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POUSANDO NA COREIA

A magia do cinema mudou para a Coreia.

Imagem de pixabay



Pousando no Amor começa hollywoodianamente, com um truque que já havia sido utilizado em O Mágico de Oz: um tufão, que leva a milionária Seri para o reino encantado da Coreia do Norte, no caso, uma pequena aldeia estacionada nos anos 50, quando a Guerra Fria separou o Norte do Sul, dividindo o país entre uma controlada sociedade militarizada e um consumista país capitalista.

Nesta pequena aldeia, a bela e cosmopolita Seri é rodeada por seus munchkins, representados por dois grupos, um de mulheres e outro de soldados, além de seu futuro par amoroso. Esta trupe circense, com suas tiradas apalhaçadas e marxistas (grouxomarxistas, claro) é responsável pela maior parte das impagáveis tiradas da série, ridicularizando hilariamente a vida quotidiana na Coreia comunista.

Aqui, a fantasia de Oz dá lugar a Ninotchka, de Ernst Lubitsch, onde uma comissária soviética vai para Paris e descobre ambos, o amor e as maravilhas da sociedade capitalista, mas de maneira invertida. A bela Seri, com todo o seu glamour e dinheiro, é uma mulher que não conhece o amor e a amizade, como Ninotchka. Na pequena aldeia coreana ela encontrará ambos.


Como todo espetáculo coreano, uma dose de suspense e drama se acrescentará ao par romântico. Mas sem efeitos especiais. E sem spoiler, atrevo-me a dizer que o clássico final, em que se obtém a catártica união entre os amantes, no caso, traz a sutil mensagem de que há um território neutro onde o Norte e o Sul podem se encontrar. O filme, para alegria dos engajados, no fundo é político até a medula dos ossos. (Este é um bom pretexto para assistir a novelinha.) Há um território onde comunistas e capitalistas podem se reunir, e este é o território da amizade, do amor entre homem e mulher, dos valores familiares tão prezados pelos coreanos ao sul e ao norte da Zona Desmilitarizada, da comida compartilhada, dos rituais do casamento e do luto, da linguagem.


Observem o grupo de mulheres da pequena vila norte-coreana. Observem como sua amizade, apesar das diferenças de classe – há camaradas e camaradas, alguns são mais camaradas que outros – se faz sentir na vida de todos, e como elas fazem a diferença na vida da pequena aldeia, nas conversas entre si, nos momentos em que elas lavam roupa ou preparam o kimchi coletivamente. Kimchi, aliás, que é um prato comum aos do Norte e do Sul. E como elas se divertem, enquanto comem e bebem, enquanto partilham suas vidas, no fundo indiferentes às cisões que a história produziu. A vida e a própria Coreia é muito maior do que essas mesquinharias.

Sempre admirei a capacidade dos cineastas coreanos de explorar as profundidades da alma humana. Isso se reflete nos filmes e séries, onde o vilão mais desalmado (como em Oldboy) é compreendido e nunca realmente odiado, em virtude da exposição de sua humanidade.

Agora, graças a uma aula de língua coreana, do Instituto Asia Brasil, que me foi enviado pela filha de um amigo, descubro que na língua coreana há inúmeras formas de dizer “obrigado”. Esta variedade imensa mostra a sutileza da língua e sua adaptabilidade ao mundo real e a interação com os demais países. Como já disse um filósofo, a linguagem é a morada do ser. E neste ser coreano há um espaço infinito entre o sim e o não, entre o ódio e o amor, e isso se reflete em suas vidas, e naturalmente, nas produções cinematográficas.

Como classificar Parasita, de Bong Joon-ho por exemplo? Uma comédia? Um drama? Uma comédia de humor negro? Uma denúncia da desigualdade social? (Esta opção, a preferida na pátria dos que brigam até por uma partida de futebol, a mais tola e primária de todas). A resposta não é simples, e quando lembramos da história coreana de mais de dois mil anos (história escrita, cujos primeiros registros datam de 200 antes de Cristo), e o peso desta tradição, nos damos conta de um espaço compartilhado por todos, inclusive cineastas, que simplesmente impede os maniqueísmos a que estamos acostumados.


Um viajante chinês, que percorreu a península, muito antes da escrita chinesa ter sido lá introduzida, anotou que o povo era muito alegre, gostava de comer, beber, cantar e dançar. Isso, de certa forma, explica o sucesso do cinema, da televisão e da música coreana no mundo, explica os prêmios que tem recebido em penca, o desentranhado amor que os espectadores do mundo têm pelas suas produções.


Nos filmes e séries coreanas, os personagens gostam de comer, beber, dançar e cantar. E amar. Seri, uma mulher artificial, que só come três garfadas de cada prato de grandes chefs, reencontra sua humanidade no simples ato de comer e beber junto aos amigos e amigas que lá encontrou. Lá, ela beberá soju, e descobrirá que é melhor tomar soju com amigos que finos vinhos com inimigos.


Pousando no Amor, com a bela Son Ye-jin interpretando Seri, e Hyun Bin no papel de Jeong-hyuk, e um elenco de apoio maravilhoso, é uma das séries coreanas mais assistidas no mundo. Roteiro de Park Ji-eun, direção de Lee Jeong-hyo. Na Netflix. Faço referências a O Mágico de Oz e Ninotchka, talvez contestáveis, mas de qualquer forma, ambos merecem uma sessão, ou uma revisão. Nunca ninguém se aborrecerá em ver ou rever Judy Garland cantando Over The Rainbow ou Greta Garbo dando risada. O que eles têm em comum com Pousando no Amor? Nada, só a velha e eterna magia.


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