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MATA O DESEJO


Qual a relação entre um frei católico e Buda?


Imagem de Jamie Nakamura por Pixabay

Em minha adolescência, estudando no Colégio Medianeira, travei contato com muitos bons professores. Um dos professores que mais me impressionou foi um Frei Jesuíta, que lecionava Religião. Chamava-se Inácio Neutzling e conviveu comigo, salvo engano da memória, na 6ª e 7ª séries do primeiro grau. Tinha uma personalidade forte, o que não o impediu de estabelecer bons laços de amizade com seus alunos.


Lembro especialmente de um precioso ensinamento, que ele frisava em boa retórica e claros argumentos e que, resumidamente e sob névoas do passado, poderia ser assim resumido: o ser humano está aberto ao MAIS. Não importa em que situação esteja, sempre quer mais. E como não consegue atender às imposições do MAIS ele se frustra.


Como Frei Inácio era muito erudito e dono de uma inteligência afiada, com certeza estava ciente de que, mesmo católico, estava passando aos alunos uma das lições mais caras do Budismo. Tal lição, verdadeira pérola de sabedoria, poderia ser expressa em apenas três palavras: mata o desejo.


No meu humilde ponto de vista, ainda que correndo o risco de ofender algumas pessoas, tenho para mim que o Budismo é menos uma religião, e mais uma fórmula para a paz espiritual. Não, não são a mesma coisa… Entre os chineses, Lao Tse e Confúcio também forneciam fórmulas para a felicidade - o que pode ser um termo para paz espiritual - baseada na continência, disciplina e bons costumes. A Lao Tse se atribui o aforisma: quando tu reparas que nada falta, o mundo inteiro te pertence. Outra forma de dizer o mesmo: mata o desejo. Os ensinamentos destes mestres são mais filosóficos que religiosos, ainda que não seja possível uma total dissociação entre religião e filosofia.


Assim também no Budismo, visto que o próprio Buda recusava-se a perscrutar questões metafísicas: Eis os quatro impulsos que arrastam para a existência individual: o apego ao desejo, o gosto da especulação metafísica, a prática dos ritos religiosos, a crença na vida imortal da personalidade. E, em outra passagem: Igualmente insensato é perguntar a si mesmo: terei existido nos tempos passados? Como e por quanto tempo existi? Viverei nos tempos futuros? E quanto ao presente, será que existo, ou não? São ideias presentes no Dhammapada, uma síntese do pensamento budista.


O que Buda ensinava era um caminho seguro para atingir o Nirvana, conceito não bem estabelecido no pensamento ocidental, mas cujo roteiro necessariamente passa por controlar corpo/mente e eliminar o desejo. Para qualquer filosofia, para qualquer religião mesmo ( ao menos as que merecem a palavra ), eliminar o desejo é lição tão preciosa quanto difícil de aprender. O bom Frei Inácio sabia, tanto que pregava a lição com muita insistência, e não via qualquer problema em beber na filosofia oriental.


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