O desdém de Romeu Zema pelo patrimônio de Minas Gerais
- CAIO BRANDÃO

- há 20 horas
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Nota do Editor: É com grande satisfação que o Dialéticos recebe o cronista Caio Brandão. Neste artigo, com a acidez e o refinamento que lhe são peculiares, o autor propõe uma reflexão crítica sobre a gestão pública mineira, o desdém pelo patrimônio histórico e as contradições do estilo político de Romeu Zema. Uma leitura imperdível para quem busca ir além da superfície do cenário nacional. Boa leitura.
ZEMA, NÃO DESDENHE DO QUE NÃO LHE PERTENCE.
Por Caio Brandão
Coloco Zema, ex-governador de Minas e agora postulante a substituir o PT no comando do país, na galeria daqueles que renegam valores ancestrais, desprezam o patrimônio histórico e cultural de Minas Gerais e, como num açougue político, desossam as instituições preservadas ao longo de décadas, sob o peso de nossos costumes, usos e tradições.
Mesmo tendo nascido na Santa Casa de Misericórdia de Araxá, instituição cuja data de fundação remonta a 1885, Zema não absorveu a atmosfera circunspecta do lugar e cultiva menosprezo pelas nossas coisas e pela nossa gente. Veio ao mundo em outubro de 64, sob o signo de escorpião, que, apesar de suas qualidades, incorpora uma pessoa intensa, de intuição aguçada, mas que também guarda teimosia na geladeira — quiçá por influência da regência do planeta Plutão.
A Terceirização da Gestão Pública e o Modelo Corporativo
Zema provou isso ao renegar profissionais capazes e diligentes, disponíveis ao alcance da mão, para buscá-los em outros estados — com destaque para o setor privado e mediante os serviços de empresas especializadas em recursos humanos — para prover cargos executivos e de secretários de Estado, além da cúpula de empresas várias, dentre elas as joias da coroa, Copasa e Cemig. Esse recrutamento, esdrúxulo para os nossos padrões, preteriu tanto profissionais do quadro comissionado quanto de carreira, além de pessoas probas e competentes, zelosas na sua diligência laboral ao longo de vinte ou trinta anos de exercício no cargo.
Lupicínio Rodrigues, músico, cantor e letrista também consagrado no samba “Esses Moços”, alertou para o perigo inerente à mocidade — e, por óbvio, alerta extensivo àqueles que, sem experiência e vivência no setor público, agem com a arrogância dos imaturos. O clássico verso bem caberia a eles: "Esses moços, pobres moços! Ah, se soubessem o que eu sei". O resultado desse voluntarismo corporativo está aí: Zema sabe muito pouco de muita coisa, apesar de sua robustez econômica, particularmente no tocante às pessoas e às letras. Vale lembrar que Lupicínio era o “arquiteto da dor de cotovelo”, dor que os políticos conhecem de perto, não apenas pelos desencantos amorosos, mas principalmente pela dor de uma eleição perdida e a condenação à planície, rasa, temerária e sem privilégios.
Enfim, o resultado não podia ser diferente, em face das urgências do governador afoito e ávido por mostrar serviço. Logo no início de seu primeiro mandato, em 2019, Zema buscou aplicar o modelo de gestão da iniciativa privada no setor público. Após a sua eleição e durante o período de transição governamental, o partido Novo e a equipe de Zema fecharam parcerias não remuneradas (pro bono) com organizações especializadas em seleção e gestão pública — como a Aliança, que envolve a Fundação Lemann, o Instituto Humanize, a Fundação Brava e o Vetor Brasil — para selecionar os novos secretários de Estado de forma supostamente técnica.
O Programa Transforma Minas e a CPI da Cemig
Posteriormente, essa prática foi institucionalizada por meio do programa Transforma Minas, coordenado pela Secretaria de Planejamento e Gestão (Seplag). O programa passou a utilizar processos seletivos baseados em competências para preencher cargos de subsecretários, diretores, superintendentes e assessores em diversas pastas. Essa contratação de recrutadoras (headhunters) para gerir e selecionar a cúpula de estatais mineiras gerou grande debate e acabou espelhada na imprensa, com registros que permanecem na nuvem.
O ápice dessas contradições foi parar na mira da CPI da Cemig, instaurada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) em 2021. O relatório final da comissão, com mais de 300 páginas, detalhou graves irregularidades administrativas e apontou o que os deputados classificaram como "aparelhamento político" e uma tentativa deliberada de sucateamento com vistas à privatização da estatal. O documento com todas as responsabilizações foi encaminhado ao Ministério Público, ao Tribunal de Contas e a outros interessados, e deve dormitar inconcluso em alguma prateleira a dedo escolhida.
O Desprezo pela Liturgia do Cargo e o Palácio das Mangabeiras
Contudo, ainda que em apertada síntese — jargão da magistratura —, busco ajuda no anedotário nacional para, infelizmente, retratar o nosso ex-governador. Despreparado para a função pública em face, talvez, da sua origem notadamente privada, Zema pisou na liturgia do cargo, em flagrante desrespeito à nossa tradição. Entregou a uma mostra de decoração o Palácio das Mangabeiras, que hoje se presta a festivos eventos privados no local. Foi morar no bairro Bandeirantes, próximo à minha casa, tratando o Mangabeiras como se o Palácio fosse dele. Ora, more o Zema onde quiser, inclusive trajando mangas de camisa, como costuma desfilar, mas que deixe preservado o Mangabeiras, legado de Juscelino Kubitschek, projetado pelo renomado arquiteto Oscar Niemeyer e com o paisagismo de Roberto Burle Marx. Romeu não entendeu que o governante seguinte pode querer habitar o lugar — espaço do qual conheci muitos de seus labirínticos aposentos, nas gestões dos governadores Francelino Pereira e Newton Cardoso.
Mas, Zema agora quer ser presidente, mesmo com menos de 4% das intenções de voto. Dizem que é pouco porque ele ainda não é conhecido nacionalmente. Digo eu que, quando se tornar conhecido, a intenção dos eleitores cai para 2%.
A Parábola de Jorge Dória e as Peças Desaparecidas
Romeu Zema faz lembrar conhecido humorista do programa Zorra Total, da TV Globo, no início dos anos 2000, o notável Jorge Dória, que incorporava o personagem Aquiles Arquibaldo. Aquiles era um morador de rua que destoava completamente do clichê: vestido com farrapos, tinha uma postura extremamente aristocrática, usava vocabulário erudito, conhecia profundamente a alta literatura, a ópera e a filosofia, e carregava um refinamento digno da realeza. Quando alvo da caridade alheia, reagia com indignação diante de esmolas insignificantes e soltava o jargão: “Para quem já teve a frota da Companhia das Índias Ocidentais... isso é uma esmola, uma humilhação!”.
Zema, a seu turno e no sentido inverso, mesmo abastado apresenta-se e sem pudor, com extrema pobreza de vocabulário, visível dificuldade para lidar com verbos — até os mais simples —, fala arrastado e com sotaque de alguma gruta remota que teria sido ocupada pela antiga tribo dos araxás, veste-se mal — o que é bem diferente de simplicidade — e demonstra total desprezo pela liturgia do cargo que ocupou e pelos bens que integram o patrimônio público dos mineiros, fruto do trabalho e inspiração de várias gerações. Sobre isto, deputados querem saber o destino do mobiliário e das peças históricas, que desapareceram do Mangabeiras.
A Lição de Tancredo Neves e o Estilo Ensaiado

