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A LAPA POR RAFAEL GRECA: HISTÓRIA, ECOLOGIA E CURA

Fotografia de um casarão de arquitetura em estilo europeu e enxaimel, cercado por jardins gramados, arbustos floridos e grandes árvores sob um céu azul, representando a sede da Lapinha Clínica Spa na Lapa, Paraná.
A sede da Lapinha Clínica Spa: refúgio pioneiro de medicina integrativa e cura natural fundado por Margarida Bornschein Langer, cujos 25 anos motivaram a publicação da obra em 1997.

A LAPA POR RAFAEL GRECA: HISTÓRIA, ECOLOGIA E CURA

RESGATE HISTÓRICO


NOTA DO EDITOR

Publicado originalmente em 1997 como abertura do livro "Lapinha: a Natureza da Lapa", o prefácio a seguir é uma joia rara da historiografia e da literatura paranaense. Patrocinada pela Lapinha Clínica Spa — instituição pioneira em medicina integrativa fundada por Margarida Bornschein Langer —, a obra celebrava os 25 anos desse refúgio de saúde. Escrito pelo urbanista e intelectual Rafael Greca de Macedo, o texto transcende a mera apresentação institucional para se tornar uma crônica poética e sensorial da "Cidade Legendária". Ao resgatar a ancestralidade biológica, cultural e heroica do solo lapeano, a obra permaneceu restrita a edições físicas esgotadas por quase três décadas. O site Dialéticos traz a público este registro histórico, preservando rigorosamente a integridade e a beleza do texto original.


A LAPA POR RAFAEL GRECA: HISTÓRIA, ECOLOGIA E CURA

 

PREFÁCIO


Acerta a equipe do Lar Lapeano de Saúde em celebrar seus 25 anos com esta edição.


O futuro é um pássaro de duas asas. Seu corpo tem a memória do que já passou. Só avança se voar. As duas asas são a imaginação e o conhecimento. Nada melhor para celebrarmos conquistas do que a vontade de avançar.


Afinal, a vida é movimento.


Vista interna de um paredão rochoso e úmido cercado por densa vegetação nativa na Gruta do Monge, ponto turístico natural e histórico na cidade da Lapa, Paraná.
A histórica Gruta do Monge, abrigo místico e geológico nas coxilhas da Lapa.

Não tenho dúvidas de que esta edição será importante não só para a Cidade Legendária como para a bibliografia paranaense.

Aqui se encontram três autores com trajetórias de vidas diversas.


João José Bigarella, geólogo, ambientalista, admirável formador de gerações.


Oldemar Blasi, historiador, arqueólogo, alma e resistência do Museu Paranaense.


Dieter Brepohl, teólogo, administrador, responsável pela atual equipe da Lapinha.


Eles materializam um painel superlativo sobre a natureza da Lapa, sua geografia, sua história.


Eis a Lapa.


Terra abençoada.


Coxilhas de arenito e pedra ferro.


A gruta que deu abrigo ao Monge, viscosa de umidade e misticismo.

Os capões de mato, onde o verde novo da primavera alterna-se com o perpétuo verde escuro das araucárias.

E as várzeas floridas de bromélias e barbas-de-pau, inundadas pela expansão dos rios, sombreadas por bambuzais em arco.

Há minúcias na descrição do meio ambiente.


Principia-se pelo instante do Gênesis.


A criação sucede, com a narrativa do nascimento do Oceano Atlântico, quando a África e América se separaram, ergueu-se a Serra do Mar e os arenitos da região da Lapa ficaram como retrato de um litoral que desapareceu.


Fotografia do Monumento ao Tropeiro, um grande painel feito de azulejos com traços pretos e fundo colorido que retrata os tropeiros e suas mulas, obra do artista Poty Lazzarotto na Lapa.
O Monumento ao Tropeiro de Poty Lazzarotto, na entrada da Cidade Legendária.

Descrevem-se à perfeição extratos de solo e vegetação. Chega-se às atuais lavouras de sobrevivência, sacrificadas lavouras de batatinha, milho e feijão. Passa-se pela formação das pastagens, memória de invernadas antigas, da época do Caminho das Tropas.


Onde andarão os velhos tropeiros, apeados de seu papel pela mecanização do transporte de cargas? Ainda os há, vizinhos da Lapinha, entocados em fazendas antigas, contando causos à beira do fogo.


Dá para ouvir, na voz do vento, enquanto segue a leitura, o canto do tico-tico, do pica-pau, do sabiá. Quem há de esquecer-lhe o brilho do papo alaranjado sob o fraque cor de cuia? Povoando os arvoredos, voam em bandos, anus, bem-te-vis, narcejas e beija flores. Correndo entre os arbustos dos campos infinitos, há saracuras, inambus, suindaras e carranchos.


Vista de uma rua tranquila com calçamento de paralelepípedos e casario colonial preservado de fachadas coloridas no Centro Histórico da cidade da Lapa, Paraná.
Casario preservado do Setor Histórico da Lapa, Paraná.

Estão todos aqui.


Guaxinins de mão pelada. Jaguatiricas entocadas. Bugios e serelepes.


Eles testemunham a história dos homens.


