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JORNALISTA DESESPERADO

O novo colaborador do blog, Aparecido Hermenegildo Bueno Gago Bicudo, é um íntimo associado de nosso Publisher. É também um meu parente distante, um primo. Antes que eu seja acusado de nepotismo, digo que nada tive a ver com a contratação. Limito-me a apresentá-lo, cabendo aos leitores decidir se a nefanda figura merece leitura.


Os arquivos da Interpol, recentemente vazados pela Internet, dão conta que o primo Apa, como é conhecido na famiglia, começou sua carreira criminosa em tenra idade, traficando balas de jujuba no jardim de infância vegano, para desespero das professoras naturebas. Lá ele era íntimo de um certo Altamirando (primo Miro, na certidão Altamirando Ponte Preta), mas este, ao que parece, dedicava-se mais ao tráfico de escravas brancas e se notabilizou por ter fugido com a professora. Sua vasta ficha criminal não pode ser resumida neste curto espaço. Sabe-se que teria aconselhado notórias figuras da República em práticas criminosas. Teria inventado a rachadinha, quando Pedro Álvares Cabral aportou ao Brasil. A Interpol especula que ele teria vindo de um multiverso em que bizarramente as coisas seriam invertidas: lá os prefeitos e deputados dedicam-se a promover shows sertanejos (por um preço, claro), em vez de asfaltar as ruas das cidades; o presidente da República dedica-se a passear de motocicleta e comer picanha de R$1000 o quilo; quando resolve trabalhar, vai ao cercadinho e grita palavrões. Muito bizarro, este multiverso. Thanos não faria melhor.


Os leitores deste blog, acostumados a finas madeleines proustianas, acharão estranho o personagem. Mas fiéis à ampla liberdade de expressão, ele será publicado, embora, como adverti ao editor, com certeza ele afugentará nossos seletos leitores (poucos mas bons) e os anunciantes que pagam nossos martelinhos de cachaça. Mas advirto: somente estômagos fortes o suportarão. Hatsuo Fukuda




Aparecido Hermenegildo B. G. Bicudo

Aqui no cantinho onde me escondo de meus credores, de vez em quando vejo nosso Publisher revirando a lata de lixo do Costelão. Quando minha garganta ressecada pelo crack consegue, grito para que ele pague pelas minhas crônicas que publica no site que ninguém lê (sete leitores e meio, a mulher e filhos recusam-se a ler). Já disse a ele que deveria ter seguido carreira mais rentável, como a de sertanejo universitário, ou tatuar o fiofó. Poderia vender shows milionários, e mesmo tendo que partilhar o cachê com os prefeitos, vereadores, deputados e a família Bolsonosso Rachado, ainda sobraria um troco para pagar um martelinho de cachaça no Costelão da Praça. De bônus o cheiro da costela assada o alimentaria por duas semanas.


Ultimamente o editor resolveu ser gourmet de café, abandonando a carreira vitoriosa de viciado em drogas ilícitas. Ele, sempre escoteiro, mostrou para mim uma lista de cafés mais in. Em alguns cafés, ele explicou, vomitam no lixo para não ter que partilhar a experiência gourmet com mortos de fome como ele. Mas não tem problema, diz ele. Basta tirar o vômito de cima do pó, ou, então, lavar as cápsulas usadas com água do bueiro entupido da esquina.


Eu, da minha parte, prefiro continuar com o uso das drogas ilícitas a que me acostumei desde a tenra infância, quando minha mãe me deixava na rua, enquanto se fartava a valer com amigos suspeitos. Deixado na Rua da Amargura, sem número, aprendi o ofício de trombadinha, que logo abandonei quando encontrei minha cara metade, que em seguida me trocou por um viciado mais rico – ele tinha um colchão de molas na Praça, enquanto eu me virava com uns trapos debaixo da marquise do INSS. Foi assim que aprendi uma dura lição da vida: mais vale um colchão velho na praça que uma marquise na calçada. Além disso, ela gostava de fazer amor debaixo do flamboyant, enquanto os passantes voyeurs tiravam selfies com o casal de pombinhos apaixonados. Ela agora tem uma página no Only Fans.


Como a vida está difícil para todos, resolvi me alistar no exército da Ucrânia (ou da Rússia, tanto faz), aproveitando minha expertise bélica: correr da polícia levando nas costas meus pertences: um ray-ban com uma lente quebrada e sem uma haste, minha bolsa Gucci vermelha remendada, mas com a marca bem visível, um sapato Loubotin vermelho sem salto.


Já enviei o currículo para Putin e Zelensky, que até agora não responderam, talvez porque ocupados em praticar sexo animal um com o outro. Esse é um detalhe que esqueci de colocar no currículo: não sou deputado mas sou bem animalesco. Aguardo notícias.


Enquanto isso, vou ver se o meu Publisher paga um martelinho de cachaça.



Aparecido Hermenegildo Bueno Gago Bicudo, filho de tradicional família paulistana, desempregado, viciado em drogas lícitas e ilícitas, topa qualquer negócio. Aceita cartão de crédito, pix, e produtos in natura, desde que sejam bebíveis, cheiráveis ou fumáveis. Pode ser encontrado na Rua da Amargura, um pouco adiante do banheiro dos cachorros. Escreve aos sábados neste blog, em troca de um martelinho de cachaça.

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