Ruy Nogueira, do alto de sua memória singular, conta que Dona Risoleta, esposa de Tancredo Neves, teria dito ao marido, então governador, que gostaria de levar um quadro de Portinari, de sua coleção, para adornar o Palácio da Liberdade. Tancredo vetou a iniciativa, alegando que ninguém veria o quadro entrando no Palácio, mas muitos o veriam sair. Logo, melhor não, concluiu.
Isto posto, pergunto se o conjunto da obra é real ou apenas ensaiado para consolidar um estilo? Zema é mesmo o que aparenta ser? Não sei, não gosto e não quero saber.
Vou parar por aqui, para não estimular a produção do hormônio cortisol nos leitores, responsável pelo mau humor.
*Ilustrações por Caio Brandão, com Gemini.

QUEM É CAIO BRANDÃO: O autor é advogado e jornalista, tendo atuado na Administração Pública e na iniciativa privada, em Minas Gerais e no Paraná. Atua como cronista e analista, unindo erudição cultural, resgate histórico e olhar crítico sobre os bastidores do cenário político nacional.
Leia também no Dialéticos:
Do mesmo autor (Política com Ironia): Trilogia Caio Brandão (I): O cinismo e o voto nas eleições – Uma análise de bastidores sobre as urnas e a ironia política que complementa perfeitamente as críticas feitas a Zema. [1]
Bastidores e Histórias de Minas Gerais: As ampolas do DOPS, os bilhões do Vorcaro e a lista dos motéis – Outra crônica ácida de Caio Brandão focada nos segredos e na história de Belo Horizonte. [1]
Para conhecer a trajetória do autor: Caio Brandão narra suas aventuras no Paraná e em Minas Gerais – O texto onde o portal apresenta a biografia política e executiva do cronista sob governos como Newton Cardoso e Itamar Franco. [1]










Excelente texto!