Os índios, primeiros donos da terra. Suas povoações, suas lutas antes que os chamássemos de “bugres”, negando-lhes alma e direitos.

Os tropeiros, na saga de levar e trazer mercadorias, pelos caminhos do sul, entre São Paulo, a feira de Sorocaba, a Vila Curitiba, o litoral e o amplo continente de São Pedro do Rio Grande do Sul.


Vila Nova do Príncipe, a Lapa surgiu em torno da Matriz dedicada a Santo Antônio. Monumento nacional. Barroco preservado com cores caboclas. E cresceu rumo à Colina de São Benedito, no itinerário das romarias e das congadas. Zabumbas de negros escravos, seus descendentes persistiram até há pouco celebrando imemorial tradição ibérica de lutas entre mouros e cristãos.


Ainda dá para ouvir o trotear da mula madrinha, que sabia guiar toda a tropa até o passo do Itararé, lá onde o Paraná acaba e São Paulo começa.


Há também a Lapa dos colonos, do pão e sal repartidos à porta das casas polacas.


Dos leiteiros de origem alemã. Da gente loira e simpática reunida à saída da missa à porta da esplêndida Igrejinha de Mariental.


Há a Lapa dos que vieram do Volga, trazendo bordados em ponto de cruz, cremes de raiz forte e pão preto, amassado com centeio e linhaça.

E há a Lapa dos Heróis. 1894. Cenário de luta decisiva entre pica-paus e maragatos. Cidade de cerco e resistência. Fortaleza da República nascente.


Quantos sabem onde morreu o General Carneiro, celebrado em bronze sobre granito no centro da Praça da Matriz? Na marquesa de palhinha da sala de visitas da Casa de Dona Lulucha. Logo ali, ao lado do Teatro São João.


Fotografia interna do Teatro São João na Lapa, mostrando as frisas, os camarotes e a estrutura do teto toda construída em tábuas antigas de pinho e imbuia.
O singular interior em madeira do Teatro São João, exemplar raro do período imperial.

Que melodias, versos, olhares, amores, guardam as tábuas de pinho e imbuia dos palquinhos e camarotes, deste teatro singular?


O Teatro São João é exemplar único da arte da madeira no Brasil.


O que há por detrás das vidraças, nas ruas onde passeia o silêncio?

Depois das paredes, debaixo dos telhados arrematados por eiras e beiras, quem nos dirá do sucedido nas alcovas, salas sem janelas, do miolo das casas velhas?


Imprescindível descobrir o que guardam os Livros do Tombo, na Matriz e na Casa de Câmara e Cadeia, das poucas que sobraram no Brasil.


A Lapa é toda História.


Também história de saúde.


Quem não ouviu falar da cura do Dr. Virmond, remediado pelo ar e pelo clima?


Quanta fama se deu ao venerável Sanatório de São Sebastião, endereço de curas referencial para a história dos hospitais do Paraná.


E a tudo se acrescenta a memória recente da clínica naturista e cristã instalada por Margarida Langer, na sua fazenda há 25 anos.


A Lapa é toda História.


O primeiro escritor paranaense é o lapeano Salvador Correia Coelho (1825-1892). Na coleção Farol do Saber, que editamos em Curitiba, durante nossa prefeitura, entre 1993 e 1996, resgatamos o seu livro de 1844. Um admirável relato chamado “Passeio à minha terra”. Memória escrita de uma viagem desde São Paulo até a Lapa, pelo antigo caminho.


Talvez fosse profecia, pelo menos no trajeto, da moderna peregrinação dos paulistas, que fogem ao stress da metrópole e vivem na Lapinha dias de cura e relaxamento.


Com esta edição, o Lar Lapeano de Saúde associa-se ao processo cultural do povo paranaense. Tomara que ela seja divulgada nas escolas do Município, nos Faróis do Saber de Curitiba, nas principais bibliotecas do Brasil.


O que não se compartilha, se perde.


Feliz celebração que reparte conhecimento.


Já é tempo de deixá-lo, amável leitor, à vontade, para desvendar, nas páginas seguintes, a natureza da Lapa.


Rafael Greca de Macedo

Frequentador da Lapinha


 Fotografia da capa do livro físico "Lapinha: a Natureza da Lapa" de 1997, mostrando o papel amarelado e a imagem de um pôr do sol no horizonte sobre campos de araucárias.

Ficha Técnica da Obra Original:

Livro: Lapinha: a Natureza da Lapa (1997)

Autores: João José Bigarella, Oldemar Blasi e Dieter Brepohl

Editora: Lar Lapeano de Saúde

Edição comemorativa de 25 anos.

Infelizmente não está disponível em edição digital, mas encontra-se em sebos na Estante Virtual e na Shopee Brasil.



Retrato fotográfico de estúdio do político e intelectual paranaense Rafael Greca de Macedo, sorrindo de forma simpática.

Sobre o autor do prefácio: Rafael Greca de Macedo é engenheiro urbanista, escritor, historiador e político paranaense. Membro da Academia Paranaense de Letras, governou Curitiba por três mandatos, período em que idealizou projetos de forte identidade cultural e educacional, como os Faróis do Saber citados neste texto. Sua escrita é profundamente marcada pelo resgate da memória, do patrimônio arquitetônico e da identidade do Paraná.

 

 

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