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REPUBLICANDO CURITIBANICES

Originalmente publicado em 20/05/20


Província, cárcere, lar, esta Curitiba eu viajo

Alguém já escreveu um dicionário ou glossário de nossas esquisitices para instruir os estrangeiros que aqui aportam e se vêem perdidos; não o li. Curitibano por adoção, conheço e entendo o estranhamento dos estrangeiros, afinal, já fui um deles. Há as curitibanices clássicas, leite quente, almoço em Santa Felicidade, Boca Maldita, o vampiro de Curitiba (ambos, o da Ubaldino e o personagem); há as novas curitibanices, como o Oil Man; as antigas, como a Gilda (que aliás virou nome de bar). Na rede, claro, a turma do Tesão Piá se esmera na hilária competição de ridicularizar os bons e maus hábitos do nosso povo. Todos têm, claro, seu repertório próprio de curitibanices.


BOCA MALDITA – Curitiba, que não passa de um aglomerado de aldeias conectadas entre si, mas no fundo pouco comunicativas – alguns mais exaltados falam em apartheid social, outros, em regime de castas, à sua escolha -, tem suas instituições típicas, curitibanamente restritas aos moradores da vizinhança e que, aos poucos vão se tornando conhecidas no resto da cidade, e frequentadas por áliens. Estou falando dos bares, lógico. Cada bairro tem o seu, à sua escolha. Ali, na Boca Maldita e redondezas, há alguns bem antigos. O sanduíche de pernil com verde do Bar Mignon tornou-se sagrado como as vacas sagradas da Índia, a ser comido em pé, no balcão. O Stuart e o Maneco, ali na esquina da Alameda Cabral com a Praça Osório, tornaram-se igrejinhas onde se adoram as saudáveis comidinhas e bebidinhas que fazem a alegria de cardiologistas e nutricionistas recém-formados.


BALAS ZEQUINHA – Já mencionei aqui as Balas Zequinha, ou melhor, as figurinhas das Balas Zequinha. Recém-chegado a Curitiba, ainda abrigado na casa de meu avô, na Rua Nilo Peçanha, perto do antigo Grupo Escolar Prieto Martinez, saí atrás de balas. O vendeiro não titubeou e me deu umas balas Zequinha. O pasmo que tomou conta de mim, ao descobrir as figurinhas, foi uma das grandes iluminações da minha vida – até hoje tento recuperar, na minha vida medíocre, o misto de espanto, maravilhamento, dúvida, prazer, que tomou conta do piazinho na volta para casa. Não lembro do sabor da bala.


PRAÇA DA ÁRVORE - Na Rua Cláudio Manoel da Costa, na fronteira entre o Bom Retiro e o Jardim Schaffer, uma imponente e solitária paineira saúda os passantes. Meu amigo S., um intelectual com um humor sardônico, morava em frente. Outra amiga, de algumas quadras abaixo, para lá se dirigia, fugindo à incompreensão do pai, para fumar, solitária e clandestina, uma erva não convencional. Um sorumbático que também morava lá perto (nenhum deles se conhecia), tinha a paineira como refúgio, onde lia poemas de Fernando Pessoa.


Sol nulo dos dias vãos,

Cheios de lida e de calma

Aquece ao menos as mãos

A quem não aqueces a alma



O que tinha a paineira para atrair jovens com tendência à depressão, naqueles exatos momentos em que, sem saber, estavam se preparando para o grande salto na vida?


CALÇADAS – Sabe por que curitibano anda sempre cabisbaixo, olhando para o chão? Para não cair nos buracos das calçadas. Essa é uma das verdades evidentes da cidade. Eu mesmo já fui vítima das depressões, buracos, crateras, fendas, interrupções sem fim que espreitam os incautos andarilhos curitibanos que ainda se dispõe a exercer a nobre arte do flaneur. Pobre Baudelaire, como era dado ao vício terrível da embriaguez (pecado nunca por demais execrado pelos bons), em Curitiba há muito já teria sido internado na Santa Casa, ali na Praça Rui Barbosa, de onde só sairia em cadeira de rodas, com isso deixando a flanerice de lado. Perda terrível à literatura. E daí?, diria o obtuso contumaz. Às favas o flaneur, a literatura e paspalhices que tais. Bem, buracos, crateras e traiçoeiras depressões (estas as mais perigosas) à parte, as calçadas curitibanas fazem parte do encantamento da terrinha. Quando em outras plagas, nunca deixei de comparar nossas calçadas com as alheias. As de Nova Iorque são melhores, os calçadões do Rio são mais amplos e a paisagem mais bonita, etc. Mas onde quer que eu vá, o pinheiro estilizado e os pinhões batem mais forte.


PRAÇA DO SKATE – Ao lado do Cemitério Municipal havia uma modorrenta pracinha de cidade do interior que Curitiba já foi. O prefeito Jaime Lerner teve a feliz idéia de construir ali uma pista de skate. Os jovens agradecem enquanto tomam sorvete no Gaúcho. À noite, os mais velhos se reúnem no Bar do Pudim. Do outro lado da rua, encostada ao muro, a sempre reverenciada Maria Bueno sorri. Ela também gostava de viver perigosamente.


COLÉGIO ESTADUAL – Teria muito a falar do colégio (uma das maiores curitibanices já criadas), mas aqui quero lembrar o quadro A Terra Prometida, de Theodoro de Bona, que se encontra exposto no Salão Nobre. Espanta que tenha havido uma época nesta cidade em que alguém se propusesse a decorar um colégio público (ou privado) com grandes pintores da terra. Gosto em especial deste quadro, em que de Bona retrata o momento em que sua família se estabeleceu em Morretes. Um homem, uma mulher, um bebê de colo, olhando sérios e esperançosos para o futuro. Nós, curitibanos, já fomos assim.


No Youtube, o Tesão Piá tem um canal onde a curitibanice é motivo de gargalhadas. Se você pedir, a Professora Tânia, diretora do Colégio Estadual, talvez permita um tour para apreciar os quadros expostos no Salão Nobre (depois da reforma que está em curso, e depois da pandemia, lógico). Os curitibaníssimos bares nos bairros bem merecem uma visita. Faça sua própria lista. Não esqueça de visitar o cardiologista depois. Dalton Trevisan, que me ensinou a amar esta província, cárcere, lar, este eu viajo.




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