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NOS TEMPOS DO IMPERADOR

Crítica de cinema

Apesar das derrapadas, um bom entretenimento.


Imagens patrocinadas iStock -


Novelas são os folhetins modernos, uma fórmula de sucesso popular que vem do Século XIX. A capacidade da Rede Globo produzir boas novelas é internacionalmente reconhecida. Suas produções têm mercado no mundo inteiro. Sobretudo quando investe em explorar fatos históricos ou outras culturas, a Globo costuma se dar bem.


Há duas semanas a Globo lançou Nos Tempos do Imperador, um novela ambientada na segunda metade do Século XIX, tendo o Segundo Reinado como base das ações. Naturalmente, D. Pedro II é o personagem principal e, para encarná-lo foi eleito ninguém menos que Selton Mello. Uma escolha feliz, seja porque Selton é um grande ator, seja porque claramente estudou o personagem, conferindo à sua atuação aquele caráter circunspecto e tranquilo do Imperador que governou o país por mais de meio século.


Passados os primeiros capítulos, está claro o que merece aplauso e o que merece a mais veemente reserva. Os aplausos vão para a produção que trabalhou com sets maravilhosos, uma primorosa reprodução do Rio de Janeiro do segundo Império, figurino perfeito, pesquisa apurada de acessórios como mobília, adornos e meios de transporte. Também a escolha do elenco merece aplausos: além de Selton Mello, Letícia Sabatella, Mariana Ximenes e Alexandre Nero são escolhas certeiras e confiáveis. O casal Michel Gomes e Gabriela Medvedoski também atua bem, ainda que cumprindo papéis óbvios para agradar o grande público.


O roteiro merece aplausos e repreensões em igual proporção. Claro, é um folhetim, onde se espera manter a atenção do telespectador sempre alerta para o que vai acontecer no episódio seguinte. Não é fácil manter essa chama sempre acesa sem cair no piegas ou no lugar comum. Até aqui, contudo, o roteiro quase sempre caminha bem, mantendo equilíbrio com uma história inteligente e leve ao mesmo tempo.


As concessões históricas merecem reservas, embora até aqui não sejam o maior problema. Nada contra imaginar situações envolvendo personagens históricas, episódios que poderiam ter acontecido, ainda que não historicamente comprovados. A primeira aparição do ditador Francisco Solano Lopes, entretanto, derrapou feio. Lopes simplesmente aparece com um pequeno piquete de lanceiros e invade o acampamento do Imperador, que estava em uma de suas proverbiais viagens de exploração do seu reino continental. Em poucas palavras desenha o panorama da guerra que está por vir, exigindo saída para os produtos paraguaios pelo Rio da Prata e demandando a mão da Princesa Isabel para selar uma aliança. A coisa toda surgiu assim, do nada. Talvez para o grande público a cena tenha seu valor. Mas para quem tem apreço pela história foi desastroso e ofensivo ( conheço alguém que abandonou a novela ali, no primeiro capítulo ). Este tipo de concessão a história não admite, porque uma novela histórica deve ter em mente também um caráter pedagógico. As concessões ao roteiro não podem ofender fatos históricos.


O que há de pior no roteiro, contudo, é a necessidade - quase uma imposição da empresa - de forçar núcleos que sejam do agrado popular. Se esta intenção é compreensível em parte, afinal a novela precisa de audiência, não precisa resvalar para o mau gosto. Em Nos Tempos do Imperador o núcleo formado pelos personagens Licurgo, Germana, Quinzinho e Clemência busca cumprir este papel de encarnar o lúdico. Não é culpa dos atores - que são competentes - é culpa do roteiro. Tudo, absolutamente tudo, é horroroso neste núcleo. É baixo, intelectualmente pobre, forçadamente escatológico. E é preconceituoso, porque subestima a inteligência do público brasileiro, como se as pessoas só pudessem achar graça em peidos e penicos. Pra piorar, este núcleo tem muito espaço na trama. Uma pena.

Feitas estas considerações, apesar dos deslizes, recomendamos a novela como um bom entretenimento. É sempre bom ver a produção nacional voltada ao resgate da nossa história. Acentuando a excelência da produção, esperamos, sinceramente, que a novela consiga manter-se em elevado nível.



Nos Tempos do Imperador - Rede Globo, 2021

Gênero - Novela, folhetim, histórico.

Direção: João Paulo Jabur/ Vinícius Coimbra

Roteiro: Alessandro Marson/ Thereza Falcão

Elenco: Selton Mello, Letícia Sabatella, Mariana Ximenes, Alexandre Nero, Michel Gomes e Gabriela Medvedovski.


Avaliação: Nota 7 ( até aqui )

Recomendação: Para o público em geral.

Adjetivos: Interessante, cativante, lamentável ( para o núcleo escatológico ), primoroso ( para a produção ), instável ( para o roteiro ).


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