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LOVE AFFAIR


O amor supera tudo. Tudo? O que você faria para ficar pertinho do céu.


Imagem promocional.


Leo McCarey era um irlandês muito engraçado, charmoso e brincalhão. Se você quiser saber como ele era, pense em Cary Grant (aquele das comédias malucas). Grant copiou os maneirismos de Leo, com eles criou uma persona cinematográfica e se tornou um dos grandes de Hollywood. Antes de Leo McCarey, Grant era apenas um ator bonitão. Peter Bogdanovich, que o entrevistou várias vezes, no hospital, um pouco antes de morrer de enfisema, conta que estas foram as mais engraçadas entrevistas que fez. E ele estava morrendo, e sabia que estava morrendo.


McCarey, que havia ganhado o Oscar de melhor diretor com The Awful Truth, estava com um bloqueio criativo e viajou com a mulher para a Europa. Na volta, um pouco antes de chegar a Nova Iorque, sua mulher perguntou se ele havia tido alguma ideia para um novo filme. Ele, sem ideias, começou a improvisar. Imagine um casal que se conhece numa viagem de navio e se apaixona. Mas ambos estão comprometidos, e então combinam se encontrar depois de seis meses, no alto do Empire State Building, o prédio mais alto do mundo (naquela época).


Esta foi a origem de Love Affair, que foi indicado para o Oscar de 1939. Trata-se de um dramalhão que foi inventado em poucos segundos, para acalmar os temores da mulher, preocupada com o marido, enquanto o navio passava próximo à Estátua da Liberdade.


Isso é típico Leo McCarey. Ele havia começado no cinema ao tempo do cinema mudo, e feito centenas de comédias curtas. E nestas quase sempre não havia roteiro ou sequer ideias para começar a filmar. Os filmes eram inventados com base em cenas que haviam presenciado, ou pessoas que haviam conhecido, e estas eram apresentadas aos atores, que a seguir improvisavam com base em seu próprio feeling e background pessoal. Ele levou este espírito ao cinema falado. Seu set era famoso pelos momentos em que todos paravam, à espera do diretor ter alguma ideia enquanto tocava piano. Era famoso também pelo espírito descontraído de todos, diretor, atores, técnicos. Os chefões do estúdio o toleravam porque afinal seus filmes davam dinheiro.


Love Affair é um típico sonho hollywoodiano da época, em que uma Irene Dunne bela e sempre elegante – está sempre de vestidos longos e vaporosos –, e noiva de um homem rico – conhece um playboy também noivo de uma mulher rica. Ambos se apaixonam, e, no dia da chegada a Nova Iorque, com o Empire State Building como cenário ao longe, eles combinam acertar suas vidas e se encontrar depois de 6 meses, no alto do prédio, no 102.º andar.


Durante a viagem, eles se encontram no bar. Ambos pedem pink champagne. Coquetel de pink champagne. Se quiser um pouco de glamour em sua vida, tome um coquetel de pink champagne. Quando finalmente se declaram, ela diz a ele: Estamos entrando em mares tempestuosos.


É verdade. Estamos em tempos do Código Hayes, que regulava a moralidade dos filmes em Hollywood, e que jamais concordaria que uma mulher comprometida traísse o noivo. Além disso, Irene era irlandesa, como McCarey, o que quer dizer, católicos. Este tipo de gente leva a sério o compromisso, principalmente se ele for selado diante de uma estátua de Nossa Senhora. Deus haverá de cobrar o preço, ainda que para uma boa moça como Terry McKay. Uma mocinha do Kansas terá de servir de exemplo para as demais mocinhas do Kansas e do resto do mundo.


Como alguns dos meus poucos leitores não assistiram o filme, não vou contar a história. Talvez alguém se interesse em assistir um dos maiores e clássicos exemplos de sonho da máquina de produzir sonhos dos anos 30 e 40, o período de ouro de Hollywood. Ele gerou um remake feito pelo próprio McCarey, em 1957, com Cary Grant e Debora Kerr, com o título de An Affair to Remember, e com mais sucesso que o primeiro. Warren Beatty e Annette Benning o refizeram, anos depois, basicamente a mesma história.


E, finalmente, Nora Ephron em Sleepless in Seattle revisitou o filme, com Tom Hanks e Meg Ryan. Separados por um continente, eles finalmente se encontram no alto do Empire State Building, o filme de McCarey como fonte inspiradora e citado extensamente. Na verdade, Leo McCarey era e continua sendo um mestre.


Se forem assistir deixem a caixa de lenços ao lado. Vocês vão derramar lágrimas e lágrimas. É deliciosamente emocionante, como todo grande drama.



Leo McCarey foi indicado três vezes como melhor diretor, ganhando o Oscar com The Awful Truth. Ganhou também o Oscar de Melhor Roteiro Original com Going my Way, e nesta categoria foi indicado três vezes. Segundo os críticos, o melhor filme dos Irmãos Marx foi dele: Duck Soup. Inventou o persona cinematográfico de Cary Grant. Inventou a dupla Gordo e Magro. Acho bom assistir as três versões: Love Affair, com Irene Dunne e Charles Boyer (esta a versão predileta do diretor); An Affair to Remember, com Cary Grant e Debora Kerr, e Love Affair, com Annette Benning e Warren Beatty. Sleepless in Seattle, de Nora Ephron, tornou-se também um clássico da comédia romântica. Onde assistir? Nos streamings da vida. Ou em DVD. Soube que a Criterion refez Love Affair (o primeiro). Vá a Nova Iorque e compre em uma loja. Sai muito caro importar. De quebra suba o Empire State Building.

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