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EFEITO BORBOLETA


George Kennan, um obscuro diplomata de carreira, deu o fundamento teórico e organizou o movimento. Começou a Guerra Fria, e suas consequências sentimos até hoje.


Imagem de Penguin Press.



Na história da diplomacia mundial, um dos grandes personagens foi George Kennan. Alguns o chamam de Pai da Guerra Fria, a guerra muito quente que ocupou a segunda metade do século passado entre a União Soviética e o Império Americano. Kennan vocalizou, logo após o final da Segunda Guerra Mundial, a ideia que a União Soviética era um império expansionista, e deveria ser confrontada onde quer que ela pusesse suas garras. Advogava uma política de contenção aos russos, pois dizia que o expansionismo fazia parte da natureza da Rússia, desde o tempo dos czares, e da liderança comunista. O comunismo cairia vítima de suas próprias contradições, segundo ele. Isso efetivamente ocorreu, em 1989, com a derrubada do Muro de Berlin, quarenta e três anos depois que ele enviou o The Long Telegram, a mensagem enviada da Embaixada de Moscou para Washington que foi o marco inaugural da Guerra Fria (fevereiro de 1946).


Chamado a Washington, Kennan criou e dirigiu o Policy Planning Staff (PPS), numa sala situada ao lado do escritório do Secretário de Estado, George Marshall. Era um pequeno grupo (sete, incluindo Kennan, mais uma secretária) de funcionários de carreira e intelectuais que se reuniam sob o seu comando e propunham políticas ao governo. Dali saiu o Plano Marshall, que ajudou a reconstruir a Europa devastada pela guerra (e de quebra deu o Prêmio Nobel da Paz a Marshall, em 1953).


Contenção, para um diplomata como Kennan, era o uso de armas políticas, econômicas, e de força, inclusive armada, em contraponto ao expansionismo russo (comunista), em todo o mundo. Todas as cartas poderiam ser usadas. Entretanto, a preponderância da força armada sobre os demais instrumentos logo ficou clara. Os falcões de Washington não tinham lido os clássicos que o diplomata lera e tendiam a ser pouco sutis. Porrada, quase sempre, era a resposta aos desafios. Exemplo: Vietnã.


A autorização para a CIA promover suas operações secretas em todo o mundo, confrontando o comunismo, saiu do escritório de Kennan. E suas consequências em todo mundo logo ficaram claras. Na América Latina, o quintal americano, as operações para derrubada de qualquer regime que parecesse confrontar os interesses americanos passaram a ser regra. Pouco importava se o ditador fosse um homem grotesco e corrupto; se fosse favorável aos interesses americanos, seria apoiado. Se fosse um homem honesto e com idéias renovadoras, mas que poderia eventualmente levar água aos moinhos russos, seria considerado inimigo. A lógica bipolar da Guerra Fria não admitia nuances entre os regimes e as personalidades.


Nesta confusão entramos nós, brasileiros. Um homem como o Presidente João Goulart, que jamais poderia ser chamado de comunista – era um fazendeiro - mas que tinha feito carreira criando lealdades sindicais e populares, transformou-se em um perigoso cripto comunista. Jango era um homem bonachão, dado a bebidas, mulheres e noitadas com amigos. De comunista não tinha nada, mas foi alvo de uma das operações secretas da CIA que culminaram com sua derrubada. A natureza pacífica de Jango foi demonstrada quando foi confrontado com a necessidade de enfrentar os militares sublevados, em março de 64. Jango, sabe-se hoje, tinha a lealdade da maior parte dos generais do Alto Comando das Forças Armadas, mas sabedor que isso provocaria uma guerra civil, preferiu o caminho do exílio. Ele se recusou a derramar o sangue de brasileiros, esperando que no futuro, o país pacificado, ele poderia retornar. Só voltou morto.


Era a lógica da Guerra Fria nos anos 60, particularmente aqui, no quintal latino-americano do Império.


A Guerra Fria acabou. Mas os seus antigos guerreiros e seus filhos e netos, emasculados do pensamento, viúvas do ouro de Moscou ou dos dólares da CIA, ou talvez saudosos de um tempo em que o mundo se resumiria ao confronto entre bons e maus (maus são eles; nós somos os bons), insistem em levantar bandeiras rotas ou desbotadas. O perigo comunista, o imperialismo americano, o Consenso de Washington, a degradação dos costumes, a invasão chinesa, qualquer argumento serve para a radicalização irracional, movida a likes e memes.


Kennan, o guerreiro frio, o falcão da guerra fria, não concordaria.



George Kennan foi fruto de uma educação clássica, de um tempo e de um país que ele mesmo lamentava não mais existir. Seus despachos oficiais ou aulas ou conferências mostravam uma profunda imersão na literatura. Impossível enquadrá-lo nos estereótipos da política e da cultura de massa contemporânea. Era uma avis rara e algumas de suas idéias eram, no mínimo, bizarras. No início dos anos 60, a operação da CIA, visando a derrubada do regime, incluiu a existência de uma base em Curitiba, uma cidade ainda pequena e bucólica. Do jeito como funciona a burocracia (no mundo todo), deve ainda estar em atividade. Coletando informações na Boca Maldita.

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