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QUAL O VALOR DAS COISAS?

A compra de uma calça pode levar a reflexões maiores...


Imagem de MasterTux por Pixabay

Curitiba, 17 de fevereiro de 2020.


Querido diário:


Pois é, preciso de uma calça. Uma calça marrom ou bege para combinar com meu sapato marrom. Acontece que não aprecio muito a tarefa de comprar roupas. Já havia buscado as grandes lojas de departamento em um shopping do centro da cidade, sem sucesso. Quase não tinham calças sociais, poucas do meu tamanho, nenhuma da cor desejada.


Minha filha apontou uma loja, recomendando que eu tentasse ali.


-- Deve ser muito caro -- respondi.


Como ela achava que não, entrei na loja. O fato da loja estar vazia, com cinco atendentes ociosos, foi um péssimo presságio. Logo um rapaz avançou para me atender. “Preciso de uma calça social bege ou marrom”, anunciei. O rapaz procurou na pilha 46 e 48 sem sucesso. Só calças pretas e cinzas. Ele disse que ia procurar no estoque e sumiu. Aproximou-se um senhor mais velho, com uma bonita calça marrom.


-- Prove esta -- disse. -- É de tal e tal tecido de que não guardei o nome.


No provador a calça estava perfeita em cor, tamanho e caimento. Saí animado para levar duas, se houvesse uma igual em tom diverso.


-- Temos -- animou-se o vendedor. -- Num tom mais escuro.


-- E quanto custa? -- Arrisquei.


O primeiro vendedor já havia se juntado a nós. Foi ele que sentenciou:


-- R$ 699,00.


Por um breve e ingênuo momento, achei que ele estava brincando. O vendedor iria dar uma risada e anunciar o preço verdadeiro, apenas um terço daquilo.


-- 699 -- repetiu. -- Está em promoção.


Promoção? Imaginei qual seria o valor sem promoção. O que se seguiu é a cena constrangedora e tradicional. Está muito cara, disse eu. É importada, disseram. Não pensava gastar tanto, respondi. Mas é uma calça para toda vida, insistiu o mais velho, desde que o senhor não engorde. Falei que rodaria por algumas lojas, atrás de um preço menor. Juraram que eu não encontraria. Quando saía da loja, eles devem ter olhado com mais atenção meus trajes - simples e fuleirinhos - e concluído o óbvio. Era perda de tempo.


Bem sei que não sou um sujeito elegante, pelo contrário. enganar a mim mesmo dizendo que meu charme é minha deselegância. Às vezes expresso este pensamento em voz alta, embora ninguém compre. Mas a questão não é essa. Eu até poderia dispor dos R$ 699,00. A calça realmente era bonita. Mas francamente: R$ 699,00 por um pedaço de pano?


Por melhor que seja o tecido, por mais sofisticado que seja o corte, ainda que preenchesse perfeitamente minhas necessidades, é um pedaço de pano! Nenhum pedaço de pano deveria custar tanto… Já se disse que o valor de um produto é o preço que alguém estiver disposto a pagar por ele. Pouco importa seu valor real ( custo de produção + impostos + lucro ). A camiseta suada de um pop star pode valer milhares de dólares porque haverá centenas de fãs dispostos a pagar valores absurdos por ela. Esta é a base mesmo da especulação. No século XVII, a primeira notícia de uma bolha especulativa ocorreu porque holandeses estavam dispostos a pagar valores totalmente irreais por bulbos de tulipa… uma insanidade que fez a fortuna de alguns e a miséria de outros.


Então, devo acreditar que se o vendedor anunciou este preço, certamente alguém comprará a calça sem qualquer sinal de escândalo. Eu, contudo, não conseguiria pagar ¾ de um salário mínimo por uma calça. Devo ser um idiota, mas o fato é que não me sentiria bem; poria a mão nos bolsos e pensaria em milhares que sobrevivem com um salário mínimo. Por outro lado, sentiria que desperdiçaria recursos preciosos para minha família; sempre há coisas úteis para comprar e outras tantas para consertar. E finalmente, aquela balela de é uma calça para a vida inteira certamente não se aplica ao relaxo com que trato minhas coisas.


No final, não sei se o episódio me torna um bom pai de família, um indivíduo com solidariedade social ou simplesmente um baita mão de vaca. Mas não me sinto um sovina… apenas não pagaria R$ 699,00 por um pedaço de pano.

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