistiu A Casa do Dragão, assista. E não perca os comentários de Isabela Boscov no Twitter e Youtube. Diversão garantida em dose dupla. Miguel Sapochnik, um dos showrunners, foi o diretor do episódio A Batalha dos Bastardos, em GoT, que ganhou vários Emmy e deixou a todos exaustos. Vai ser uma longa espera até a próxima temporada.

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