Trilogia Caio Brandão (II): Entre iates fantasmas e o canto da sereia
- CAIO BRANDÃO

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Trilogia Caio Brandão (II): Entre iates fantasmas e o canto da sereia
Nota do editor: Dando continuidade à série especial iniciada ontem, o articulista Caio Brandão desce hoje aos bastidores da comédia humana do poder. Da estratégia do choro na televisão às alianças voláteis, a crônica analisa a vaidade que alimenta a engrenagem das urnas.
NA POLÍTICA NÃO HÁ RESTOS A PAGAR
Por Caio Brandão
“Pelo amor de Deus, votem em mim”, desabou o candidato em lágrimas.
Assisti a esse apelo em programa eleitoral transmitido pela antiga TV Itacolomi, de Belo Horizonte, nas eleições de 1974, quando, choroso, o então candidato Nelson Thibau — contumaz perdedor para todos os cargos que disputou, inclusive para prefeito de Belo Horizonte — se dirigiu ao eleitorado no horário político do TRE.
Deu certo; Thibau, que antes não se elegera prefeito da capital com a promessa mirabolante de enfeitar a Lagoa da Pampulha com um superyacht, não seduziu o eleitorado pela grandiosidade, mas o venceu pelo cansaço. Elegeu-se deputado federal com as lágrimas que derramou e o apelo dramático que rezou na tela da televisão.
O choro de Thibau inaugurou, de certa forma, a era do "coitadismo eleitoral" na televisão, provando que, no Brasil, a comiseração é um ativo muito mais valioso do que qualquer plano de governo bem estruturado. O eleitor belo-horizontino, sempre desconfiado por natureza, preferiu perdoar o delírio náutico de ver um transatlântico atracado ao lado da Igreja de São Francisco para abraçar o homem que desabava em lágrimas no horário nobre.
Menos feliz do que o Thibau e a sua embarcação fantasma foi o então ministro do Turismo, Rafael Greca, nas comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil, que naufragou junto com a Nau Capitânia. Construída para abrilhantar as festividades, a réplica não conseguiu zarpar de Salvador para Porto Seguro e, segundo as más línguas — o que não foi comprovado —, teria afundado acometida por falhas técnicas.
Mas Greca se redimiu consoante as três aplaudidas administrações que gestou como prefeito de sua amada Curitiba e, agora, retorna mais leve e faceiro para disputar o governo do Paraná.
Mas nem tudo são flores. Frei Betto, em um artigo que encontrei nos meus arquivos — publicado em revista local cujo nome jaz apagado no recorte que restou —, dizia:
“A política é uma senhora sisuda que se julga bela e sedutora, acima de qualquer juízo. Irrita-se quando a criticam. Odeia cobranças. Mas mendiga, em cada esquina, reconhecimento e elogios. Alimenta-se da mesma ração de Narciso”.
Eleger um candidato não é fácil. Mesmo quando sobra carisma, podem ocorrer surpresas. Muitos foram os postulantes que, com esmagadora maioria de votos no primeiro turno, perderam para o adversário no segundo. Aconteceu em Minas com Hélio Costa — também conhecido como “professor de Deus” —, por exemplo, que chegou a dispensar parte de sua equipe, tão confiante estava na vitória, e acabou Screenperdedor para Eduardo Azeredo. Este, findo o seu mandato, terminou na prisão — imerecidamente — em face de assessores cuja desenvoltura exacerbada acabou por comprometer o seu entorno.
A maioria dos candidatos costuma recusar ajuda de estrategistas ou conselheiros para a captação de votos. Eles acham que sabem tudo de política e todos se dizem eleitos desde o ano que antecede a campanha. Ouvi de vários deles a frase: “De política entendo eu, o que preciso é de dinheiro”. Sim, o vil metal ajuda bastante, mas por si só não define o pleito.
Pior: ser "professor de Deus" não é privilégio de Hélio Costa. É mal de nascença da classe, inclusive no dizer de Frei Betto, que nos ensina:
“Assim é a política: uma igreja em que todos se julgam com vocação para papa; uma seita em que todos se acham profetas, um púlpito em que todos proferem vaticínios.”
Para lidar com político, o cidadão precisa ter memória fraca — daquelas que não recordam promessas e nem cobram compromissos. Com eles, vive-se um dia de cada vez, e nunca se deve esperar agradecimentos. Seu amigo? Sim, mas fora da política. Jamais se deixe levar pelo canto da sereia ou submeta-se à sua autoridade pela ocupação de cargos, ficando em mora com o poder por que motivo for.
Político adora avião de empresários, banqueiros e amigos, mas sem custo, óbvio. Mas em sua companhia não viaje jamais, ainda que o avião seja seu. A chance de ser obrigado a permanecer em terra para ceder assento a algum chefe político, vereador ou coisa parecida é grande. E, também, não se atrase na pista de decolagem, porque político não espera: segue em frente sem olhar para trás.
Sobre as ajudas que der durante a campanha, zere a conta finda a eleição e comece tudo de novo. Na política não existem restos a pagar.
Em geral, os políticos respeitam apenas duas classes de pessoas: as que eles dominam e as que eles temem. A sua contabilidade não registra cifras monetárias, mas principalmente números traduzidos em votos, o que mais os seduz. Para o político em situação de mando, é mais fácil amealhar fortuna do que prospectar, cooptar e manter eleitores. Ele sabe que o eleitor é volátil, leviano e traiçoeiro; o aliado de hoje pode ser o adversário de amanhã, cativado pelo feitiço de promessas alheias ou por alguma compensação financeira.
Entre o iate fantasma de Thibau e a nau imóvel de Greca, a história segue singrando o seu mar de ironias.
No fim das contas, a cartilha costuma ser a mesma na cabotagem das urnas: ambos, político e eleitor, prometem fidelidade sabendo, de antemão, que não vão cumprir.

Sobre o autor: Jornalista por vocação e observador atento da comédia humana da política. Caio Brandão escreve para resgatar o que há de mais profundo em nossa humanidade, mesmo quando os mosquitos da política insistem em não mudar.
Amanhã, no Dialéticos:
No desfecho da nossa trilogia, Caio Brandão abandona as águas turvas da ironia eleitoral para nos entregar uma joia de sensibilidade familiar. Uma carta real, escrita em 1993 para sua filha que partia rumo ao desconhecido em Hong Kong. Uma lição eterna de desapego e afeto que ecoa as memórias de Benjamin Franklin. Não perca o grand finale: Trilogia Caio Brandão (Fim): Uma mensagem para o futuro vinda do passado.










Excelente texto.